4.25.2014

O não-lugar

Faço-me então aqui ausente. Este é o melhor disfarce que se pode vestir para trazer à frente dos olhos o que sempre esteve presente. Há que se observar os segredos escondidos nos vãos dos espelhos. Não raras vezes, os espaços vagos fingem correspondência com os reflexos, deixando entrever apenas a margem do oceano que nos corre dentro. Espelhos quebrados, reflexos trincados. É o que mutila, constrange, entristece e humilha, ser coagida a intimidades que definitivamente foram perdidas. Continuarei andando pelas ruas da cidade dos mortos, desencaminhando-me tanto quanto posso entre as estátuas que tão cuidadosamente ergui. Não quero esquecer o formato daqueles rostos, não dos que passaram, mas, dos que ficaram em mim. Quero dançar com todos os meus fantasmas de lembranças em meu pequeno mausoléu imaginário, repleto de lápides enfeitadas de rosas e cravos e brincar de sério com os meus vaga-lumes cegos. Memórias fugidias das coisas não-acontecidas. Fomos carregados pelos braços do desacontecimento. Um não-lugar. Coisas que pouco ou nada conhecemos. Pense, por exemplo, que perdeu o endereço daquela que sem nunca ter procurado, encontrou assim mesmo. Ponha nossos sonhos naquela velha gaveta, mas não me escreva, não me ame, não me venha. Continua, continua, continua. Logo chegarás àquela rua de outros corpos, outros toques, outros cheiros, outros nomes. Para que haja voo é preciso antes que as duas asas se tencionem. Milagrosamente. Minha alma tem a graça aérea das bailarinas flutuantes. Aprendi com as quedas. É possível levantar sozinha com a intensidade de quem se pertence. 

Lídia Martins

5 comentários:

Be Lins disse...

Tens a graça
e o dom das palavras dançantes,
um ballet denso, com trama, drama, amor, é um espetáculo te ler,
povoa este não-lugar de palavras, e que elas dancem, e que você exista feliz, em todo lugar que desejar, Pipa!

Saudades.

Be

Nei Duclós disse...

A palavra tateia e se reconhece, mas não se adapta. Será sempre fora do eixo, em busca de si mesma. Por isso se dá o luxo que dizer o que sente, para transcender o que pensa. Só a poesia pode chegar aos seus redutos, confinada em ilimitadas molduras. É como voo de bailarina sem o artifício do equilíbrio. De pernas para o ar, para que o verbo tome tento e se enxergue pelo que é, pura carne em luta contra o desalento de ser apenas alma, profunda vertente.

placco araujo disse...

Há que se dançar com os fantasmas, pois ao se prostrarem exauridos, dão lugar às bailarinas flutuantes que ressurgem tal qual arautos de uma nova sinfonia.

Carlos Roberto disse...

Um texto contundente. Um claro apontar de caminho para os menos lúcidos. E somos tantos. Nem sempre. Quase nunca. Atrever-me-ia a dizer que, raramente alcançamos as imagens que nos chegam. Existe uma tendência ridícula e suicida que nos leva a perceber, tarde demais, que o outro já não está. Vive-se no dilema de dizer pouco com medo de dizer muito. Dizer apenas aquilo que julgamos suficiente, nem sempre, quase nunca, atrever-me-ia a dizer, sabendo que me repito, que raramente basta.
Um apelo à memória e à saudade. Perceber o passo em frente e a certeza de voltarmos a amanhecer em outros lugares, é o que devemos levar nessa, tão particular, coreografia da vida.

Anônimo disse...

Penso que deveríamos ser, o não-lugar um do outro.Me agradaria que o meu não-lugar, começasse no teu ombro.

É um privilégio ler você.
Saudações!