4.21.2015

O HOMEM DE SMOKING


Imagem: Luca D'Alberto - Bailarina: Ditta Miranda 
Tanztheater de Pina Bausch  



       Bato os lençóis, os tapetes, as cortinas, e pelos cômodos limpos de lembranças espalha-se o pó fino da nostalgia. A palavra tem seus próprios métodos de envenenamento. Se deseja ficar livre de uma intoxicação acidental evite o contato direto, pois, está aí constatação da qual nenhum de nós escapará ileso. Gosto quando enroscam em meu pescoço, percorrem meu corpo com seus movimentos sinuosos, deslizam sua frivolidade pelo meu ventre, quadris, coxas, e feito sacerdotisas da decadência estigmatizam meu peito nu como uma porta-voz cruel dos tempos idos. É preciso suportar cada picada, uma após a outra, contaminar-se lentamente com a sua peçonha até que ela incendeie a alma de chagas. E que me fira, me mova, me arda. Eis o antídoto para escapar à uma existência letárgica. Disseram-me uma vez que somos um ponto de luz no universo. Olhando para esta superposição de labirintos, cheia de transeuntes deslumbrados passeando por estas galerias de espelhos procurando, talvez, por seus inencontráveis reflexos, a conclusão a que chego é a de que nunca foram tão distantes os espaços aos quais pertencemos. Não faz muito tempo, talvez alguns meses, sonhei que caminhávamos por uma alameda de liquidâmbares. Toda vez que volto a este sonho estas árvores têm uma coloração diferente. Estas paisagens... Sempre abrindo caminho para um paraíso que eu talvez não desejasse. Repare bem nestes acadêmicos enfadonhos manuseando estes compêndios enquanto deliberam sobre o futuro que julgam haver para o mundo, canteiros em obra com pretensão de casa pronta, envenenados por tanta ambição e desperdício que não se dão conta de que os nossos pilares de segurança nem sequer ruíram, não porque tivessem sobrevivido aos abalos sísmicos mas porque de fato nunca os erigimos, com ênfase ao cavalheiro na fileira da frente, não ele, nem este, mas aquele outro com expressão de cheque sem fundo. Ouvindo seus discursos de pastor órfão a única palavra que consigo anotar é: café. Quem é ele? — Ninguém importante. É só um homem de smoking — murmurei em voz baixa enquanto o observava cofiar a barba cheia de falhas, enchendo a taça até que todo o seu  Moët & Chandon transbordasse, sorrindo à saúde de qualquer fenda de afeto passageiro que o recriasse, evaporando como um fantasma em contraponto à efervescência das bolhas no copo, faúlhas de ópio pululando nos ares, alheio aos próprios sonhos explodindo em cores mornas de outono, misturando-se pólen das pétalas esmaecidas das peônias, confundindo as estações na memória dos anos, para sempre perdido em seu inaudito jardim de silêncios, trocando impressões com a paisagem inerte como quem trocasse de vida, de nome, de pele, até ser qualquer coisa que nunca mais ele. As portas e janelas do quarto estavam fechadas. Por onde elas teriam entrado? Tenho pensado em cobras... É embaraçoso testemunhar as criaturas que estimamos rastejarem desta forma. 

Lídia Martins

3 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Palavra-cobra-homem-réptil. Palavra é poder. A cobra guarda a palavra, o conhecimento, aquele que envergonhará a mulher e o homem. O conhecimento dos compêndios que poderia nos levar ao lugar a que pertencemos. Verdade, Lídia, seu texto aponta, com sua imagética única, esse desejo de retorno ao que fomos, sem que necessariamente nos demos conta, muitas vezes nos assoberbando, plenos do mais antidivino orgulho, presos aos tais labirintos. O homem de smoking é esse ser humano caído, assimilado ou assimilante do réptil original. A maçã é deliciosa, mas pode ter um preço impagável. Obrigado por nos trazer essa cruel mas necessária realidade.

Beijo

placco araujo disse...

Ao ler seu texto, tenho a sensação de um texto\filme, exibindo ininterruptamente uma cena após a outra, de tirar o fôlego com uma força que, não conseguimos diminuir a marcha, até chegarmos ao final. Tem a sua marca.
Me lembra filmes do Fellini, alternando figuras inimaginadas em cenários modulares e sem uma sequência linear.
Que bom que você voltou! Se bem que vozes me disseram não ser mais a nossa pássara mas, quiça, uma sereia

H. Machado disse...

Estou visitando a selva. E quando chego, me deparo com você por aqui...

É bom te ver!