6.2.10

Desamores



"Para de rir senão eu te jogo esse copo na cara!"

In.: A Dama da Noite.

aquele, o Caio.


O plano era levar a vida com um zelo evangélico. Mas não deu certo. Ela era agora uma delinqüente ocasional. Que não sabia resistir à tentação de dançar tango como um cego. Ensaiando desgarres acidentais, ao sabor da ocasião. (Possessa) - "essa palavra em sua acepção vulgar, supõe a existência de demônios de uma categoria de seres maus por natureza, cujo grau de dependência de outro espírito deixa a vontade de qualquer um paralisado". Anotei ontem num guardanapo, na aula de filosofia jurídica.  Guardo ou rasgo o guardanapo? Guardo. Ainda posso precisar dele para limpar outras sujeiras. Aquele Doce Novembro me vem a memória: "Será que a mãe dele sabe que trata as mulheres como prostitutas? Ou ele foi ensinado que ser gentil significa tratar os outros como lixo?" Mas que prazer é este de afastar as pessoas com as mãos? Eu não quero alcançar o poder tão cedo. Não vou correr o risco de me sentir maior que o mundo. É que meus olhos amanheceram mais agressivos que de costume. Ele não devia ter me acordado. Ele não merece nenhuma conta. E não precisa me levar não, eu vou embora a pé. Tem que haver um jeito de penhorar esses incontáveis maus dias. Tem que haver alguma coisa que estanque essa degeneração emocional. Que tire essa loucura de mim. Ao contrário, vou para o inferno. Eu não preciso de um médico. Preciso de um exorcista.



 
P.S.: (Tem um arranhão enorme e ardido no lado esquerdo do "meu peito". E eu sei quem fez.)


Te esqueço. Me esqueces.

Lídia Martins

4.2.10

Da morte



"Pelo amor de Deus

Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem

Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém

Abandonado pelo amor de Deus."
 
 
 
ela, a Maria Rita.
 
 
 
 
 
E nem tão longe da porta, o bruxo de sabás medievais apareceu. Eu nunca tinha visto um demônio de perto. Contei 74 anos. Passei as mãos pelos livros como se quisesse afugentar uma sombra. Ela me empurrou com desprezo. Ela poderia ter vindo a qualquer hora. Menos esta noite. O pavilhão escureceu rapidamente com a sua sacudida. Apoiei-me na mesa relendo aquela obra de arte, enquanto o seu silêncio lambia meus dedos. Acho que te entendo. Mas não muito. Toma pra você a  minha vela de cera. Deixe-me fazer uma coroa e colocá-la no canto junto do muro. Rezo. Mas seu bastão bate solene como um sino. E a sombra não vai embora. Ela está ali no canto. Não conte a ela que te contei.



Pipa. Te solto. Me soltas.


 
P.S.: É preto que ponho. O branco, eu deixo para uma outra ocasião.



Lídia Martins

1.2.10

Sem enfeitar: a noite do meu bem




Eu nunca sei o que dizer. Aliás, sei. Depois que a ocasião passa. Respondi um questionário de um instituto de pesquisas essa manhã. A última pergunta que a moça fez foi sobre opção sexual. Vejo que estamos descendo mais rápido a escada da evolução. Considerando o seu olhar atravessado, falei: Porque deseja saber? Ela me entregou um cartão, dizendo que entraria em contato. No verso seu nome: Amparo - outro nome bonito de puta mexicana. No mais, foi puro constrangimento. Ao sair de lá, entrei em um ônibus verde conversível. Atirei uma moeda de 5 centavos num tanque de carpas para ter um pedido atendido. Ao descer, avistei uma banca de jornal. E lá encontrei uma preciosidade política. Eu nunca tinha lido John Kenneth Galbraith. Depois que o conheci, confesso que a história contada por ele acerca do Capitalismo em "Anatomia do Poder" está me fazendo ver os esqueminhas de extorsão de valores até nas paredes do banheiro. Depois de muitos dias (3?) voltei ao Bosque. A velhinha corredora que me dá sorte não apareceu hoje. Encontrei uma prova semântica inegável sobre a palavra: num livro de receitas! (o estranho é que incluem geleia na lista). Ah eu quero uma ampliação do Sion da Cesárea Tinajero para colocar na parede do meu quarto. Não quero mais sair daqui. Estou cansada de negociar convicções. Esta cidade está me fazendo mal: sol; batatas fritas; Bolaño; queda de pressão; perda de sensibilidade da mão esquerda. Mas o horóscopo de hoje disse que todos meus desejos serão realizados. E eu, vou cair como um patinho.



