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9.22.2014

La Danza Del Lladrós



 
 
 

Gosto dos espelhos porque mentem. Fogem com a nossa imagem, oferecendo a cada um exatamente o que querem ou, por assim dizer, o que podem ver. Tudo para que não tenhamos acesso à dura verdade. Olhos vermelhos, boca amarga, disposição zero. Que deprimente.  Hoje acordei me sentindo a quintessência do pó de Hamlet. Aliso a capa, troco impressões abstratas, aspiro o perfume das folhas. Os livros estão sempre escondendo alguma coisa. As palavras fingem-se compreendidas, as histórias fingem-se vividas, as páginas fingem-se viradas. Apoio os cotovelos sobre estes solilóquios bem elaborados e não é outra a conclusão que chego: a solidão acabará nos apodrecendo. Um século incrédulo este em que estamos vivendo. De homens que festejam a morte e celebram o esquecimento.  Abri as janelas. No quintal, secaram os girassóis amarelos. Todos ao mesmo tempo. Mais que separados, estávamos desenraizados. Os sóis que tanto esperamos nasceram sem nós. E suas luzes maciças nos espiam pelas frestas, dourando as maçanetas de nossas  portas sempre fechadas, sem nunca ultrapassá-las. Então é a isto que vamos dar continuidade? À nossa separação, à nossa solidão, à nossa infelicidade? Ouvi o ruído dos golpes, das vozes, dos gritos. Você pode salvar-me. Não sem alguma dificuldade. Procure na parede, logo à frente, atrás do quadro onde Van Gogh teria pintado aquele jarro com estes doze girassóis desgrenhados. Antes, esfregue bem esta lixa, remova as sete camadas de tinta, raspe o concreto até chegar ao osso do tijolo mais ocluso. Na primeira abertura há um baú em miniatura. E, na segunda,  encontrará uma antiga concha. Está dentro dela a chave enferrujada que procura. Você é  o proprietário legal desta geografia de instantes. Não os desperdice. Pegue a chave. Agora gire o tambor. Ainda funciona. Girou? Eis o tesouro oculto: uma pequena falésia oca, fria e morta, em formato cônico, similar a de um punho fechado, crivada de balas  e cheia de buracos delicadamente talhados nas pontas destas rochas que toda primavera fazem mossas assimétricas na parede descascada da memória, vigiada por um casal de noivos Lladrós, transformados em bonecos de porcelana por terem sido vistos dançando a valsa melancólica do amor. Não adianta procurar pelo noivo, ele se quebrou. O destino é sempre tão imprevisível. Gosto de pensar que ele ainda guarda intacto o encanto de quem o imaginou,  mas nem sempre acredito. E para além do horizonte vai, finalmente, ver em alto relevo uma inscrição cuneiforme onde rabisquei  nossa ponte. Você o sabe... Não haver portas era não sofrer o terror da passagem.
 

Lídia Martins