"Hoje machuquei a mim mesmo, para ver se ainda sinto.
Eu me concentro na dor.
Eu me concentro na dor.
A única coisa que
é real."
Ele, o Johnny Cash
Estas cápsulas de silêncio estão me emudecendo. Voai, suaves desejos de lhe dizer o que penso. Lá fora há tantos ruídos, mas quando me sento nesta escrivaninha, tudo silencia. Bebo e desbebo este silêncio, abro e fecho os lábios que solfejam, lentos, uma canção para si mesmos.
Esqueça – me dizem. Esquecer não
é uma tarefa modesta, por mais que pareça. Assim, não sabendo esquecer, resta-me
um único caminho a ser percorrido nesta existência de ausências: tecer
paisagens entardecentes de mundos encarnados por milhares de seres que
simplesmente não existem, mas que, supondo existir, posso pensar que ao
menos esta tarde eu tenha para onde ir.
Não podemos falar da
sensibilidade. Ela não está presente. Ocorre-me agora... Algum dia esteve? Abro
e fecho os olhos desenganados da realidade, porta por onde deixei que todos
estes fantasmas de lembranças entrassem, com suas tolas complacências ao que realmente são, tendo
em vista que estão de tal modo habituados a mentir, a eles próprios e a mim, que
já não me parecem capazes de revelar alguma verdade. Mas o modo como me
encaram, o que eles imaginam que penso saber a respeito deles, o que digo
deles, tudo isso assume uma importância enorme. Olhando este pôr-do-sol, vejo o quão íntimos ficamos da escuridão.
Há entre mim e estas janelas um
desapego solidário. Saltamos, imediatamente, ao próximo instante. Ressinto o
modo como a paisagem muda de propósito. Não me espantará que este lume de amor seque
mais rápido que a tinta da caneta que se dispôs a catalogá-lo. Poucas coisas
resistem à ferrugem quando o silêncio é a única dimensão do contato.
Entardecemos por dentro. De
solidão, de saudade, de medo. Ficamos, os dois, parados um diante do outro,
efêmeros como castelos de areia que se constroem, para depois se desmoronarem
aos poucos. Barcos de papel com seus frágeis velames sonhando tocar o céu. E
nem estávamos tão longe assim do cais. Estávamos, antes, longe de nós.
Desencontramo-nos ao nos encontrarmos. Éramos humanos. Nenhum de nós sabia lidar
com o abandono.
Hoje voltei ao meu antigo
endereço. Parece quieta a rua por onde vi nossa juventude passar. Folheio estas
páginas em branco, que não foram senão testemunhas do fastidioso tempo que
desperdiçamos. Saciedade triste de dedos que forjaram o esquecimento quando
tudo o que tinham era fome de afeto. Este esvoaçar de palavras que nos reduziu
a este amontoado de folhas amareladas. O olhar ensaia passos no horizonte
trêmulo, como os da criança agitada que tropeça às suas costas. As cortinas se
fecham ao toque sutil dos últimos ventos de Abril, já sabendo que não vão
encontrar o que vieram procurar. Há, nesta coreografia de memórias, qualquer coisa que acalma. Como uma canção
que toca apenas para nos recordar.
Destes versos em que não somos mais que o eco, urge o
tempo que faz sangrar...
Lídia Martins
10 comentários:
Fico honrado em ser o primeiro a comentar este texto.
Da minha admiração por você doce pássara, não tenho mais nada a acrescentar, pois você a sabe infinita.
Quanto ao texto, devo dizer que é como o primor de um Michelangelo, tal a fineza na escolha de cada palavra.
E não bastando tudo isto, a escolha do vídeo foi perfeita.
Beijos e_ternos
Olha, eu pensei que tivesse lido o mais lindo de seus textos! Não tinha. Hoje li a verdade, li uma vida e vi a minha própria vida. Parbéns, Pipa. Obrigada, Pipa!
Poema/Texto intenso, zipado, de uma sucessão de situações românticas clássicas: o desencontro procurando pela memória o sabor do amor perdido, a despeserança diante do inevitável, a poética abordagem das imposições do destino, a hipersensibilidade gerada pela diferença e o sentimento. Numa porção de palavras, toda uma história com os graves acontecimentos que empolgam as almas que lutam contra a solidão e nela se debatem. Uma beleza, uma maravilha, à altura do grande talento da autora, nossa bela poeta Lidia Martins, a querida Pipa.
Parabéns, e obrigado pelo convite a ler esse texto lindo, cheguei a sentir " Hoje voltei ao meu antigo endereço. Parece quieta a rua por onde vi nossa juventude passar. Maravilhoso
Venho repetir, e aqui deixar pra sempre:
"É que seu corpo voa, Pipa. Pra longe de todas as linhas".
Bjo do velho!
Belíssimo, Lídia. Impossível não ler para além das palavras. Perscrutar para lá do óbvio é um desafio constante ao longo de todo o texto. Adoro a forma como se embrenha pela memória e nos dá a conhecer cada um dos cinco sentidos. Gostei especialmente da parte final “urge o tempo que faz sangrar”. É preciso.
Bjos
Carlos Roberto
Palavras não descrevem tal sentimento doce da sensibilidade do encontro do olhar com a fascinação das palavras contida no texto um olhar para o eu interior onde quando se chega ao antigo endereço você percebe quem é o ator principal.
Obrigado Pipa
bjão Victor
A reação ao fim desse texto não diferiu das outras tantas que tive nestes anos que me fascino com tua escrita: calei-me!
Silêncio de admiração.
Silêncio de encontro.
Silêncio que bebo eu também, com pernas já trêmulas que a falta traz.
O que dizer a ti, hermana?! Faltam significados capazes de alcançar o que você provocou-me por dentro. Teu ousado voo revirou as levezas que compõe o meu ser.
Pelo menos é leve. Aprendemos, finalmente. Bailamos com a dor, como pena ao sabor do vento.
Obrigada por visitar minhas ausências. Ler esse texto foi voltar ao meu antigo endereço também.
Te abraço. Me abraças.
Levitamos.
Olá!!!,belo blog amei sucesso, Deus seja contigo
já estou te seguindo - OBRIGADO PELA VISITA.
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Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br
Adorei suas palavras, texto tão lindo... Me fez lembrar minha adolescência e outro "escrevedor" que tem um blog com textos tão lindos, parecidos com os seus, você conhece? Bruno de Palma, acepipes escritos...
Sandra
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