Outra noite vi um
homem recolhendo desejos do fundo de uma fonte. No céu as estrelas pareciam
cicatrizes fosforescentes. Doíam só de olhar. Tenho me arriscado cada vez
menos. Com o receio científico de quem espera do outro não mais que a ironia ou
a agressão escondida. Pergunta que sempre me faço ao entrar ou sair: o que há
por detrás das portas que não abri? Hoje conjuguei a palavra desapego no
pretérito-mais-que-perfeito. Tempo verbal em que vivemos. Às vezes me ocorre se
o que conquistamos verdadeiramente se perde. O tempo transforma tudo em ruínas.
Exceto as coisas invisivelmente construídas. De todas as pobrezas do mundo, as
de espírito são as que mais me preocupam. Não é que fôssemos avarentos. Éramos
dois mendigos. Não tínhamos nada a oferecer, nem a nós mesmos. Queria que ele
fosse tão bom em ler quanto é ao escrever. Felizes os que ainda conseguem
enxergar doçuras em um mundo de tantas amarguras. Sou uma exceção à regra.
Minha vida é um espetáculo babilônico. Tudo o que toco vira pedra. Se é mesmo
verdade que o hábito faz o monge, a prolongada convivência com as estátuas me
transformou em uma delas. À parte isto, temos trocado olhares significativos e
a nossa luta diária pela renascença parece a cada hora menos cruenta. Somos
grosseiros demais para lidar com as fragilidades da alma, experimentemos, pois,
a dura provação de ter a carne cimentada, e regozijemo-nos em ser transformados
em criaturas inanimadas, pairando, moribundas, sob a escuridão nebulenta.
Sonhos são bolhas que a realidade estoura. Minha cabeça é um planeta cheio
de vento e som e fúria e raios e água e terra e éter e fogo e gelo, em uma
combustão sobrenatural de alumbramentos. Tem alguma coisa me comprimindo o
peito. E, seja lá o que for, está
doendo. Deve ser angústia, talvez medo, ou, quem sabe, seja apenas desespero.
Há sentimentos que não dominaremos com palavras. O que faço para não ser
tragada por esta finitude irredutível de tudo, senhor Deus? Rezo. Mil cairão ao
teu lado, dez mil a tua direita, e tu, coração burro, vai cair junto! Tem sete
mil quinhentos e vinte quatro pássaros se debatendo dentro do meu peito. Meu
ato inaugural: desintegrar no espaço e vadiar pelas galáxias como quem se achou
e se perdeu entre as partículas de uma criminosa e violenta explosão
final.
Lídia Martins
7 comentários:
Que dizer?!... Texto impactante e profundo e belo e… porque não, de outro planeta. O doce sabor da criação pelas mãos de uma artesã da palavra. Um passo em frente sem sair do mesmo lugar. Mas uma vontade. Um desejo. Uma oração. MAGNIFICAT.
Porque renascer é preciso, porque longe vai o corpo que em braços se alonga, e leve será a distância por quem se quer estar. Parabéns, Lídia!
São as iluminações, de Lidia Martins. Versos disparados em ritmo de tambor e fôlego. Frases que não se tocam, como os corpos imaginados que adiam encontros. Palavras acima das nuvens, desconhecendo a possibilidade de pouso. Opção da poeta, que decidiu ficar no ar para que a lucidez, essa neblina da alma sem medo, rasgue a barreira que nos impede de atingir o som do coração. Canta, pássara sem vontade de passar, mas que delira por permanecer no lugar de sempre, o amor desconhecido e por isso possível. O que reparte conosco, pão amanhecido, com sabor de estrelas moídas.
Eu enxergo, eu vejo, eu deduzo muita e toda a doçura que preciso, sob teu nariz.
Beijo em tua boca, a alegria que eu sinto em estar aqui.
Sonhos são tudo que há
Pois se a pipa voar
Nunca há de voltar
Pois depois de voltear
Nunca há de se encontrar
A similitude em algum lugar
Melhor largar
E alargar
Pelo sonhar
As fronteiras do realizar
Não pelo par
Não por somar
Mas por se dar
Por ser lá
O além do aqui...
A casa permanece do mesmo jeito que a vi da última vez. Pode ser efeito relativístico de viagens por galáxias. Ou um sonho ruim, destes que geram noites intermináveis. E de fato, me parece familiar estas imagens de gente que vira pedra e peito repleto de aves. Pelo menos desta vez foi bom o estouro da bolha.
Beijo, Lídia
Beijo Lidia
é disso que vc gosta
bjo
Contemplação,foi essa sensação que tive ao ler, o e equilíbrio inatingível das coisas invisíveis.
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