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2.16.2015

Abotoando...





               Abri as janelas. O ar que serpenteia as cortinas do quarto é macio e aveludado. Cheira a nêsperas. Estou há sete minutos e vinte três segundos tentando entender a lógica de um besouro-criança que, em contato com os meus dedos, está se fingindo de morto. Neste exato instante, estou empurrando o suposto defunto com a ponta do lápis para ver se ele reage. Que razão haverá para que ele se conserve na morte? Abriu um dos olhos. Não posso precisar se ele está me espiando ou se recompondo do susto. Levantou sacudindo o pó cintilante das asas. Alçou voo. E, ao que parece, já voltou à normalidade. Caso catalogado e arquivado sob a letra (i). De indecente. Uma borboleta de asas inteiramente eclodidas pousa em um canteiro de margaridas. Um casal de pássaros se batiza por aspersão na água fresca que se desprende do furo da mangueira. Os hibiscos flutuando nos entornos do lago anunciam que o outono está próximo. Paro por um instante e detenho-me na imagem acorrentada pela água. Os espelhos continuam distorcendo os reflexos. Fantasmas de lembranças balançam a corda em que se equilibra o artista. Silêncios se acotovelam nos corredores extensos como se quisessem e pudessem se libertar de um pesadelo. Atados apenas pelo nó cego do desejo. Saliva, suor e gozo bramem, lentos, na desordem dos lençóis e travesseiros.  Há uma particularidade nestas imagens... Elas nos conhecem. Mergulho a torrada no mel espesso e, enquanto observo, inunda-me uma doçura imbecil, frágil, débil. Uma cerejeira floriu em frente à minha janela. Exceto por mim, ninguém mais pode vê-la. As iniciais gravadas no tronco fazem charme para que eu lhes volte os olhos. Acaricio os galhos, a flor, o fruto e sorrio como quem se perdeu e se achou em um sonho. Explicam-nos as estações, as quais, nada do que respeita a mudança escapa: não adianta nos disfarçarmos de fruto quando a vocação é de caroço. Esta a fealdade: já não sermos capazes de fazer qualquer leitura da paisagem. Não é quando estendem os braços, mas quando estendem os olhos que me alcançam. 



Lídia Martins