Há
dias que dão a sensação de que Deus os criou quando estava sob uma forte crise de depressão. Tomo
ao acaso uma tarde de sábado. Existem vazios que, por mais que nos esforcemos jamais serão preenchidos, mas, especialmente agora, não estou certa disso. Olhos debruçados nestes retratos de caras mortalmente pálidas, tão ocupados com o passado que sequer prestam atenção ao
presente que se estende feito tapete de Aladin diante deles. Monto em minha bicicleta. Que bicicleta? Esta que deixei encostada em um arbusto qualquer da infância. Queria poder
cruzar a fronteira da morte e voltar dela com o seu coração pulsante. Queria
que não fosse tarde. O que faço com esta bússola apontando sempre para o mesmo norte? Abri o mapa. Uma sequência variada de epifanias se revelava. O que dizem os caminhos? O que dizem as casas? O que dizem aquelas janelas? Naus errantes que nada esclarecem, apenas confundem. Atravesso a ponte dos suspiros e paro um pouco para
descansar os sonhos. Há um rio de águas claras correndo-me dentro. Fragmentos de memórias boiam e no crepúsculo se juntam. Regressam de lugar nenhum. Pelo canal desliza
uma gôndola que parte sem mim, rumo a uma Veneza de uma beleza tão profunda que violenta. O
amor... Há muito que o perdi, nem procuro. É. E não é possível que não seja.
Lídia Martins
4 comentários:
Texto para lá de lindo. Só mesmo um esvoaçar sobre o amor para nos fazer pousar os olhos sobre tão belas palavras. Quanto à pergunta: "O que faço com esta bússola apontando sempre para o mesmo norte?" Bem... diria que... Há sempre um vazio que guardamos no peito e uma brisa nua que nos segue faminta do passo que não damos. Há sempre lágrimas no porão e sentimentos que nunca gastámos. Há o rio que sabe onde fica o norte e um leito que se enche na monção. Cumprimentos.
"Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança."
Como dizia o poeta: talvez todo
retrato seja uma retratação.
Ainda bem que nem todos os dias temos esta sensação.
Há dias que, a despeito de tudo, amanhecemos com vontade de soltar pipas, as mais coloridas possíveis.
Lindo texto!
O amor não é uma opção
É condição
Se não está à mão
Que haja construção
Na condução
Da ação
Que nada vida
Nada se cria
Nada se destrói
Tudo se transforma
Já dizia o Lavoisier... :)
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