5.28.2013

À Sombra que se afasta

 
Não me recordo como tudo acabou. Recordo-me, apenas, como tudo começou. É como um escuro instante que lhe possui e adormece de repente. Etéreo. Arfante. Evanescente. Nunca saberei com quem me deitei naquela noite, por mais que eu me esforce.
 Os olhos giravam com o isocronismo de um pêndulo. Para lá e para cá, a tangenciar o mistério. Inclinei-me lentamente sobre aquela sombra de olhos fechados que fingia repousar ao meu lado. Um vulto de brisa entrou sem aviso no quarto. Supondo que aquela criatura de sopro pudesse levantar voo, cobri-a com um lençol branco a fim de assegurar a sua condição de pouso. Os braços, ainda trêmulos, sem poder nem querer oferecer qualquer resistência, se deixaram guiar por aquela miragem de escuridão e silêncio e, por um momento, assaltou-me a ideia de convocar todos os anjos do paraíso em meu auxílio, mas isso não foi preciso.
Atrás daquelas paredes enfeitiçadas de solidão, medo e desejo, serenamente, batia o coração da cidade que nunca dorme.  Um véu comprido de névoa cobria o rosto daqueles prédios cinzentos e seus corpos esquálidos, imóveis, famélicos,  resplandeciam de suor, separação e segredo. Eras o frio. Soube disso no instante em que  o descobri. À hora cinzenta em que as memórias dormiam, eras o frio a cortar caminho entre as minhas pernas, a penetrar-me com violência, a perturbar minha alma quieta. Eras o frio a congelar a palavra na garganta, a cristalizar a lágrima presa entre as pálpebras, a carícia letal que me levaria à morte simulada. Eras a distância, o esquecimento, a falta.
E, quando tarde da noite, tal qual uma brisa flutuante o silêncio tornar a rondar-te, talvez estas palavras te alcancem. E sorrirás, distante, olhando a vida passar diante de alguma janela, sem contudo fazer casa junto ao botão do instante que te prende a ela. Acreditarás então ver um ponto luminoso no céu, imaginando que nele pode haver todo o mistério que, por tanto tempo, o universo escondeu. Chegarás à conclusão de que todos aqueles pontos tardios que caíram ao pé daquela montanha remota não foram senão para sinalizar que aqueles instantes nada tinham de efêmeros. Tinham, antes, a missão de nos fazer eternos.  Sentada à sombra daquela figueira, folhear-te-ei como quem passa as páginas de um livro favorito. Os dedos, já pressentindo que fim aqueles personagens teriam, talvez se fechem em cruz, recusando-se terminantemente a passar ao próximo capítulo. Apertarei o livro contra o peito e depois o abrirei novamente pensando que, se quiser, poderei voltar sempre àquele instante.
Aquele era um improvável romance. Um romance que não poderia ser lido, posto que ninguém até então o havia escrito. Um romance que não poderia ser inventado, posto que até então ninguém sequer o havia imaginado. Um romance que não poderia ser vivido posto que só podia ser sentido. Embora a sombra que o acompanhasse fosse de um gigante, desses que com um só toque poderia derrubar toda uma cidade, ele era só um menino e tinha frio. Usei minha própria pele para cobri-lo. Habituei-me tanto a inexistir, que já não tenho a ilusão de pedir que eu fique em ti como ficastes em mim. Em meio à escuridão, haveremos de lembrar que há sempre uma claridade invisível a preencher, em nós, todos os espaços que julgávamos vazios. Deitaremos, dormiremos e acordaremos sabendo que sonhar é, ainda, a única realidade possível.
Olho para a sombra que agora se afasta e, como fosse um flash, tua imagem permanece  em negativo no filme que rebobino em minha mente.  Guardo-a na memória por alguns instantes, para que eu possa, talvez, quem sabe, revelar mais tarde. Fecho os olhos como se quisesse e pudesse emoldurar os sons, as cores e o perfume de todas estas paisagens que em mim inauguraste. Uma gota de orvalho, ainda quente, coalhou em meus lábios.  Este outono está rascante, áspero, seco. Passei a tarde vendo as árvores balançarem. Os ventos são os melhores mensageiros que conheço.
Eu amei um pássaro. Queria te pedir pra pousar. Decidi te pedir pra voar.
 
Lídia Martins

5 comentários:

Carlos Roberto disse...

Mais um belo texto, Lídia. Depois de, por ruas e travessas, o ter lido, quase diria que o eterno tem a força que os nossos olhos lhe consigam dar, sendo, por isso mesmo, mensurável. Finitamente eterno. Nessa perspetiva, há uma questão que me assalta o peito: que capítulos rejeitar de uma história para que ela se eternize verdadeiramente em nós?!

Parabéns!

Ana Luísa disse...

Nossa, que texto lindo. E como é difícil a amar um pássaro, e amar o suficiente para liberá-lo para voar, porque sabe-se que ele será mais feliz assim...

Roberta disse...

Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar”
Rubem Alves

placco araujo disse...

Embora você tenha dito que o pássaro podia voar, quem literalmente alçou voo foi você pássara, que cresceu, se fez mais madura e escreveu um dos seus textos mais densos lidos por mim até hoje!

Beijos

Nei Duclós disse...

Beleza imensa e profunda, como sempre.