"EL AGUA DE LA NOCHE"
Relámpago.
Arte: Gabriel Pacheco
BA.bel. Sc.21. Junho de 2018. Inverno em Gotland. Noite do Escândio na Terra-rara.
"Yayá, você quer morrer?
quando morrer,
morramos juntos.
que eu quero ver como cabe,
numa cova,
dois
defuntos!"
Padim Xisto
Man-hã? de incursão nos estádios imaginários, sobe-desce de escadas, vozes misturadas umas às
outras, a voz ética, a voz única. A faixa de boas-vindas está escrita em árabe
e diz: "Voltamos à nossa escola, apesar da destruição." A menina de
rua, a que reina sobre os homens por ser capaz de jogar o futebol deles está de
volta. Como assistir ao espetáculo de músculos e coxas nas curvas ecoadas e fechadas
se o rosto é evitado? Se a cabeça está inclinada para um único ângulo? Se os
cata-atlas ainda precisam de mapas para encontrar os atraentes beija-flores
sorvendo o néctar dos pecíolos das folhas elípticas das helicônias? Todos
esperam o final vencedor, braços agitados, pernas em movimento, o toque cômico
no terreno desnudo, o giro mordente, a perda da ingenuidade, a desintegração de
barreiras, o estremecimento de traves, homens-peixe presos em redes, tombos e
derrapagens, carrosséis de rodas de chopes, mesas de cabarés giratórias,
sofás-cama dançantes. Todos ridículos na sua falta humilhante — diria Brodósqui
— o buda sem flor de lótus de Portinari. Na Caatinga desolada, obscuras
sementes de mandacaru carregadas pelo vento quicam dançarinas em verde e
amarelo, na apogiatura longa de uma pequena nota que só entrega seu justo valor
quando executada. O corpo amoroso da flor de fogo está estendido no faxeiro de
papel fabriano e a planta baixa do sol sorri na serigrafia com tiragem póstuma.
A rapariga de trancinhas com jarros e bilhas está no centro e tudo se lhe
submete, tudo é para ela, a corda, a forca e as cabeças decapitadas. Hoje vou
ao trabalho fantasiada de engenheira. Depois de tantos séculos catando sucata
para encher os bolsos dos donos de ferros-velhos não é possível que eu não
possa passar o dia com este disco de cobre preso neste cabo e este imã em
formato de ferradura para testar a potência curiosa destes dois pólos ruidosos.
Negativo e positivo. E se eu unisse os fios invertidos e os ligasse no galvanômetro? Um
golpe de sorte e esta agulha vai fazer girar o mundo, nem que seja por um
milagroso segundo. Isto se a tensão induzida for proporcional à variação do
fluxo. Em Io. Que estouro foi este? Só pode ser o Bunsen, aquele bicudo alemão
tentando arruinar a minha descoberta com estes experimentos fracassados de
indução eletromagnética. Detesto ter de admitir isto mas foi Lenz, um tatu estoniano disfarçado de espião russo quem ganhou a partida de pelada quando disse que o
símbolo L é a encarnação da indultância, em outras palavras, nenhum magnetismo
ou fascínio poderemos exercer sobre o outro a menos que ambos os corpos estejam
na vertical, olho no olho e de igual para desigual, e claro, de braços inacreditavelmente abertos trocando juras de
suores e salivas num aproxima e afasta no giro da espira. Meyembipe —
sussurram-me os aborígenes, a descoberta dos elementos, o rio, a água e a sede. Eram peixes demais e as garoupas ainda estão lá, a correr por água abaixo sob
a fuça da nação indignada. Moraes da história? Nada disso foi mérito nosso, e
sim de umas coisas não nominadas aí, quando, há aproximadamente 300 milhões de
anos atrás, no período carbonífero da era Paleozoica do éon Fanerozoico todos
éramos algas e fungos ainda, e nem se cogitava a existência dos
rinocerontes brancos, lâmpadas de mercúrio ou craqueamento de petróleo, uma
Pedra azul parada no fundo do rio enamorou-se de um exoesqueleto
estrategicamente descartado por uma Meganeura Monyi. A Meganeura Monyi foi o
maior inseto voador que já pisou, e receio, ainda continue pisando a face terra
e o único capaz de crescer tanto e em tão pouco tempo. Não aconteceu nada
de interessante neste romance entre
Pedra azul e Meganeura Monyi, muito embora a controvérsia de que os insetos do
período carbonífero nunca tenham passado de fósseis não mineralizados prevaleça
até os dias de hoje. Por outro lado, os exoesqueletos não mineralizados passam
por incontáveis metamorfoses, e são leves, embora precisem de pouca energia
para formarem-se. Diferentemente do crocodilo Gavial Gangético catalogado por
Gmelin, mais um espécime ameaçado de entrar pelo elevador dos fundos de algum
museu imperial do mundo. Disse ele em suas anotações que os crocodilos machos
Gavial possuem uma espécie de bola em seu longo focinho, que é para conseguir
fazer o maior número de bolhas possível enquanto estiverem mergulhados no rio,
e acreditem ou não, esta estratégia faz com as que fêmeas apaixonem-se
instantaneamente por eles. Gmelin foi outro explorador de insetos e sua relação
com o homem. Nunca se decidiu quanto ao que ser quando crescer, e não se deixou
seduzir nem pela medicina, nem pela filosofia, nem pela zoologia, nem pela
mineralogia e nem pela química, e nem por coisa alguma, e sua dúvida, assim
como a minha, fez com ele optasse por todas elas, já que todas as substâncias, as vivas e as mortas, destas
passarelas abertas entre o céu e a terra estão interligadas e cedo ou tarde,
