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11.25.2012

DÉJÀ VU

Um escritor em potencial nunca perde o rumo da narrativa, mas, na tentativa de contar uma história que valha a pena ser lida, por vezes, acaba perdendo a orientação da própria vida.
Mas tenho escrito. Para ser mais precisa, no alfabeto cirílico. Um sistema de comunicação quase mímico, que permita aos frágeis primatas um compartilhamento senão de ideias, ao menos de sentidos.
Estão anunciando o fim do mundo. Será antes do Natal. E, desconfio que, se deu até na televisão, deve ser real... O mundo vai mesmo acabar gente. Justo agora que eu pensava em me juntar àqueles povos saradões que correm seminus pelas Cordilheiras dos Andes.
Apontei o lápis com certo esmero e sentei-me nesta escrivaninha rendendo homenagens à única inspiração em que, além desta variedade de insetos que costumam me fazer companhia, tive o raro prazer de catalogar nos últimos tempos. Um Oftalmo encontrou a cura para que eu pudesse enxergar o mundo de um modo responsável. Receitou-me um par de óculos quadrados. Sinto-me confortável. Nunca me dei bem com aquelas lentes de contato.
Há dias que abro e fecho estas janelas e, cada vez que o faço, tento distinguir a silhueta de uma mão que acena em meio à multidão. Mas ontem, alucinado, meu coração deu um salto. Febril, como um negro torpor, qualquer coisa dentro de mim parou. Déjà vu.
Então era isso. Eu já o tinha visto.  Inúmeras vezes. Naquela mesma janela. Com aquele mesmo terno cinzento.  Os olhos cegos de sentidos ainda são os mesmos. O que não imaginava, é que fosse para mim, desacontecida mulher, que aquela promessa de amor solitário acenava.
Agora me aproximo. Medi-o. Medimo-nos. Presságio contra presságio. Os olhos dardejavam como se, antes de atingir o alvo, precisassem memorizá-lo. Em sinal de medo, ou, talvez, de respeito, baixei os olhos e assenti em silêncio.
Enquanto tentava ocultar a tremura invisível das mãos, deixei cair o lápis e, com ele, um suspiro profundo de resignação. E chegamos, lentos, ao ponto alto do desentendimento.
Não é que eu não quisesse, não tivesse, não pudesse. É que, ao aproximar-me, antevia o que nunca seria. Eu simplesmente perdia o interesse.  E, se acaso me perguntarem, direi que não. Não eram as pessoas. Eram as suas propostas, pouco ou nada tentadoras.
Confesso que, mais de uma vez, eu tentei. Sob o teto de um quarto imaginado, em uma cama que não cheguei a me deitar, desnudo e cru, o reflexo de dentro dos espelhos se deslocou. Porque me flagraram ali, no camarim. Dentro de um espelho onde já não estou. E, no espelho, eu, você e aquele olhar avesso. Um olhar que parecia refletir tudo, exceto o que carregávamos por dentro.
E, no fundo, era isso o que eu temia. Que estas ondas descontroladas de paixão não arrebentassem neste mar sem emoções que se tornou a minha vida. Nada mais me enche. É difícil transbordar quando a alma se esvazia.
Martins, Lídia.

15 comentários:

placco araujo disse...

Pois foi exatamente esta a sensação que tive...DEJÀ VU... Você já não escreveu este texto?..É uma pegadinha pra ver se realmente lemos o que você escreve?
Ou foi só um trecho que você postou?

Estou perdido agora... e se era esta sua intenção...conseguiu...

Quanto ao texto, não há nada o que dizer... é lindo, denso, é Lidia!!!

beijos e_ternos

Geraldo de Lima disse...

Puxa, como você escreve de modo cativante! Seu texto, seu deja vú foi encantador... Um prazer enorme estar aqui neste seu espaço. Boa semana!

Be Lins disse...

