1.20.2018

A REBELIÃO DOS GIRASSÓIS

Arte: Gabriel Pacheco


Para Maria Camila, 
[a mulher que deixou de ser palavra para ser só poesia.]

     
                   Alegria e tristeza, no final, de certo modo, têm o mesmo significado. Outro dia, voltando da escola, me peguei pensando na palavra esperança. E se ela não passar de uma invenção nossa? Um amigo poeta disse que vale da mesma forma. Está chegando a hora de apanhar a maleta, subir naquele trem e finalmente saltar da plataforma. Hoje fui ao trabalho fantasiada de médica dos anos 30. É manhã de quarta-feira, do dia quinze de maio, do ano de 1925. Estamos na primavera. Tenho dois ingressos para o Grand Diner Dansant de Moda: Pan-American Jazz Band Copacabana Casino-Theatro. Na téla, ás 21 horas: "As Inconstantes", film Paramount, produção de William de Mille, em oito partes. Protagonista: Betty Compson. Mas não é nisto que estou pensando. Pela horda perigosa dos meus pensamentos desfilam lampiões a gás, bacias de água quente e fria, agulhas espetadas em blocos de linóleo, toalhas brancas, lençóis ensopados, tesouras de pontas, cordões multicor, cabeça de algodão, pele macia e azulada como banha-de-porco, braços torcidos como asas, e cabelos finos como espigas de milho. Todas essas coisas sem forma envoltas em grandes olhos azuis. São os seus, vovó? Repare bem nesta velhinha centenária, mal consegue se mover graças à interpretação que fizeram dela. Conceito de deboísmo do século XXI: é fogo ou gelo, não negocio? Tiranos. De que adianta abrir nossas caixinhas de quinquilharias e mostrar marmotosamente os nossos saltimbancos de dentes encouraçados, nossos malabaristas de seis braços, nossos pombos com correntes de ferro nos tornozelos e nossos pentáculos mágicos aos que não têm sequer olhos? Nunca houve leitores. Dá só uma olhada em volta. Estamos cercados de viradores de páginas. Isto, quando se dão ao trabalho de levantar a mão para passar a folha. Apesar de afetuoso, papai nunca foi bom na arte dos analgésicos e sedativos. A senhora devia saber. Da última vez que ele se automedicou, passou três dias e três noites no ambulatório do bairro recebendo advertências dos alunos do primeiro ano do curso de medicina, por seus discutíveis, embora revolucionários, métodos de cura para esquizofrenia. Não confie nele para voltar a este mundo cinzento dos vivos, minha muito querida Maria. É um péssimo parturiente, tanto de si próprio quanto dos outros. Hoje acordei com a lembrança daqueles bolinhos que a senhora fazia. Aqueles docinhos nos deixavam perigosamente comunicativos. Será este o motivo pelo qual não quis fazer mais? Às voltas com esta velha batedeira. Eu e minha mania de precauções. Vejamos o que diz o caderno de receitas: 2 ovos, 1 xícara de açúcar, 1 xícara de chá de leite, 2 xícaras e 1/2 de farinha de trigo, 1 colher de chá de fermento em pó, 3 colheres de sopa de açúcar, 1 colher de sopa de canela. Misture todos os ingredientes até ficar uma massa mole e homogênea, numa panela com o óleo bem quente com uma colher vá colocando as bolinhas até dourarem... Vovó, como eu lhe dizia, quando eu tinha dezessete anos, eu me apaixonei perdidamente pelo meu professor de literatura, depois pelo professor de ciências. Seu passatempo favorito era... Refresco? É tubaína. A senhora não gostaria de falar um pouco? Chocolates? São de sombrinha. Era nessa cadeira de balanço, na varanda, que ela costumava se sentar. Balas de caramelo? São do Zorro. Que careta é essa, vovó? É só bigode de leite Quik que a espuma desenhou em mim. Acha que as curvas estão versáteis como as de DalíEla quem...  Quer mesmo que eu lhe conte? Uma careta para sim e duas para não. Eu falo assim mesmo. A Sra. Rita, sua mãe, seu pai, o Sr. Antônio, sempre cantava Dixie's Land para ela aqui. Bons tempos aqueles do rádio, não acha vovó? Os ouvintes não paravam de pedir para escutar outra vez. Não se fazem cantigas e, desconfio, nem homens como antigamente. Já o número de canções ruins é proporcional ao número de moleques. Têm crescido significativamente. Esta casa está um pouco abafada, importa-se que eu abra um pouco as janelas? A senhora se recorda como conheceu o vovó Lázaro? Eu também não me recordo como conheci aquele bicho exótico de contrabando. Somos muito parecidas. Morro de medo de abrir os olhos e descobrir, mais tarde, que estava apenas deitada à sombra de uma árvore já plantada por outros. O que vejo é só fumaça que o vento toca de volta, mas ainda havia fogo quando pensei ir em frente. A parte estranha é que esta fumaça parece tão mais real que as outras. Aposto uma goma de mascar que... Vovó? Minha nossa! Temos de manter a calma. Não podemos agir como se fôssemos pessoas normais. A intenção original era que fossem bolinhos de chuva. Eu não devia ter ressuscitado o blues rural, mas que fazer se ele está mais vivo que nunca no banjo da nossa memória? —Frita outra bacia, fia. — ordenou a voz rouca de vovó Maria Camila, sacudindo os dois braços e as duas pernas na cama forrada de fumaça, saudade, excitação, e nostalgia. A realidade é apenas o que imaginamos. O que é mesmo, ainda desconhecemos.

