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8.23.2014

PARA BRUNO,


o ladrão de recordações a quem prometo amar senão até o fim da vida, ao menos até o fim destas linhas.

Peguei a caneta, tentava escrever, mas as palavras marejavam nas páginas, como se anunciassem a chegada de uma tormenta inesperada. Escrevo cartas de amor em noites chuvosas. Eu não choro. Já as vidraças... Outro dia me perguntaram como vão os meus sonhos. Respondi que eles estão descansando. Logo mais os acordo. Caladas as buzinas da lira, trago-me à frente de teus olhos para que estas palavras possam, então, passar em revista. Não farei silêncio. Vou bater latinha. Pensando no bem estar da saúde oral decidi abrir a boca e inspecionar os dentes cariados da Vida. A começar pela língua. Fiz assombrosas descobertas. Toda sorte de placas, tártaros, cáries, aftas, ulcerações nas mucosas, etc. São tantas as enfermidades que, desconfio, nem que passássemos por um curso de Odontologia entenderíamos os fenômenos psíquicos, físicos, químicos e biológicos que estão apodrecendo as pessoas por dentro. Quanto mais umidade, mais solidão e mais silêncio melhor. Húmus. A terra fica ainda mais fértil e, é bem aí que estas larvas do Ego-Rei se proliferam. Como o fim é sempre por onde começo dar-lhe-ei as razões que me levaram a manter bem vedados os limites do nosso contato.
Bruno... Gostaria de se sentar? Eu vou me sentar. Não me importo de compartilhar a mesa com o teu fantasma  contando que ouça o que tenho para dizer agora. Bruno... Quando penso em amor a primeira palavra que me vem à cabeça é: construção. Estamos todos por fazer. Somos canteiros de obras em um mundo que para assumir qualquer compromisso chega exigindo a casa pronta. As pessoas se esquecem, não raras vezes, dos pilares que precisam erguer para que o lar possa se sustentar. Esta é uma das razões pelas quais (e digo isto em tom confessional) todos os meus laços de afeto se resumiram a este emaranhado de nós gigantescos. Os que chegavam e de pronto ofereciam seus suntuosos castelos procurei manter ainda mais distância. Não se constrói uma vida cimentada na ilusão tampouco no orgulho. Vi todos estes reinos ruírem Bruno, um após o outro. 
Você é bom em silenciar Bruno, mas temo que não seja tão bom em escutar o que dizem os silêncios, sobretudo alheios. Ansiei pelo momento em que você me diria... Espera mesmo que conte isto a todos? Isto resume o rumo que tomou as nossas vidas.  Sempre que faço qualquer movimento em tua direção tenho a sensação de estar batendo na porta da casa de uma pessoa que, em que pese ser irrecusavelmente íntima, me trata como uma desconhecida. A viagem ao íntimo dos nós mesmos foi adiada e comecei a me perguntar: não teria ela sido cancelada? Vendo a mudança de propósito de tuas paisagens internas desloquei-me para o susto de teu ir e vir de extremos, teus rastros confusos, teus pensamentos esquivos e senti que você, assim como eu, passou a arrancar a casca das feridas das horas em busca de respostas impulsionado, talvez, pela vertigem alucinatória da falta.
Tornei a pensar na possibilidade de que você tivesse mudado de ideia quanto a nós dois e passei novamente a sujar os meus sapatos caminhando outra vez pelas ruas e avenidas de tua memória vendo nelas lembranças nossas... E se tudo não passar de ingenuidade minha, rasgue esta carta ou mostre-a aqueles seus amigos que lhe darão uma infinidade de alternativas, e resultará que de seus devaneios retrospectivos não vão conseguir mais do que abrir uma imensa fenda nestas linhas. E vamos, não seja tolo Bruno, aproveite o ensejo para sorrir um pouco. Além do mais, não tenho qualquer problema em fazer papel de idiota. Não é a primeira vez e certamente não será a última. Corrija-me se eu estiver enganada, sobretudo porque sou “expert” em ver amor onde não tem. Outro dia preparava um chá de hortelã e ao acender as chamas do fogão vieram dois palitos grudados. Vendo-os totalmente incendiados exclamei exaltada: Minha nossa! Este é exatamente o tipo de amor com que sonhava. Vejo amor em todo canto, até em palitos de fósforos. 
Sou uma mulher cheia de sonhos e desejos que, na falta de um príncipe apto para o amor prefere fantasiar com cavalos encantados. Estudando a lógica de seus cascos, oriento-me. Ao contrário dos homens eles têm a exata dimensão de quão árdua, selvagem e dolorosa é a trajetória pessoal do crescimento. Pois bem,  pergunto a ti sem nenhuma lira, já que ela costuma chapar os contornos mais nobres do senso prático: calamos ou abrimos a boca da Vida para tratar estes males da língua Bruno? Não farei mais perguntas e nem esperarei por respostas. Hei de contentar-me com este sorriso único, infantil, mudo. Se o amor é mesmo um jogo permitirei, então, que me derrotem sempre. Quanto se trata do outro não vence quem sobre ele se ergue, vence quem diante dele se rende. 
Neste mundo de eternos desencontros, em que as leis de causa e efeito se entrecruzam, isto quanto não se bifurcam, fico pasma com quantas voltas pode dar uma história. Depois do havido começamos a andar em círculos até diluirmos e, por fim, cair tontos um aos pés do outro. Sem nenhuma didática. Juntos, nos desaprendemos muito. Sempre intuí a densidade de tua presença por mais anônima que ela seja. Tua sombra me pesa. Não fugirei de minhas memórias. Ao contrário, andarei ainda mais devagar para que todas elas possam me alcançar. Só há uma razão para que eu lhe escreva às quatro e vinte cinco da madrugada: é na hora mais azul que os pássaros acordam suas asas. Venha até aqui, deixa-me apertar tua cabeça contra o peito arfante como se quisesse e pudesse abrir o coração para que o escute bater: por ti, por ti, por ti. Sempre que tua mão me toca, desmorono como uma rosa que o vento desfolha. Agora a tempestade se dissipa. O vento em riste foi reinventado pelo vestido, vela da paixão sem medida. No céu entre nuvens, a alma flutua entre os flocos de espuma. Perenes, os olhos espraiam-se pela imensidão do horizonte. Teu corpo, o oceano sem margens onde mergulho e afundo. Vertiginosamente.

Lídia Martins