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5.07.2014

MAGNIFICAT

Outra noite vi um homem recolhendo desejos do fundo de uma fonte. No céu as estrelas pareciam cicatrizes fosforescentes. Doíam só de olhar. Tenho me arriscado cada vez menos. Com o receio científico de quem espera do outro não mais que a ironia ou a agressão escondida. Pergunta que sempre me faço ao entrar ou sair: o que há por detrás das portas que não abri? Hoje conjuguei a palavra desapego no pretérito-mais-que-perfeito. Tempo verbal em que vivemos. Às vezes me ocorre se o que conquistamos verdadeiramente se perde. O tempo transforma tudo em ruínas. Exceto as coisas invisivelmente construídas. De todas as pobrezas do mundo, as de espírito são as que mais me preocupam. Não é que fôssemos avarentos. Éramos dois mendigos. Não tínhamos nada a oferecer, nem a nós mesmos. Queria que ele fosse tão bom em ler quanto é ao escrever. Felizes os que ainda conseguem enxergar doçuras em um mundo de tantas amarguras. Sou uma exceção à regra. Minha vida é um espetáculo babilônico. Tudo o que toco vira pedra. Se é mesmo verdade que o hábito faz o monge, a prolongada convivência com as estátuas me transformou em uma delas. À parte isto, temos trocado olhares significativos e a nossa luta diária pela renascença parece a cada hora menos cruenta. Somos grosseiros demais para lidar com as fragilidades da alma, experimentemos, pois, a dura provação de ter a carne cimentada, e regozijemo-nos em ser transformados em criaturas inanimadas, pairando, moribundas, sob a escuridão nebulenta. Sonhos são bolhas que a realidade estoura. Minha cabeça é um planeta cheio de vento e som e fúria e raios e água e terra e éter e fogo e gelo, em uma combustão sobrenatural de alumbramentos. Tem alguma coisa me comprimindo o peito. E, seja lá o que for, está doendo. Deve ser angústia, talvez medo, ou, quem sabe, seja apenas desespero. Há sentimentos que não dominaremos com palavras. O que faço para não ser tragada por esta finitude irredutível de tudo, senhor Deus? Rezo. Mil cairão ao teu lado, dez mil a tua direita, e tu, coração burro, vai cair junto! Tem sete mil quinhentos e vinte quatro pássaros se debatendo dentro do meu peito. Meu ato inaugural: desintegrar no espaço e vadiar pelas galáxias como quem se achou e se perdeu entre as partículas de uma criminosa e violenta explosão final.     



Lídia Martins

7 comentários:

Carlos Roberto disse...

Que dizer?!... Texto impactante e profundo e belo e… porque não, de outro planeta. O doce sabor da criação pelas mãos de uma artesã da palavra. Um passo em frente sem sair do mesmo lugar. Mas uma vontade. Um desejo. Uma oração. MAGNIFICAT.
Porque renascer é preciso, porque longe vai o corpo que em braços se alonga, e leve será a distância por quem se quer estar. Parabéns, Lídia!

Nei Duclós disse...

São as iluminações, de Lidia Martins. Versos disparados em ritmo de tambor e fôlego. Frases que não se tocam, como os corpos imaginados que adiam encontros. Palavras acima das nuvens, desconhecendo a possibilidade de pouso. Opção da poeta, que decidiu ficar no ar para que a lucidez, essa neblina da alma sem medo, rasgue a barreira que nos impede de atingir o som do coração. Canta, pássara sem vontade de passar, mas que delira por permanecer no lugar de sempre, o amor desconhecido e por isso possível. O que reparte conosco, pão amanhecido, com sabor de estrelas moídas.

Anônimo disse...

Eu enxergo, eu vejo, eu deduzo muita e toda a doçura que preciso, sob teu nariz.

Beijo em tua boca, a alegria que eu sinto em estar aqui.

Salve Jorge disse...

Sonhos são tudo que há
Pois se a pipa voar
Nunca há de voltar
Pois depois de voltear
Nunca há de se encontrar
A similitude em algum lugar
Melhor largar
E alargar
Pelo sonhar
As fronteiras do realizar
Não pelo par
Não por somar
Mas por se dar
Por ser lá
O além do aqui...

Alvaro Vianna disse...

A casa permanece do mesmo jeito que a vi da última vez. Pode ser efeito relativístico de viagens por galáxias. Ou um sonho ruim, destes que geram noites intermináveis. E de fato, me parece familiar estas imagens de gente que vira pedra e peito repleto de aves. Pelo menos desta vez foi bom o estouro da bolha.

Beijo, Lídia

Anônimo disse...

Beijo Lidia
é disso que vc gosta
bjo

Marquinhos disse...

Contemplação,foi essa sensação que tive ao ler, o e equilíbrio inatingível das coisas invisíveis.