Pipa In.: Garimpos Cotidianos. In.: Diários de um garoto problema.


Lídia Martins

27.1.10

Vida com cara de intervalo






A tarde não tem fim. Eu sei: sábado. Comer sozinha é a pior coisa dessa vida. Cheguei em casa sem avisar. Não faz mal. Não tinha ninguém me esperando mesmo. Atravessei a sala, vestida de preto. Minha cabeça está tão quente que acenderia um charuto a dois palmos de distância. Liguei a tv do quarto que só pega um canal. Me deu um aperto no peito a despedida de Lima e Belano em Port-Vendres. Isso antes de dormir. (um aperto no peito, não uma coisa ruim). Mas não gostei do que vi. E decidi ir até a cozinha arrastando a alma. Na geladeira: Bife de fígado: recordações do Clube de Ciências que eu formei na época do colégio. Com direito a sangue brilhando nas lombadas e nas capas da superfície limosa. Mas ele parece bem apetitoso. É tão verdade gente. Dentro da cultura eu fico oscilando entre o desejo e o desespero. Mas confesso que gosto de ficar em casa, ouvindo os sons dos bifes. Essa não, eu os deixei torrar outra vez! (3ª). Seria melhor pedir uma pizza e acabar logo com isso. Malditos bifes. Eu sempre cumpro minhas ameaças, nunca se esqueçam! Talvez devesse ir ao supermercado e procurar por broas, no departamento de quitandas. Sábado dramático - tá. Sábados piores já vivi. Estou tentando tudo pra não desfazer as malas que estão ali na cama. Mas eu tenho que ir embora. Minha nova idade não me deixa esquecer daquele verso de tango: “treinta años no es nada”. (a versão original fala de 20). Ohhhhhhhhhh! É um verso mentiroso! No apartamento da frente vive uma empregadinha (jovem) que divide o quartinho com pássaros em gaiolas. Passa roupa de joelhos sobre sua cama.  Ta eu me aceito. Estou tentando me encorajar a abrir logo esse envelope. Era só o que faltava! Outra vez o resultado de um eletrocardiograma quer me convencer que não tenho metade do coração. Mas que desejo constante de isolamento. Entre ir ou não ao cinema hoje, mudo do de idéia a cada 8 segundos. Mas, provavelmente vou gastar mais tempo resolvendo do que vendo o filme. É melhor que eu fique aqui. Respiro. Inspiro. Respiro. Inspiro. Respiro. Inspiro. De volta ao mundo real. Últimas horas para terminar o Arrighi. Amanhã saberei o que vai ser da minha vida pelas próximas duas semanas. Ele bem que podia vir me ver à tardinha. Ligo ou não ligo? Ligo. De quem não fujo, corro atrás.



Pipa: In: Garimpos Cotidianos - Diários de um garoto problema.



Lídia Martins

26.1.10

A teus pés


“Um garoto eternamente atormentado. Por trás do ódio jaz um desejo homicida por amor. Como podem olhar nos meus olhos e ainda não acreditarem em mim? Como podem me ouvir dizer essas palavras e ainda sim não acreditarem em mim? E se não acreditam em mim agora, algum dia acreditarão?"


eles, The Smiths.
(The Boy With The Thorn In His Side)
 



