11.18.2017

E VICE-VERSA TAMBÉM


                                                                         Arte: Gabriel Pacheco
                                                                                                                                      
                                                            "O nascer desse novo milênio precisa vir acompanhado da morte do ser autárquico, que se basta a si mesmo e olha os próximos como inimigos fatais, que economiza com usura suas palavras de afeto para poucos em raros instantes, que se "disciplina" e se adestra para não deixar fluir suas necessidades afetivas, para que, em seu lugar, possa surgir um novo jeito de se educar pessoas estruturadas pela empatia, pródiga em sua maneira peculiar de acariciar com palavras e suficientemente indisciplinadas  para não necessitar esconder seus anseios, revelar sua tibieza e exibir a bela autenticidade de rir e de chorar sem temor e sem censura. O século XX pode ter sido o século da "cor dos olhos"; nada impede que o atual seja o "do jeito de olhar."

Capítulo 13:
A Libertação da Carícia
Professor Celso Antunes
p. 97

                         
                         Viver é um susto, mas você pode fazer dele um suspiro quando encontra a direção. E Vice-versa também — me dizem. Há uma percepção de alma sempre presente em tudo o que tocamos, é certo. É como se, ao entrarmos em contato com os espelhos que nos desnudam, tivéssemos que construir muralhas por todos os lados, para invisibilizarmos a parte que humilha, entristece, constrange, e, por isso mesmo, duplamente negamos. Falava outro dia a um amigo, mesmo o gesto de ilimitar já é uma limitação. Nada que todos já não saibam. E o Vice-versa também, individual ou pluralmente considerado, que aliás, nem chega a ser ou mesmo ter parte nessa totalidade arrasante é o grande desafio de integração do nosso século. Para trazê-lo à frente dos olhos, passei os últimos dez anos contrabandeando puzzlles, tangrans, canções, totens, fotografias, oráculos, rosa dos ventos, cartolas de mágicos, serragem, trovões, relâmpagos, dândis, budas, cristos, caboclos, sacis, mulas, pintassilgos, ursos, índios, suçuaranas, grilos, sapos, vagalumes esfuziantes, florestas, rios, mares, planetas, e outros tantos símbolos que propõem variadas sequências de epifanias. Uma espécie de antídoto para imunizar a ação destrutiva dos estranguladores de sentidos. Podem continuar rindo à vontade dos meus sapatos de Forrest, dos meus sonetos de mau gosto, dos meus desesperos, eu não me importo. É preciso admitir que, o Vice-versa também, quando confrontado com os fatos, não sobrevive à uma análise realista, infelizmente. E talvez, por essa razão, estejamos fadados a cair no mais absoluto abismo de toda essa falsa solidez que pensamos estar construindo, em outras palavras, cumprir o nosso destino de notáveis latas vazias jogadas no chão, sem nada dentro. É como tentar decifrar os indecifráveis códigos de complexidades que nos regem nessa infinita sucessão de possibilidades, sem, uma vez mais, termos  suficiente humildade de admitir que somos misteriosamente por eles regidos. Sabendo de tudo isso, qual o sentido de prosseguimos com as propostas minimalistas de redução da nossa capacidade infinitiva, com direito, ao final da jornada, a talvez, com sorte, uma senha para a fria fila dos consultórios dos analistas? Estou pensando na palavra esquecimento. Não se poderia sugerir, por exemplo, a chance de nos apresentarmos novamente para, enfim, nos desconhecermos, e se for mesmo preciso, nos despedirmos? Dessa vez, não sem antes agradecermos uns aos outros por tudo o que nos contaram que não aconteceu, mas que se tivesse acontecido, a parte de nós que importava ficar nunca teria se erguido. Não é do topo que se começa a escalar a montanha. E isso poderia ser o paradoxo de Fermi, quando, exausto daquele rosário de  números e cálculos, refugiou-se ao pé de uma para meditar sobre as misérias da existência, e fundamentalmente inconcluso, deixou cair a seguinte indagação: "se existem outras terras, então cadê todo mundo?" Não haverá saltos quânticos de consciência enquanto não fizermos a transfusão de potências. Nunca precisamos tanto dessa troca de sensibilidades para continuarmos respirando. Na última quarta, a caminho do trabalho, entrei em um sebo e, enquanto os meus olhos passeavam pelos títulos, um livro caiu-me na cabeça feito um meteorito. Magnífico  sentenciei. É exatamente assim que gostaria de entrar na vida de alguém. Terminada a leitura, acabei por levar o livro para a escola e, no Divã da Paz, realizado na manhã de hoje, inalamos uma das lições da orgânica obra "A Teoria das Inteligências Libertadoras" do Professor Celso Antunes, especialmente construída para alfabetizar adultos e crianças e que, do alto de sua simplicidade, há de acompanhar-nos vida afora: não podemos aceitar menos que “o sentido de todos os sentidos” incendiando as nossas veias. 

Lídia Martins