Achei doce o tem deste teu Déjà Vu. Tem algum medo contido. Uma meninice que pede para não se machucar?... Um sossego que parece vazio, mas não é, querida Pipa, é paz. A paixão é o tormento que parece inundar, e inunda de fato. Quando parte, desocupa-nos de inquietações que pensamos amar, e a gente vai pegando o jeito de se equilibrar.

Estendo-me confusamente nas palavras mas nunca sei oque realmente quero dizer. Tem piorado isso em mim, por isso, vou tentar simplificar:

_ você tem um mar de palavras comoventes em você, um dos teus dons: emocionar.


Beijo


*

Jessica disse...

"É difícil transbordar quando a alma se esvazia." Estou sem palavras...Déjà vu. As palavras me fogem para explicar o que sinto sempre que passo por aqui e me deparo com essas lindezas em forma de texto.

Wilson Vaccari disse...

MEMBRO MILÉSIMO ÉSIMO IMO! Eu sou foda. Tem hora nem me aguento de tanta genialidade. Mas não vá acostumando. É só até amanhã.

SiriPoeta disse...

Estranha"coincidência"também tive o meu Déjà Vu,e foi no dia treze.-quero dizer que esse seu texto é muito envolvente,muito bom,Parabéns.-Um abraço.

Rovênia disse...

Olá, Pipa. Adorei o blog, que traz textos de qualidade. Vou sempre passar por aqui. Um grande abraço,

Rovênia

z i r i s disse...

Depois deste texto, meditei na etimologia do desinteresse.


E não sei mana, se é mesmo difícil transbordar quando a alma se esvazia ou o contrário.


Tente se ver no espelho agora, depois dos super-óculos-quadrados-angulares, temo que se veja até duas mil encarnações passadas...


Um beijo

Mik disse...

Muit lindo, inspirador!!! Bjs!!

Roberta Mendes disse...

As profecias confundiram tudo. O fim anunciado não é dO Mundo, mas dos mundos. Em 2012, muitas, personalíssimas construções desabaram. Também não avisaram que a parte mais aterradora de um tal apocalipse era, justamente, sobrevivê-lo. Esta a condenação. Seguir, único da própria espécie, consciente e em extinção.

Evanir disse...

Esta sendo um prazer enorme conhecer seu blog .
Sua postagem realmente me deixou com uma pulguinha atras da orelha.
Tenho visto esse tal fim de mundo pelos veículos de comunicação.
Na verdade o mundo já vem acabando a muito tempo .
A única coisa que acho quem inventou o fim do mundo para 2012
não sabe quantos anos já tem o mundo.
Ou também nem imagina que só Deus sabe dia e hora.
E para minha alegria os humanos não tem como saber uma coisa dessa.
È bem verdade hoje já se sabe antes quando terá uma catástrofe ,mais até saber o final de tudo creio numa longa distancia de conhecimento do homem.
Estou seguindo seu blog ,pois gostei muito de ler você.
um feliz final de semana ,Evanir.

Be Lins disse...

Pensei muito sobre a pergunta, Pipa.
Ocorreram-me muitos pensamentos, inclusive que muita coisa se ganha no grito.
Mas as crianças... não sei como resgatar isso, Pipa... nem sei se quero porque, do que me lembro, eu sofria todas as angústias imagináveis tentando adivinhar as futuridades. Pipa, eu não me aguento desde cedo.


Pra você saber, e por ser Dezembro:
_ desfrutar de sua amizade me suaviza. Acho que é uma forma, pra mim, de tocar meu lado melhor.

Beijo

Antônio LaCarne disse...

Texto maravilhoso! Tô super encantado com o conteúdo do blog. Parabéns!

Jeferson Cardoso disse...

Para o seu ‘déjà vu’: "Temos dois olhos. Com um nós vemos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro nós vemos as coisas da alma, eternas, que permanecem."
(Angelus Silesius)
Pipa, a propósito, aceite meu convite e venha ver o texto de número 292 de minha literatura amadora. >>> HEMATÓFAGO no http://jefhcardoso.blogspot.com lhe espera. Abraço!

Anônimo disse...

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Cheers
Feel free to surf my blog ; what about 2012