12.18.2016

O INSTANTE APARADOR


Arte: Rafal Olbinski

                                            Ler ao som de Stavros Lantsias - The River of Time

                    Tenho sonhado com um violino que toca sozinho. Nos meus sonhos o violino apresenta-se para um público de dezenas de mesas e cadeiras vazias. Sou a única que pode ouvi-lo. Tentei contar o número de vezes que fiz uso da palavra liberdade, perdi a conta no sete, meu número de sorte, talvez por isso precise pronunciá-la com tanta ênfase, para que algum dia ganhe concretude. Não pretendo continuar à margem da verdade. Ontem voltei àquele rio. Muito tempo se passou desde a última vez em que mergulhámos naquelas águas. Tempo demais. Não me pergunte o que fui fazer lá, você sabe, fui buscar instruções para chorar. Eu que acreditei que a Roda da Fortuna havia finalmente girado, descubro agora que ela não passa de um instrumento de tortura, criado pelos inquisidores para despedaçar o presente e o futuro, rodando em paroxismos de dor para delírio dos que passam. Aquela sequência de três cartas não queria dizer nada, absolutamente nada. Regresso do silêncio com um nome atravessado entre os lábios, na profunda solidão dos que estão condenados a vagar pelos becos soturnos do absurdo sem nunca ultrapassar a rigidez imposta pelos muros. As palavras se erguem  como fundições que funcionam dia e noite. Vozes distantes deslizam pelos telhados da cidade alta e ecoam nas chaminés, nas praças, na grama verde do parque onde vaga-lumes acendem e apagam feito centelhas liberadas pela fumaça. Caminho entre sonhos caídos, murmúrios abafados sobem pelas ruelas, e na tempestade de folhas que o vento espalha pela calçada, vultos se embaralham a outros vultos e desaparecem, inexplicavelmente, como formigas exaustas depois de cumprida a jornada. No semicerrar das minhas pálpebras fecha-se a única passagem que poderia nos levar de volta para casa. Pergunto-me se terei um final poeticamente justo, que nem aqueles dos livros de Sophia de Mello Breyner Andresen: E devagar tornei-me transparente. Ou dos filmes de Van Dormael: Mr. Nobody. Ou uma peça de teatro fulanizando o meu adorado Hamlet: O caminho é fim, gozemos. Olho os vãos dos meus dias tentando adivinhar a direção dos ventos, e o próprio buraco que o tempo me oferece desloca-se. Afogo-me nas águas do meu paralelismo e descubro que, no fundo, estamos necessariamente sozinhos. O tear das Moiras torna a lançar o fio da vida na roca do destino. Todos olham para um lado e eu para o outro. São ciclos dentro de ciclos que ora se fecham, ora se iniciam. Movo-me na paisagem criada pelas minhas próprias palavras, no entanto, há uma forma, uma cor, um ritmo: Pouso e voo; Amor e ódio; Apogeu e declínio. Eu bem-te-vi, na leveza dos pintassilgos, na liberdade dos pardais, na elegância das garças, encontro de todos os bicos, inclusive os nossos. 
Lídia Martins