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6.20.2015

O TRINADO DO DIABO



 
Fotografia: Musicista: Luca D'Alberto



                    A paixão é um assunto de alta nomeada para se esgotar em palavras. Eu não tenho uma teoria e, se calhar, nenhuma prática. Quantas páginas serão necessárias para que a literatura cumpra sua vocação e converta esta maldição encadeada de clamores metálicos em uma história que valha à pena ser contada? O arco feriu as cordas por uma, duas, três vezes e não descansou até fazer com que as notas se elevassem nos ares como lâminas transparentes. Em silêncio, fui percorrendo com a ponta dos dedos os cortes que elas haviam me feito no interior das coxas, braços, seios, rosto, lábios, e as lágrimas vertiam dos meus olhos como sangue derramado. Despertaram rios, peixes, árvores, flores, pássaros, dando à luz a um prematuro caos de sons que retumbavam no espaço como um fim prenunciado. Não era um violino, era meu corpo, o que aquele homem estava tocando. Ajoelhada em um canto, intercalei fervorosas preces nos lábios rogando ao imaculado Cristo de pedra manchado pela fuligem, pela pátina e pela miséria para que tivesse clemência daqueles que, vendo a luz, sucumbiram à tentação das coisas não reveladas e enveredaram-se pelo caminho das trevas. É como se um tornado, um terremoto, a erupção de um vulcão em uma determinada região onde eles nunca aconteceram me tivessem espatifado e todas as minhas partes desencontradas gravitassem em torno de mim como um cadáver planetário. O mundo está de cabeça para baixo e sinceramente acho que ele voltou à posição da qual nunca deveria ter se afastado.  Tenho desejos que nem eu mesma suspeito de tão secretos. O que está escutando? O Trinado do Diabo. Tartini foi testemunha ocular de que o demônio não é nosso inimigo. É, antes, nosso aliado. Enganam-se os que acreditam que a humanidade está em busca de salvação, ela sempre esteve em busca da perdição e todas as crenças do mundo não se resumem senão em encontrar uma religião que concretize estes rancores absurdos. Agora já não era para os outros, mas, apenas para mim que ele estava tocando. Em uma coreografia de suores e salivas, desejoso de ser, meu corpo respondia a cada toque e vibração do arco. Sinto calafrios toda vez que imagino aquele homem nu, cercado de misteriosos violinos, sob o clarão apocalíptico dos tratados de regência e circunspecção diante dos meus olhos estáticos. Sonhei que caminhava sobre brasas segurando nas mãos o cetro da paixão com sua chama medonha. Entre um silêncio e outro a música toca. Há muita memória sem palavras.


Lídia Martins