18.5.18

PINGENTES DE MĀORI




"Quando me ergui,
banhada pelas águas,
junto aos imortais,
Cípris tornou-me uma 
estrela nova
entre as antigas
Ao ir em frente...
até o fim do outono,
em direção do Oceano."
Calímaco


Cidade do Destêrro
Ilha dOs Casos Raros
Outono de 1919
Noite na alma dos homens

Ao insepulto cavalheiro do além-túmulo,

I

Tenho sonhado com uma flauta que toca sozinha. Nos meus sonhos, a flauta apresenta-se para um público de dezenas de mesas e cadeiras vazias. Sou a única que pode ouvi-la. Trago à frente dos teus olhos impressões abstratas trocadas com uma cidade do Sul. E não, Mr. paul, elas não são exatamente quadriculadas como aquelas ruínas vivas que rabiscastes em tua última carta. São muito piores. Concretaram tudo. Os riachos foram todos fechados por barragens de pedras côncavas, feito aquelas que escureceram a face de Madonna amamentando aquele moleque arteiro no altar da torre sineira. Até a réplica dO Castelinho Trugize, perto da ponte de luzes, que me prometestes, foi reprojetado para servir também de mictório público. Não foi ao redor de uma árvore frondosa, com um vigoroso Adão e uma delicada Eva,  mas de um esgoto que deus construiu esta terra arrasada. Só mudaram as moscas. Em alguns casos, nem elas. O antigo rio da Fonte Grande, forjado nas fraldas do Morro da Boa Vista é hoje um fosso de despejos, fruto do trabalho anônimo e forçado dos escravos, pelo poder de mando dos feitores e capatazes do passado e receio que do presente futuro. As escavações no subsolo foram proibidas e há castigos impronunciáveis para o caso de algum curioso cair na tentação de explorá-lo. Esfarinhou-se a tábua, não há pilares neste não-lugar e nem criaturas em condições de fundá-los, só estilhaços de estátuas com um eu no centro, como os doze apóstolos, esculpidas em tamanho natural e pedra sabão por aquele homem sem mãos. Mãe Terra, Nave gótica, Cruz macho e fêmea, são restos de bocas e narizes e olhos e orelhas e braços e pernas que caíram sem explicação alguma, os destroços empilham até o céu e não encontro um modo de soldar esta estrela violeta com doze pontas genufletindo no anular de minha mão esquerda.

II

No entanto, há esperanças, Mr. paul, há esperanças. Ela está em um homem que fantasiou-se de extravasor, em outras palavras, em um ladrão de caixas d'água. Ele entende tudo de tubos destinados a escoar eventuais excessos dos reservatórios e com a força impulsiva dos seus pensamentos que ora apertam ora afrouxam os registros reguladores, leva água roubada aos lugares mais distantes e elevados e a faz correr por toda parte, subindo e descendo até chegar às torneiras de todas as casas. O povo está bebendo dessa água do tal bandido alto de alma, de barba impecavelmente aparada, cabelos espetados e olhos excessivamente azuis, exatamente como aquele do teu quadro da moça e do rapaz com aquela colher de prata entalada no fundo da garganta. Comparei-os e definitivamente há correspondências com o adolescente irritado de vinte e sete anos do teu desenho. Reconheci aquele Copérnico recém-chegado de suas tantas viagens ao outeiro sem que ele apresentasse qualquer prova observacional de que era ele mesmo.  A água pura que dele entorna corta o universo a céu aberto, faz inexplicáveis percursos, dá inúmeras voltas, intromete-se pelas curvas escandalosas de todos os desvãos existentes sob a face da terra, à procura, talvez, quem sabe, de um leito digno de profundidade. É uma quantidade grande demais para os padrões escassos de nossa época. O arquiteto de  Kaudulla que  dá uma quota de mil litros de água para cada habitante da ilha em menos de 24hrs é regido pelos cinco ésses: Superioridade; Separação; Silêncio; Segredo e Sede e as águas que brotam dele não vem do chão mas do céu das madrugadas chuvosas. E por falar em sede, outra tarde, abri a nossa caixinha de quinquilharias e encontrei uma fotografia de Arthur Rackham, Peter Pan em um ninho de pássaro, flutuando sob a ponte. Repare bem, Mr. paul, é Quasi una Fantasia de Serenata Oriental, Le Déluge ou será Danse Macabre de Camile Saint-SäensEstou enviando o postal para que o Sr. possa recordar-se de como eram os pássaros dos nossos quintais. Olhe só para eles, Mr. paul, o que te parecem? A mim, lembra um civil abrindo caminho pelas ruínas de uma antiga Colônia, como naquela fotografia que enviastes, de berlinenses ocidentais acenando para os parentes do outro lado do muro em uma tarde qualquer de dezembro. Como está a ferida do teu pé direito marchando em ré menor por estes buracos de rochas com estas botas arrasadas? Espero que não seja um incômodo que eu possa sentar-me ao teu lado para curá-las. Aqui estão os teus chinelos e o teu pijama que, diga-se de passagem, está uns setenta centímetros mais largo. O Sr. emagreceu, Mr. paul, o Sr. podia ter ficado gordo, velho, careca, barrigudo, mas não, estás esguio, bailarino e brilhando em meios aos olmos das florestas entre os incontáveis riachos por onde passo. 