Sábado de sol: Desisto. É janeiro. Há muito tempo não fazia sol. E apesar do meu humor terrível: a) suportei o cara que veio colocar os quadros nas paredes. b) consegui concluir a versão de um poema. Eu quase morri na manhã de ontem (dessa vez, não por excessos). Foi num jejum de exame para sangue em que o enfermeiro me disse: É só não olhar que não dói. Falei: Isso vale também para pessoas? Eu tinha esperanças que quando voltasse daquele quebra-cabeças, conseguiria finalmente montar meu castelo. Mas não fui adiante. Nas pessoas, eu paro no meio. Quis tentar outra vez. Ameaçaram-me internar num hospício que fica aqui perto.  Depois de muitos dias (4?) - Tomei uma decisão sobre o amor: Outra vez futuro. Mas o que temos aqui? “Esperanza”- nome bonito de puta mexicana. É que hoje eu estive na biblioteca demonstrativa e tive uma sensação de claustrofobia quando pensei no que estava fazendo com a minha vida. Eu me recusei por muito tempo, depois perdeu a graça resistir. A propósito: Quando mais preciso: meu “Os Donos do Poder" (vol. 1) sumiu. Eu não deveria tê-lo amaldiçoado. Ele bem que poderia ter me levado pra casa. Eu precisava. Às vezes acho que meu estoicismo atrai desgraça. O que há detrás daquela janela? Agora passo para o Hauser. Depois daquela noite eu nunca mais fui a mesma. Alguma coisa secou de um jeito que não tinha mais volta. Só ficou um poço seco e cheio de ranhuras. Dali pra frente eu faria qualquer coisa pra me livrar dos meus pensamentos. Inclusive, voltar ao trabalho sem afrouxar as gravatas, enquanto “The Smiths” se acabavam no meu mp3.



P.S.: O mundo está cheio de música. Talvez seja medo do silêncio.


Pipa. In.: Garimpos cotidianos. Diário de um garoto-problema.


Lídia Martins

25.1.10

Para minha Serena Cris




“Eu não sei como ela pode terminar se nem mesmo começa.”




In.: Alice. Aquela das maravilhas.



Do que a Serena disse:


"Meu coração parou. Sabia que ele não resistiria a mais um impacto. Fui covarde com ele ao me atirar daquele precípicio. E ele parou. Acabei matando meu próprio coração. E agora, faço o quê? Onde encontro pra comprar? O dano está feito. Irreversível. As dores, como se fossem de parto. Tudo por causa daquele abajur nazista. Ele me feriu de febre. E eu acabei o ferindo com palavras duras. Palavras de aço que eu não costumo usar. Mas era preciso. Tou sentindo que é o fim. E o fim daquela alegriazinha boba que me acompanhava vezenquando. E daquela coisa verde chamada esperança que mora no peito. Foram-se. Junto com meu coração. Mande rezar uma missa. Acende uma vela de sete dias. Me faça levantar do túmulo. Um beijo."


 
 
Do que Pipa lhe questionou:


Sobre a mesa da sala, tinha um resto de jantar para dois. Eles não comeram e nem beberam nada. E fiquei pensando se ela gostava mesmo dele. Um dia, alguém me disse que se você começa a pensar se gosta mesmo de alguém, é porque já deixou de gostar faz tempo. Falei. Ela não disse a ele o queria. E lá bem no fundo, ela sabe disso. Mas que coração mais gótico meu Deus, cheio de labirintos que se escondem atrás de muralhas. Como uma criança que brinca de soldadinho. Ela ataca e recua. Só que dessa vez a acertaram com uma bala de metralhadora. E o tiro salpicou a parede da igreja. Mas a bala era de festim. O coração dela só estava tremendo. Só não sei se era de medo ou de frio. Ainda não decidi.



Pipa. Toma esse calmante aí serena.

Te abraço. Me abraças.


Um beijo.

24.1.10

Retalhos de sonho




O que aconteceu com seu rosto? Não vi o soco chegar. Minha cabeça bateu contra o teto do saguão, desintegrando sobre os feixes de agulhas elétricas. E quando voltei a ver a luz, foi da chama de um maçarico. De sorte, que levantei os olhos a tempo de surpreendê-lo. Já não tenho nas mãos aquela espada. E nem o escudo. Quase ninguém sabe disso. Naquela noite nem o sono me visitou. E continuei ao lado do silêncio, observando meu coração se desprender do corpo, como uma alma em fuga querendo abrir caminho para o céu. Subi lentamente temendo que ele viesse abaixo caso eu me atrevesse a voltar atrás na decisão de esquecê-lo. Segurei a maçaneta da porta. Enquanto ele bateu por três vezes. Não quero que ele veja meu rosto. Muito embora essas marcas sejam as menores. As piores estão aqui dentro.



Pipa. In.:  De alma enfaixada.


Lídia Martins