voltam crescidas, cobrando a conta. Uma ocasião houve que Gmelin teve um surto
de irritabilidade vegetal, não resistiu e, bem, atualmente é um dos tantos residentes de uma esverdeada sepultura no cemitério de Friedhof. Recentemente, Gmelin decidiu despertar de sua letargia e junto com os seus colegas
de tumba, está aprofundando seus estudos em ligação iônica, um
tipo de união química baseada na teoria da atração eletrostática de forças com
cargas diametralmente opostas, capaz de dar o sentido de todos os sentidos e à
todas as coisas. Sleeper, em inglês, quer dizer: dorminhoco. O que é que eu
disse? Dorminhoco! Quer que eu soletre? Dorminh+oco. Junte os elementos isoladamente insignificativos e acrescente manjericão, pimenta,
gengibre, limão, gelo e bata no triturador elétrico de orgânicos,
só assim para sentirmos o gosto do sumo. Cansam-me estes experimentos de destilação radical de sufixos. Nem depois de morta dão-me sossego. As plantas são a prova de que, mesmo as substâncias mais puras, sentem frio e
precisam do calor da luz do sol para aquecê-las. Todos querem chegar ao miserável ponto de
fusão na esperança de derreter o gelo que encobre o coração, e esta constatação vale tanto para as criaturas do reino vegetal quanto animal. Esquecem, porém, que
é preciso gastar uma dose extravagante de energia para induzir a transformação. Estou
pensando em bolas de meias, gangorras, cabras-cegas, arcos e ganchetas, no bungee jumping das bilocas assombradas saltando baboseiras das latas
engorduradas dos moinhos do fluminense, na lagoa das tretas repletas de rãs e
sapos oportunistas, nos flamingos submersos da praia de botafogo, nas partidas
de dama e xadrez e nas mangas da batina do frade cheias de copas e áses para o
desespero dos seus colegas canastreiros, álbuns de figurinhas antigas, trovão
giratório e bate pavão! A onda, aos poucos, avoluma-se. Estamos em junho. Mês
dos quentões, dos cachorros-quentes, dos devotos da paçoca, do arroz-doce
salpicado de cravos, dos carrinhos de pipocas carameladas, das espigas-de-milho
tostadas na manteiga, das canjicas granuladas de canela, dos pinhões cozidos
com casca, dos bolos de fubá, das tapiocas recheadas, dos amendoins
torrados, dos espetos de queijo-coalho,
dos caldos de vaca-atolada, dos acarajés com sete malaguetas machucadas, dos
pés-de-moleque, dos quebra-queixos, dos cuscuz quarentões, dos pés-de-moça, das
marias-moles e das chicas-doidas, essas maçãs-do-amor que perderam o ponto da
calda. Olha a semeadora tirando a porca do parafuso no vira-mundo de ferro!
Olha o menino do tabuleiro no pirocóptero da gargalheira! Olha o
espanta-pássaros enlaçado pela trepadeira-sapatinho-de-judia em plena
inflorescência azul e branca! Olha a colona calunduzeira sentada na banheira
esfregando a perna com raízes secas de alcaçuz, olhos de tigre e
figueira-brava! Olha a Denise pedindo a benção para o padre Clemente! Olha o
palhacinho com cara de mutuca na gangorra! Olha o papa-moscas jogando tarrafas
nas locas de barro do brejo repletas de cortadeiras-vermelhas! Olha o faiscador de almas com a água suja até a cintura! Olha o
capoeirista arrebentando as correntes do cepo para tomar um gole de cachaça
destilada de melaço e borra de açúcar! Olha o seu João Cândido trotando animal
e magnífico em seu corcel alado sobre o circo de papelão de jornal, teatro de
revista, rádio e televisão afundados! Arre! Éguas de Rugendas! Não é mentira, é
o choro e é a polca e é o corta-jaca e é o samba, este fuzuê de Callados,
Jacob's, Patápios e Pixinguinhas descarrilhando os trilhos da Maria-Fumaça e
estreando passos inéditos nos arraiás afogueados do meu sonho de infância. Já
não se ouve o som dos tamborins, os
pratos e reco-recos e cuícas foram todos pilhados, os pandeiros já não marcam
qualquer ritmo e a percussão está ausente nas cordas do bandolim à malagueña do
maestrO Virtuose. A orquestra para e, esperando passar o inverno, a Ave-mãe do
próximo ano salta da árvore da vida para acompanhar o voo rasante dos meninos
pulando carniça, empinando pipas, jogando pião, montando cavalinhos de pau,
soltando bolhas de sabão e faz a festa
entre os crioulos infernais das rodas de peteca, brilhando com a cadência de
uma estrela que brinca de amarelinha e, sozinha, funda a esfera que faz de
besta todos os Golias da face da terra. Nos frios pátios das penitenciárias,
nos subúrbios, nos morros, nas favelas em fino contraste de óleo sobre masolite
com os casarões destroçados dos patrões, o coração cangaceiro evita a vertigem
dos degraus e já não bate dentro da camiseta arfante. Eis o lugar, a dança não
nomeada da estrada do chapéu, do algodão, do pau-brasil, da borracha, das
pretas carregando tocos de lenhas no alto da cabeça, das indiazinhas de tetas à
mostra chupando toros de canas com
marimbondos na ponta, do milho, do arroz, do feijão, do café, do cacau, do
leite e do mais puro mel. A pelé pré-adolescente e sem qualquer maquiagem já
não sente vontade de dançar para o rei, não sente! Sou um torrão de rapadura adoçando o café na
xícara de porcelana com a asa quebrada de um compositor de lundus e chulas.