III 

Mr. paul, eu poderia persuadi-lo a caçar sanhaços? Há muitos pássaros de cantos exóticos em um descampado que não que não fica tão longe assim daqui.  Se o Sr. permitir-me, gostaria de apresentar-lhe um ninho em forma de taça que encontrei, por acidente, em um antigo arbusto, enquanto caminhava por uma estrada repleta de jardins com arrozais alagados, colinas cobertas de ervas e montanhas onde moram elefantes, leopardos, crocodilos e hipopótamos que encurralam seus filhotes distraídos em pequenos círculos para que possam proteger-se dos riscos constantes de predadores. A frondosa árvore fica à margem de um riacho espelhado e nela há ovos de um azul muito claro e, bem, são três da tarde e o casal de sanhaços deve ter saído à procura de alimento. No outono a região fica um tanto escassa de recursos e a fome os deixa alvoraçados. Talvez pudéssemos fazer-lhes uma surpresa. E, se desejar, traga o teu stand com regador e aqueles renovadores filetes de água dos baldes. De minha parte, posso preparar-lhes uma cesta de frutos, sementes de girassol e alguns insetos. Houve uma chuva de besouros da farinha na noite de ontem e ainda não sei exatamente que destino dar a essas pobres criaturinhas. Tenho certeza de que os pássaros vão adorar a nossa oferta. Mr. paul, sei que ficarás perplexo com esta revelação, mas não deves tocar nos ovos de radiosa beleza de propriedade do casal de sanhaços. Devo advertir que os pássaros ficam mal-humorados, sentem-se ofendidos e costumam relegar seus lares ao abandono quando violados por humanos. Tente conter os seus ímpetos de querer tocar em tudo que vê, Mr. paul, sob pena de fazer ruir, da fina matéria, o que ela possui de mais delicado. 

IV

Tão logo possamos alimentar os pássaros, com muito maior esforço, talvez eu possa convencê-lo a pescar em alto-mar. Quem sabe assim o Sr. possa matar esta fome de contato apertando contra si o acetinado corpo de... Um peixe-elefante? Há nas profundezas daquelas águas escuras e imóveis espécimes seculares, Mr. paul, criaturas de formas fantásticas que, especialmente aos fins de tarde, ancoram os dorsos elétricos e exibem seus dentes serrilhados com indefinível serenidade em numerosos pontos da margem. Aprendi a usar o anemômetro, Mr. paul, este aqui com visor maior, que me deixastes. Posicionei-o na frente da janela e consegui fazer a leitura média do vento de acordo com a vasão. 7.5.3. Por enquanto, os ventos estão em regime estacionário. O mistério é que,  por este tubo, escoa um fluido das linhas transversais das correntes que parecem dizer que viver e vegetar são partes do mesmo surto de felicidade. 

