Paul Klee: Under Grand Protection, 1939.
Artigo publicado no
Jornal O Correio de Uberlândia - Edição de 01/06/2013. Deixo expressa
publicamente a minha gratidão ao Jornal O Correio de Uberlândia pela publicação
do artigo Involução Social. Obrigada, obrigada e obrigada gente. Embora saiba
que, não importa o número de vezes que eu repita esta palavra, nunca será
suficiente.
Há dias que tenho
tirado os óculos e esfregado os olhos, não como quem não acreditasse no que
está vendo, mas sobretudo, no que está lendo. Aos que compartilharam esta
palhaçada, não sei vocês, mas não costumo dar risadas quando sou eu a piada.
Envergonho-me de ter que dividir o palco desta existência com personagens que
vestem a fantasia de um palhaço de circo para tratar um dependente químico como
escória social, um marginal, um bandido. E isto não é uma teoria, é antes, uma
estatística. Pensando nisto, apiedei-me da ignorância alheia e decidi tecer um
breve esclarecimento acerca da medida encontrada pelo governo do Estado de São
Paulo para tratamento de pessoas com dependência química. O programa atende
pelo nome de Cartão Recomeço e como já asseverado, foi inspirado no programa
mineiro chamado Aliança pela Vida e não Bolsa crack como capciosamente o
substantivaram. O Cartão Recomeço foi implantado para possibilitar às famílias
de baixa renda o tratamento dos dependentes mediante o credenciamento de clínicas
habilitadas a recebê-los. Levem os olhos para passear pelas respectivas páginas
da Organização Mundial de Saúde, está regulamentado: a dependência química é
uma doença. Agora consultem a consciência e, de preferência, vão até a
Cracolândia ver para onde estes farrapos automatizados são arrebatados por
força irrepreensível e sobrenatural do vício. Amarelos, fulmíneos, cadavéricos,
fétidos, pó do caminho, é a isto que estão reduzidos. Estamos falando de
pessoas que perderam a sua condição humana, foram devolvidas ao plano seminal,
com a diferença de que, para estes seres fragmentados em corpo, mente e
espírito, ante o comportamento abortivo e o descaso de uma sociedade que cresce
a olhos vistos o retorno já não me parece possível. A primeira faculdade que perde
um viciado é o rastro dos próprios passos. A partir daí, ser um viciado não é
uma opção, mas uma fuga mascarada que cresce à sombra de desgraças cujas forças
fraquejaram para superá-las. E, por mais que sejamos levados a concluir pelo
contrário, há males que escapam e muito a nossa compreensão. De olhares
judiciosos já bastam os fóruns. Ninguém suspeita os buracos que os outros têm
na alma. Tratam logo de não chegarem perto para não correr o risco de caírem lá
dentro. É prudente que a sociedade os trate como o Et azul portador de alguma
doença infectocontagiosa. É a única explicação encontrada para que ela os isole
desta forma. Ao invés de olhar para esta
legião de mortos-vivos condenada a vagar pelos becos soturnos do absurdo,
nossos semelhantes estão ocupados demais com a pá da mediocridade, cavando
covas para que estes dependentes químicos possam, decerto, ter onde abrigar
ossos de sonhos mortos. Os doentes aqui não são eles, somos nós — Sociedade —
que compartilhamos este tipo de imagem. Não tenho a cura para que triunfemos
sobre o crack, mas a indiferença é a primeira opção para que fracassemos,
miseravelmente. E para cada tiro, facada ou qualquer outra arma — seja ela uma
palavra afiada que proferimos na depreciação desses indivíduos, somos também responsáveis
por sepultar ainda viva, a esperança de salvação de cada criança, adolescente,
adulto ou idoso, já que o crack não escolhe idade. Isto sim deve ser motivo de
luto, pois, o fazendo enterramos o nosso respeito pelo próximo. E não me venham
falar em sociedade de bem, isto é estupidez. Abaixo o pseudomoralismo das
classes, porque ricos ou pobres, todos vivemos um drama semelhante: uma epidemia de proporções bíblicas que
precisa ser combatida. E o mais preocupante é testemunhar o comportamento de pessoas
que, por mergulharem neste oceano de insensibilidade, estão em um estágio
profundo de experiência inconsciente, já que seus discursos horrendos só depõem
contra eles mesmos, e não tem outro fim senão o de dispersar os remos desta
minoria que ainda acredita na possibilidade de evitar o naufrágio de outras
vidas. Só quem conhece a situação de um dependente químico pode mensurar o
quanto ele está doente, padecendo todos os que convivem com ele, pessoas que
comprovadamente tiveram a alma expulsa do corpo para que o crack a ocupasse.
Absurdo, como ouvi de um ou outro ministro, é não instarmos as autoridades a se pronunciarem pelo gesto
irresponsável de infidelidade governamental a lei fundamental, ante o
descumprimento inconsequente das promessas ventiladas na Carta Magna,
frustrando a legítima expectativa da população ao acesso à saúde. E, quando
finalmente alguém se dispõe a implementar uma política de recuperação para
estes viciados, os pais, os filhos e os espíritos involuídos da Santa
Ignorância andam na contramão da evolução. Isto sim é palhaçada. Que esta
cotovelada do governo do Estado de São Paulo possa abrir caminho dentro da
multidão, e que este grito de solidariedade que encarna as milhares de vozes
anônimas das famílias que sofrem com este mal, possa ser ouvido em alto e bom
som, fortalecendo a ação do homem que está na luta para transformar esta
realidade, devolvendo-nos o ideal de um Estado Democrático não só de Direito,
mas também de F(Ato). Agora saia da frente, Sociedade, deixe passar um homem
sensato. É a triste irrealidade. Quem disse que a vida era um romance não fazia
ideia do que era ser um personagem.
lídia martins
3 comentários:
Muito se poderia falar sobre essa temática e, mesmo assim, no final da mais elaborada das explanações, haveria sempre alguém que não iria entender, ou, simplesmente assobiaria para o ar.
Entendo a sua dor, Lídia. E era bom que as suas palavras obtivessem algum tipo efeito colateral na mente de certas pessoas. Mas não, acho que não! Tenho para mim, que só existe uma forma de determinados iluminados entenderem este DRAMA. Vivendo-o! Tendo-o dentro de casa, andar com ele ao colo ou às costas. Perder noites a fio e dias de vida.... Enfim... acho que nada paga isso. Nada!
Nenhuma bolsa paga os custos não contabilizados de uma dupla dependência.
Como vc salientou: "Quem disse que a vida era um romance, não fazia ideia do que era ser um personagem".
Parabéns pela coragem.
Minha doce pássara.
Às vezes você me surpreende, pois eis que a menina que você ainda é, dá lugar a uma mulher tão convicta e tão assertiva em suas colocações, que chega a ponto de nos emocionar.
Poucas vezes li algo tão contundente e verdadeiro.
Esta é a nossa Pipa, que alça voos mas sem perder de vista a crueza de alguns aspectos do nosso existir.
E reitero as palavras do Carlos Roberto.
Parabéns pelas palavras e parabéns por ser quem você é.
Tenho o maior orgulho de dizer que sou seu amigo!
Texto fundamentado de quem entende de Direito e conhece o drama dós viciados e o mal que o poder é capaz de disseminar no miolo dessa história. Indignação madura e contundente.
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