P.S.: Escrevi essa correspondência para a senhora em dezembro passado. Vou mandá-la para o Além sem revisar, o que servirá de desculpa não só para os erros de gramática, mas principalmente para os conceitos dos quais estarei arrependida daqui a meia hora. Sabe, vó, há noites, como estas, de quase fevereiro, em que me sinto como um cão terrier ouvindo Dixie's Land ao gramofone. Reviro tambores e mais tambores na esperança de encontrar alguma verdade em meio a todo esse lixo. Sobram-me pés e olhos inchados. Cansa-me, às vezes, essa existência indigente. Testemunhar o escritor contemporâneo pregar uma alegria que nem ele próprio acredita é tão, tão, tão... Permita-me usar outro advérbio para dar ênfase: é muito triste. Recordo-me de estar em outro Estado quando noticiaram a sua partida, e de pedir ao motorista do ônibus que parasse em frente ao hospital onde estava internada. No entanto, quando expliquei onde ficava, ele devolveu que não podia ajudar devido aos 1.262 km de distância. Fiz ou desfiz as malas tão rápido quanto pude, peguei um pássaro metálico, e quando lhe contei o ocorrido, ele ficou como eu: perplexo, mutilado, imóvel. Ao menos chegamos a tempo de. Importa-se que eu suprima esta parte do relato? Estou usando as férias, que acabaram de acabar, para cuidar de uma ferida, que não cicatriza, no pé esquerdo do tio Messias.  Este aqui, que as pessoas dessa cidade tratam como o idiotizado babento, que escreve com os próprios excrementos e fala coisas estranhas com pessoas de outros mundos, com ênfase para os mortos. Sei que é dele, e tão somente dele, que está aflita por notícias. Outro dia, o tio revelou, na presença do Mordida, meu vira-lata, que não era filho do vô Lázaro, mas de um comandante da Guarda Revolucionária Islâmica. A senhora lembra-se de ter se deitado com algum? Não responda. Ele continua cuspindo o tempo inteiro em tudo o que vê pela frente, inclusive na gente. Acho que é o jeito que ele encontrou de demonstrar a sua repugnância pelo mundo. Às vezes, sento-me perto dele, observo bem o exemplo, puxo bem fundo e cuspimos juntos. A senhora devia experimentar, vó, é libertador. Naquela noite ele vomitou todo o doce de compota de frutas que a tia Lúcia fez, e não pregou os olhos, nem com a chicotada daqueles sete comprimidos que habitualmente toma. Quando perguntei o que se passava, ele explicou que não entende esse trem de pai e mãe que vai embora sem falar o que é que tem. Acho que ele quis dizer que ficou chateado. Enviei a fotografia do antes e depois da ferida para dois amigos médicos, e eles disseram que os curativos estão supimpas, e, se eu quiser, posso largar o Direito e exercer a Medicina. No mais, sempre que o levamos para o hospital, ele dá um jeito de fugir da sala de medicamentos para fumar escondido no banheiro, que nem a senhora fazia. Ser maluco tem lá suas vantagens, o mundo está cheio de pessoas comuns, em outras palavras, imbecis desventurados que nunca conheceram a felicidade. Leopoldo María Panero, por exemplo, fumante, alcoólico, heroinômano, bissexual assumido, diagnosticado como esquizofrênico, dizia que o tabaco cura a alma e ajuda a respirar. Tanto é verdade que ele retornou mil vezes da morte, ainda que não se veja agora mais que as suas costas poeticamente viradas para a humanidade. Gosto de pensar que a senhora esteja viajando, que nem a gente tinha combinado de fazer quando eu voltasse para casa. Sei que é difícil viajar sem mim, para fazê-la rir, mas isso não tem qualquer importância, faça amizades novas. Talvez esteja agora na Groenlândia, pescando e tirando selfies com ursos polares e focas-de-topete. Ou, quem sabe, tenha preferido fazer um safári na África, e se bem a conheço, já deve ter taxidermizado uma meia dúzia de animais errantes com aquela espingarda da ponta torta. Ou será que está em alguma aldeia longínqua da Ásia, ajudando o vovô e os outros cinco filhos a cavar poços de água, limpar pastos, e reparar estábulos? Não fica no sol quente.

Lídia Martins