Abri as janelas. O ar que
serpenteia as cortinas do quarto é macio e aveludado. Cheira a nêsperas. Estou
há sete minutos e vinte três segundos tentando entender a lógica de um
besouro-criança que, em contato com os meus dedos, está se fingindo de morto.
Neste exato instante, estou empurrando o suposto defunto com a ponta do lápis para
ver se ele reage. Que razão haverá para que ele se conserve na morte? Abriu um
dos olhos. Não posso precisar se ele está me espiando ou se recompondo do
susto. Levantou sacudindo o pó cintilante das asas. Alçou voo. E, ao que
parece, já voltou à normalidade. Caso catalogado e arquivado sob a letra (i).
De indecente. Uma borboleta de asas inteiramente eclodidas pousa em um canteiro
de margaridas. Um casal de pássaros se batiza por aspersão na água fresca que
se desprende do furo da mangueira. Os hibiscos flutuando nos entornos do lago
anunciam que o outono está próximo. Paro por um instante e detenho-me na imagem
acorrentada pela água. Os espelhos continuam distorcendo os reflexos. Fantasmas
de lembranças balançam a corda em que se equilibra o artista. Silêncios se
acotovelam nos corredores extensos como se quisessem e pudessem se libertar de
um pesadelo. Atados apenas pelo nó cego do desejo. Saliva, suor e gozo bramem,
lentos, na desordem dos lençóis e travesseiros.
Há uma particularidade nestas imagens... Elas nos conhecem. Mergulho a
torrada no mel espesso e, enquanto observo, inunda-me uma doçura imbecil,
frágil, débil. Uma cerejeira floriu em frente à minha janela. Exceto por mim,
ninguém mais pode vê-la. As iniciais gravadas no tronco fazem charme para que
eu lhes volte os olhos. Acaricio os galhos, a flor, o fruto e sorrio como quem
se perdeu e se achou em um sonho. Explicam-nos as estações, as quais, nada do
que respeita a mudança escapa: não adianta nos disfarçarmos de fruto quando a
vocação é de caroço. Esta a fealdade: já não sermos capazes de fazer qualquer
leitura da paisagem. Não é quando estendem os braços, mas quando estendem os
olhos que me alcançam.
lídia martins
9 comentários:
A poeta nos aproxima da maciez aveludada de um sonho, a palavra habitada. Imprescindível pétala nesta época em que as sementes custam a brotar.
Sensualidade, hermetismo, atemporalidade. Mistura mágica de raros poetas.
Eu sempre gosto das imagens que você cria, mas esta expressão me surpreendeu. Tem um quê de Manoel de Barros ou Adélia Prado....não adianta nos disfarçarmos de fruto quando a vocação é de caroço. Parabéns pelo texto!!!
Fantasmas de lembranças balançam a corda onde se equilibra um velho sentimento. Todo esforço de sublimação pode vir abaixo. O desejo tão duramente contido tem agora unhas de aço, forjadas num calabouço à prova de todo sonho. Frágil, porém, se tiver que resistir à paixão do homem que vê nessa mulher o verdadeiro tesouro entre todos os universos.
Saudades, moça. Para não variar, mais um texto impregnado de imagens coloridíssimas. A verdade é essa mesmo; às vezes, para que possamos ser uma estrutura frondosa de novo, é impreterivel saber o caminho de volta ao caroço. Bjos
Cedo ou tarde catalogamos com a letra i de incidente todos os silêncios que há pouco se acotovelam na porta do cine-fantasia-que-é-nossa-mente no afã de assistirem a ultima sessão de novidade; também, inadvertidamente, catalogamos as marcas de suores, gozo e saliva nos lençóis que há muito não se desfazem de prazer. Chamamos de incidente o atropelo antigo das bocas que se procuravam louca e docemente. Assim fazemos com as lembranças-fantasmas que há bem pouco embalavam o artista que sempre ganhou a vida sobre a corda bamba. Mas quando cai a cereja não é um
Incidente também? A cereja bela que reluzia na janela. Contemplar a cereja antes da queda também não foi um incidente? E quantas vezes nos fingimos de morto para atenuar o incidente de cair diante de tão belos e imensos olhos? Então, não seria toda a vida um emaranhado de incidentes que vão sendo levados pela água do rio?
Desculpe-me... O texto me levou por uma porção de rizomas e acabei me perdendo (ou me achando) ao comenta-lo.
Na verdade, eu só queria dizer que belo texto. Só senti falta do besouro no fecho. Mas talvez eles sempre batam asas e desapareçam antes do fim solene.
Beijo
:p
Achar-se no sonho,
e que o sonho seja bonito,
acho que acredito que no sonho
multiplicam-se vidas,
saudade de você, bonita,
como vai a vida e o sonho?
Beijo
Be
*
Estas ações
Tão sãs
Ou vãs
Vão pelos vãos
Do arrepio dos pelos
Que vento nos cabelos
Como não vê-lo?
São
Alcancem ou não
Que a metáfora da mão
É o espaço
Mente
Tal fazer...
Oi Lídia, tudo bem? Tenho uma revista on line, chamada "Revista Escrita Pulsante", e gostaria de publicar este texto seu? Você permite?? Até mais, Priscila.
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