V

Há, contudo, um desarrolho de pássaros no escuro, um calafrio de setas transpassando borboletas no palpitar dos muros de pedras, um pavor de âncoras içadas no denso negrume das águas. Goya, Ensor, Kubin, Klee, Van Gogh, Matisse, Delaunay, Make, Marc, Kandinsky, Mondrian, Léger  por favor, anjos de farda rindo ignorância da população humilhada, não deixem cair suas espátulas nos picadeiros fantasmas da natureza morta. Estou pensando na pureza do monóxido de carbono, no exílio de Dreyfus imaginando Émile Zolla contemplando o horizonte espetado por centenas de milhares de agulhas de fumaça das fábricas, no matraquear dos guindastes repletos de cargas dos navios recém-chegados das profundezas do porto. Isso parece uma reunião de impressionistas, alguém sabe esclarecer quem diz o que, numa ordem que eu entenda? Merci, Cézanne

VI

A paz não virá, nem por céu nem por terra. O passado é um capítulo reaberto e estas folhas destacadas que voam como hinos de Hosana sob as nossas cabeças mostram que estamos encharcados com o caldo oleoso que escorre da nossa própria sujeira. Tudo foi artificializado, adulterado e falsificado pelos contrafatores dO Grande Teatro. Os poetas, os músicos, os pintores, os filósofos e os exploradores nunca passaram de sonhadores e enganaram-nos a todos, exceto a si próprios. Onde está o armistício? Nos papéis? Sairá de lá? As pontes vermelhas por onde os equilibristas atravessavam para acrescerem-se uns dos outros permanecem infrequentáveis, uma após a outra, ruíram ancenstralmente sem solução possível. Como caso clínico, nossos cartazes de estudantes de escola secundária suplicando por mais afeto entrarão para a história, não apenas desta terra derrotada, mas para as enciclopédias psiquiátricas. A ambição insaciável dos comedores de dólares em fazer da fraqueza alheia combustível para manter acesa a chama dos seus egos inflados continua beirando ao intolerável. E já não se pode distinguir o que é mais deprimente, se é ser testemunha ocular da barbárie ou ver os desmemoriados reproduzirem esta perversidade. Farão eles ideia do mar de lama em que as civilizações de todo o mundo estão afogadas? Saberá a mão direita o que faz a esquerda com o dedo indicador sempre no ar para assinalar a grandeza da soberba, da brutalidade, da truculência? Ou estarão eles acima do bem e do mal, como descendentes de deuses ou demônios que, incapazes de assumirem seus erros, transferem para o outro a culpa dos seus próprios transtornos? Degenerados são os que se atreveram a mostrar o óbvio para algum curioso que sob o essencial quisesse demorar os olhos. Partiram-se-nos todos os espelhos. Dos cacos multiplicados pela luz incandescente que metralha as vidraças e abre uma fenda negra no chão do quarto, erguem os reflexos.

VII

O rolo compressor esmaga a cortina de tule que bordei para o quarto e a casa levanta voo deixando entrever as patas do inimigo metade gente metade cavalo, pisoteando furiosamente a argila imprestável do pântano. São bombas, granadas, gases e saraivadas de balas ocultas voando das mãos dos soldadinhos de borracha da minha maquete de papelão. Com o que sonham? Pisar a terra prometida do meu ventre? Como explicar a eles que não houve sobreviventes, que os dedos caíram das mãos antes mesmo que as alianças fossem colocadas e que a "felicidade" é a única palavra dos dicionários que só faz sentido entre aspas?  Nenhuma emboscada de ternura nos espera, nenhum Nazareno, só estes trapos de lenços brancos acenando das vidraças quebradas nas janelas solitárias. Só esta vontade vegetal de silêncio, pedra, montanha, aurora boreal, tempestade de gelo, torre, barco, flâmula, colina, disco solar, cruz-flor, amores-perfeitos. Já nas ruelas abandonadas, baratas e ratos saem das tocas e invadem as dispensas das casetas à procura de chocolate, geleia de frutas vermelhas e queijo Cambridge, em um dia garoento da minha submersa Destêrro.  