Isto é bom que dói, pai-Brasil! Padim Xisto, o que acha de, na próxima
partida ou chegada, usarmos a velha estratégia de ataque fulminante como ponto
de referência e soltarmos outro enxame de abelhas africanizadas? As fecha-tempo
são lisérgicas, uma ferroada puxa a outra e as furiosas estão loucas por gestos
de rendição e entrega total à sua pessoa. Bofes de rapôza em pó? Sebo de viado?
Pêlos de sovaco de morcego? Sangue de bode? Cerco de unto de porco montês?
Labaredas de cascas de jetaí? Abraço de urso polaco? Barreiras de mandíbulas
das formigas safári? Aborígenes atordoando peixes com flechas de ponta de osso?
Defensiva do caranguejo cubano? Acasalamento do pinguim-imperador? Pulo
versátil da orca cassando focas no Alasca? Abdução do Allodesmus do Mioceno?
Mergulho fatal do marreco? Faro dos roedores Indoyus? Chifrada de escaravelhos
do mediterrâneo? Carrapato no couro do carneiro? Patada do Rodhocetus? Saco de
pulgas dos Condados do Arizona? Dentada de lança do Durodon? Pé de coelho
branco cedido involuntariamente para dar sorte? Risca-faca na melancia
coalhada? Pressa do jabuti encasquetado? Peitada do Basilossauro? Linguada do
tamanduá-açu? Bae de cuia do pai Gerson e da mãe Dina? Dança do frango
destroncado que desempata a teima e retira as pendências? Cuspe de mamba negra
da Índia? Paciência dos cágados no barril de pólvora? Desvitrificação da
Faiança? Zumbido combinado de cigarras do subsolo russo? As suas asas finas
precisam de tempo para secar até que possamos escutar o seu canto. Toda esta
volta na pré-história para descobrir que a ladainha do pé na jaca não é
brasileira, é asiática! Não faz indiferença. Confesso, irmãos de pelada, que
estou aliviada. Era a viajante do planeta a caminho, a bruxa sem vassoura
incendiando a devastada floresta das sextas-feiras, a rosa de ninguém
perseguida pelos anjos de todas as idades, de todas as cores e de todos os
sexos regressando das profundezas das águas vigiadas pelas tira-olhos de asas
diabolicamente abertas a voar ao lado e acima das nossas cabeças. Fora dos
campos já não canta o agreste mensageiro-relâmpago de touca xadrez em nanquim
aquarelado. Nos gramados alagadiços de terra batida, de areia fofa e de
cimento, nenhum ritual de desvio, nenhum louco, nenhum possuído! Misturai-vos!
Soleil's sem Cirque! Ilusionistas titereiros das dispensas sem mantimentos!
Acrobatas de bandeirolas extraviadas! Equilibristas sem prumo das cercas de
arames farpados! Arlequins e pierrôs e colombinas tapando-se aos trapos da
vergonha destas saias e calças com remendos na popa! Malabaristas de infinitas
mãos e pés rachados! Bailarinos excessivos dos terrenos baldios carregados de
vitórias e derrotas Várzea! Sem a vela fluorescente do meu passe miudinho
arrastando um crocodilo familiar entrançado pelo empuxo do vento nas cordas
silvestres da rabeta da jangada de troncos em formato balanço africano acabada
de surgir no horizonte rosazul da Braïa dos mineros: à Rio de Janeiro, para
evitar o contrabando dos quintos do ouro, estão todos perdidos — pensei comigo.
E a lunduzeira segue, requebrando a garupa sagitária na capa da partitura do
telhado da terceira casa e arrastando a mugunzada no fio da melodia sibarita
genuflectindo na baba acetinada do globo repentista! E o ciclone Hayley jÁtácá em um
riacho qualquer do Sri Lanka. Eu atrás, de cantadô pioiento, na fosforescênça
da bateia à procura das duas gemas de safira que escapuliram dos teus zôio, Ôlinda Stars de cimitéro! Entonces encontrô meu prendendô de cabelo-louro? Quanto mais eu puxo mais dá liga!
lídia martins
