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10.30.2014

Domingo, 10 de abril de 2011.

 
 
 
Imagem: Lara Zankoul

 

A Irmã Reencontrada


 Para Lídia Martins
irmã de palavras.

"Desde os olhos, mas só quando deixavas a alma ficar debruçada no parapeito dos cílios, olhando perigosamente o abismo de pessoas que cruzavam a rua erma em que vivias. Sem ainda levantar os olhos para os teus, para certificar-me de que eras tu e de que me vias, eu intuía a densidade de tua presença, com as ramificações periféricas do órgão do sexto sentido - o sismógrafo que registra a intensidade dos mais sutis movimentos interiores, sejam próprios ou alheios.
 
Era uma perturbação sutil na lâmina d'água, como se o remo que o provocava ainda estivesse longe. Com um olho fechado dos que perscrutam, aproximei o outro da abertura do copo: uma minúscula borboleta, quase apenas um grão de voar, de asas não inteiramente eclodidas, debatia-se na superfície. Eu sabia o quanto era insuportável viver na superfície e por isso empurrei-a com a ponta do dedo para o fundo do copo, onde ela poderia, finalmente, respirar, como de fato observei que fazia, pela efervescência que, pouco a pouco, tomava conta da água. 
 
Primeiro, pequenas bolhas, como se hesitasse em levantar fervura. Depois, bolhas maiores, que se desprendiam do copo e revoavam janela afora, estourando, no mais das vezes, a pequena distância, tão logo entravam em contato com a transparência azul.
 
Assim, corri à rua, ao encalço de uma grande bolha, esta que a borboleta-grão tomou como nave para escapar à estreiteza do copo. Suas asas incipentes propulsionavam desgovernadamente o voo da bolha por dentro, a alguns, poucos palmos da minha cabeça. E foi assim que vi, por trás das neófitas asas cintilantes, tua alma-irmã debruçada à janela.
 
Como soube que eras tu, perguntaste-me depois. Brinquei, tentando quebrar o gelo, que ninguém fazia silêncio assim, com tamanho estardalhaço. Mas teus olhos se estilhaçaram de lágrimas e eu entendi que não era ainda o tempo do riso. 
 
Mostrei, então, no pedaço amassado de papel que trazia no bolso, a parte da palavra que estava comigo. Foi aí que  tu te lembraste que, quando despertaste à beira do Rio, numa pequena canoa em que vagaste à deriva por muitos e muitos anos, trazias em volta do pescoço um pingente-relicário, que entesourava um outro recorte, semelhante ao meu. 
 
Cada pedaço era uma palavra inteira e, ainda assim, a irregularidade das bordas rasgadas  implorava uma complementaridade de encaixe. A mim tocava uma constância escura. A ti, ai de ti: o turbilhão. Abrimos, ao mesmo tempo, a palma da mão, com a palavra-pedaço que carregávamos dentro: Eu, sempre. Tu, viva."
 
Roberta Mendes