VIII

"Vê essas coisas ao seu redor e olha para elas com um segundo olho"  – me dizes.  Olho ao redor com um segundo olho e, ao longe, um navio fantasma recebe ordem de regressar para a sombra de onde veio. O almirante reluzente de silêncio toma nota dos iguais, mas diferentes variômetros que giram como cata-ventos fora de controle por detrás dos ponteiros do manche e entre sustar ou não a saída do barco, muda de ideia a cada quatro segundos. A nau do medo tomba, abre uma cova na água salgada, mergulha como um sonho fantástico e é salva pelas trombas de um casal de elefantes selvagens que brinca de chafariz nas correntes profundas da Costa e torna a jogá-la para o alto. A paisagem enegrece no papel-casamento. Um fiapo de lua-nova acende no céu iluminando o porto com a embarcação que se parte como um casal de torres silentes, esfuma-se em camadas e uma por cima da outra, afunda feito a procissão do Santo Sangue. Olho com um segundo olho e, na linha horizonte, ressurge a fonte dos desejos onde passantes atiram moedas na esperança de encontrar uma África morta por um emaranhado de Nova Iorque's. Será Piazza Della Cisterna sonhando, uma vez mais, com a multidão em muda reverência? Mais adiante, são os restos da fachada da igreja São Francisco e o Dumo da cidade repleto de afrescos, ciprestes e oliveiras, como na história do Velho e Novo Testamento, nas quais deus nunca esteve dentro. Olho a paisagem com um terceiro olho e é um molhe embaixo com um píer em cima, em Shoengerg, na Alemanha, Boulez está na ponta ensaiando uma nova harmonia para a noite transfigurada. As ondas lisas da praia imitam um coro de flautas-de-flandres forjadas de um pedaço de fêmur de um urso esloveno morto em batalha e na popa repleta de bandeirolas, uma criança de cabelos dourados salva um casal de cavalos-marinhos que acordou enrolado na pilha escura das redes repletas de barbatanas dançantes. Mais à frente, de pé e olhando para o sol nascente que escorre como uma grinalda de luz em direção ao rio Norte está o Prego, fantasiado de rei da Baviera, sorrindo dos esqueletos de peixes lavados na proa de um par de veleiros com uma bandeira na popa, e pescados, aistoricamente, por um ladrão de caixas d'água na ilha do Martelo.  

IX

Eu finalmente o encontrei, meu Blue Walle, flutuas mais leve que uma pluma no vasto leito das águas piscosas, logo abaixo da superfície de um barco à deriva, no indócil torvelinho da ilha afundada. O que mais eu poderia desejar? Nada... Eram Fundetodos, Oostend, Litoměřice, Muralto, Zundert, Berlim, Cambrésis, Paris, Meschede, Munique, Bruxelas, Valência, Moscou, Milhouse, Londres, Lisboa, Detroid, San Francisco, Manhattan, Buenos Ayres, Berna, New York, Verona, San Pedro, Aix, Cuverville, Wellington, Catmandu, Auckland, Xangai, Pearl Harbor, Belsen, Bolonha, Landshut, Verona, San Gimignano, Antuérpia, Siegen, Amersfoort, Veneza, Argentan, Hiroshima, Amsterdã, Honshu, Goa, Téramo, Nova Deli, Polonnaruva, Coimbra, Barcelona, Watford, Kandy, Nelspruit, Deutschland, Münchenbuchsee, Makati, Manassás,  Bronx,  Puerto Varas, Krivoy Rog, Weimar, Lewes, Braga, Cheboksary, Kazan, Kaohsiung, Hanoi, Kota Tinggi,  Fujiidera, Gondar, Veracruz, Porto Ercole, Kairouan, Alepo, Khan Shaykhun, Gizé, Almadén, Tel Aviv, Wuppertal, Stalingrado, Hamburgo, Holstein-Itzehoe, Cirene, Canaã,  Spodnja Idrija, Neandertal e suas crias passando com seus antigos moinhos diante dos meus olhos trocados, rolando sagarçosas pelas águas da minha Amazônia e saindo pelos ralos da minha Jacuzzi com hora marcada. Estamos em casa – murmurei a seco no encharcado roupão cor-de-rosa tentando, em vão, disfarçar os olhos cheios de lágrimas. Peter Paul Rubens, Caravaggio, Van Dyck, Guido Reni, Veronesse e Tintoretto estão nos acenando do lado de fora do aeródromo do estaleiro. Afoguei por ali. Alguém se afoga por lá agora...

lídia martins