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8.31.2014

VULNERABLE



Imagem: Alessandro Gomes

"Ali, o futuro não contava. E o passado só continha uma certeza: o amor era um erro nocivo, e sua cúmplice, a esperança, uma ilusão traiçoeira."

Khaled Hosseini

A Cidade do Sol


A porta daquela casa suspensa entre os arbustos estava aberta, mas não se via ninguém nas janelas. Olho as folhas amarelas a enfeitar a escada de cordas. Há um frêmito de vento a balançar as copas da memória. Os bichos de pelúcia a mendigar o reflexo da alegria atrás das vidraças, as bonecas de biscuit com as feições estranguladas, os velhos carrinhos estacionados nas calçadas das tardes solitárias. Todos à espera daquelas crianças que, sem qualquer explicação, os abandonara. Eram indícios de que haviam crescido ou, talvez, diminuído. A realidade é que a fantasia lhes havia saqueado o juízo. E, sem que percebessem, envelheciam atrás dos muros que eles mesmos tinham erguido.  A agitação do coração, a sua tepidez de sol, o toque das mãos. E não restou nada, a não ser o vácuo deixado pela culpa das coisas tardiamente apreciadas. Cansada de correr atrás de fantasmas. O barco de papel procura seu capitão, agora escondido no porão do navio. As palavras não ditas aportarão no cais de teus lábios, mais dia menos dia. Há um ancoradouro invisível no caminho. Consegue vê-lo marinheiro? Eu consigo. A menina e o menino que pensava terem morrido estavam vivos. Passaram por mim ainda agora, correndo em direção àquela cadeia de montanhas serrilhadas. A chuva tornou a cair lá fora, como um véu de noiva imaginada. E, quando dos tombos de bicicleta levantar o primeiro homem, aquele que vai gerar todos os outros, lembra-te do menino, esse que conserva em si a magia de todos os sonhos. Agora desperte, coração dormente. 

Lídia Martins