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5.08.2015

POSTAIS DE OUTONO



 Imagem: Luca D'Alberto
  

            Sei o quanto anseia por isso. Pelo seu perdão? Não, pelo meu castigo. Acertei você! Onde? No peito gargalhei apontando para o borrão vermelho. Há o que se ver das janelas — me dizem. Afastei as cortinas de par em par, ergui os olhos e, fitando o pé da amoreira seca, fiz que não com a cabeça. Naquele tempo, o sol tinha um brilho alaranjado e as amoreiras davam frutos o ano inteiro. Desenhávamos bicicletas nos muros cobertos de flores e pedalávamos até chegar às nuvens. Depois, extenuados de tanto céu, voltávamos para o chão à procura de nossas raízes e, sem que nos déssemos conta, éramos invadidos por um delírio verde que nos cercava por todos os lados. Outro dia cortaram um casal de árvores velhas que ficava aqui perto. Não bastasse, atearam fogo nos troncos e cobriram os restos mortais com cimento. Recordo que, antes da poda secular, fixei aquela paisagem nos olhos e fiz deles um lar onde aquelas duas árvores frondosas pudessem morar. De vez em quando, meus olhos se enchem de pássaros. Eles entram com suas asas emplumadas, seus bicos cheios de ramos e vem cantar quintais adentro. Tão bom te ver de novo, Sol, ainda que seja apenas na minha imaginação.  Na vidraça, o ruído provocado pelo roçar dos meus dedos  era o único som a quebrar o silêncio. As casas e prédios do bairro pareciam naufragar no coração gelado do lago. As luzes da cidade apagavam-se nos postes como palitos de fósforos gigantes. Lá fora, de olhos afundados nas órbitas, o vento rodopiava levantando as folhas mortas...

Lídia Martins