5.25.2014

O Remorso

Todos os mortos deveriam ter direito a um funeral   dizia a si própria, olhando a chuva que, como um véu de dama enlutada, tornava a cair atrás das vidraças. Repetidas vezes passou as mãos pela testa na tentativa de afugentar ideias que zuniam como um enxame de abelhas africanas sobre a inquieta cabeça. Dir-se-ia que o que viram nos arredores daquela fortaleza suspensa como um ninho de águia no topo da montanha, brandindo nas mãos o que parecia um cálice de veneno, eram restos de dois esqueletos calcificados pelos séculos. Ocultaram-se por tanto tempo, que acabaram por se transformar em fantasmas silenciosos e absortos sem que nem eles próprios tivessem suspeitado. Mediam-se pelas frestas das torres em ruínas. O silêncio era o ímã que ao invés de repelir os atraía. Atrás das rochas espessas, os braços das grades pareciam se alongar sobre as pontes levadiças que a ferrugem cobria. As pontes que antes serviram de travessia para o outro, eram agora adornos do largo fosso por onde se teriam afundado todas as cores, emergindo apenas as tonalidades de cinza com que discretamente se vestiram aqueles dias. Pela orla, flutuavam ossos de sonhos mortos rumo ao limbo do interdito, onde musgos e liquens ocultos sangravam pelos cantos, denunciando toda sorte de faltas, de ausências, de remorsos. A ausência é um condutor ainda mais potente que a presença, sobretudo quando o coração se recusa a aceitar a perda. Passavam um suspiro esperando o outro. Fechavam nos olhos as silhuetas de seus corpos. Tocavam-se de onde estavam. Coincidiam-se nos desencontros, mantinham-se rigorosamente incógnitos, exumavam-se sempre nos mesmos horários, como sombras anônimas em uma liturgia de amores mortos. Faleciam em seus lábios as palavras que não falavam. Era impossível que os muros subsistissem entre dois corações tão irrecusavelmente íntimos. Só uma coisa era certa. Aqueles eram tempos de guerra. Ao invés de paisagens luminosas esquadrinhavam-se suntuosos campos de batalha. Embruxada, a solidão os acompanhava. Como fossem prisioneiros de si mesmos, definhavam aos poucos, em seu orgulho secreto. O rugido do silêncio tornava-se cada vez mais audível. Ameaçava esboroar-se a defesa das muralhas. Atingiram, então, o absurdo. Nem dos mortos, nem dos vivos. Foram renegados pelos dois mundos. 

Lídia Martins

6 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Orgulho e medo são disfarces um do outro, mas ambos estão para as relações como a estaca está para o sanguessuga. São filhos bastardos da intolerância e da incompreensão. O que resta são escritas a dedo em vidros embaçados. Ou participar de revoluções para dissipar energias acumuladas. Também se poderá tentar escrever um soneto a que faltará sempre a última rima.
Belíssimo texto, Lídia Martins. Tenho muita curiosidade sobre o tempo que leva para uma construção dessas. Quem sabe um dia possa me explicar, moça!

Abraço!

Nei Duclós disse...

A linguagem num limbo, enigma entre mundos conhecidos. Território ignoto, onde ruge a poesia. Não se trata apenas de beleza, mas de busca sem subterfúgios, de procura sem rebuços, palavras sem concessões, gestos aparentemente sem sentido .Essa neblina, esse estar em algo remoto mas próximo, é a força da poeta: sabe onde canta o coração selvagem do poema.

placco araujo disse...

"Embruxada, a solidão os acompanhava. Como fossem prisioneiros de si mesmos, definhavam aos poucos, em seu orgulho secreto."
Como podiam enterrar os mortos se nem sequer assumiam os assassinatos dentro de si?
O remorso faz com que carreguem natimortos amores que foram sem nunca terem sido.

Carlos Roberto disse...

Lídia, que belo texto!
Palavras que versam a morte de um amor, ou a negação da mesma?! Uma viagem obrigatória pelo imaginário em um universo peculiar e profundamente silencioso, mas que grita e corrói por dentro. Surge sempre sem pedir permissão.
A predisposição, quem sabe, a busca desesperada por todas as respostas. Talvez uma última questão… um fio de luz…
Longe dos extremos, algures, entre a vida e a morte. A dor necessária ou a derradeira salvação.
Parabéns!

Anônimo disse...

Os mundos se multiplicam, quando teus verbos expandem as consciências, e tu amas toda a entrega do ser, sem perder a cor do amor e portanto, sem nenhum remorso.
Te amo,
beijo novamente, tuas mãos.
teu fã.

Iasmin Morais disse...

"A ausência é um condutor ainda mais potente que a presença, sobretudo quando o coração se recusa a aceitar a perda."

Menina, que texto profundo, dotado de sensações que tentamos controlar em meio ao medo, a ausência e tudo mais. Estava com saudade de vim no seu blog. Continua lindo!

http://exploradoradelivros.blogspot.com