10.24.2012

CURVA ACENTUADA

Curva acentuada à esquerda, reduza a marcha — advertia a placa.
"Odeio quando ela fica calada" — dizia a si mesmo em voz baixa como se temesse escutar o som de suas próprias palavras. Recordava-a com uma estranha sensação de medo, desconfiança e desejo. Dividia-se em retrair e atraí-la para as estradas bifurcadas que sua cabeça inventava e, na tentativa de confirmar suas suspeitas maníacas, a fazia pagar até mesmo pelos erros que não cometia.
Às vezes perdia-se em pensamentos obsessivos, imaginando se depois de todo esse tempo, aqueles cabelos silvestres, aquele cheiro viciante, aquelas curvas nupciais e o coração indômito que batia dentro daquele corpo já não seriam de outro. Gostava de espiá-la pelas frestas das aldravas imaginárias. Tudo nele pressagiava. Queria segurança, um certificado de garantia que sua exuberância de alma não dava.
Não suspeitava até que ponto estava em poder daquele fantasma de lembrança que o rodeava. Um fantasma flutuante que o fazia andar por estradas tortuosas, movimentando-se em uma direção e outra, e ao invés de lhe servir como bússola, acabava fazendo com que ele se perdesse em sua própria inconstância.
Poucas vezes ela cedera ao fértil impulso de ir embora, até a noite súbita em que seus pés decidiram fazê-lo por conta própria. Era sempre difícil falar de sua vida. As coisas nunca obedeciam a uma ordem cronológica específica e já não sabia dizer o quanto as pontas daquelas incriadas raízes de lembranças cresciam no solo da realidade ou da fantasia.
Naquela noite, ao voltar do trabalho, tomou seu banho mais demorado, destilou na pele a colônia que tanto gostava, vestiu-se de preto, sombreou os olhos,  pintou os lábios de vermelho e, como não fazia há muito tempo, contemplou-se longamente no espelho sentindo que alguma coisa havia mudado em seu reflexo.
A sombra fria do mascarado que se escondia atrás das cortinas foi invadida por uma apreensão infinita. Quis ler as linhas de seu corpo, mas os traços já não podiam ser decifrados. As chamas da dúvida incendiaram seu rosto. Seus olhos crepitavam.
— "Você ainda me ama? Esta é a última vez que pergunto" — levantou a voz anônima no fim do corredor, enquanto procurava às apalpadeadas a luz do interruptor que ela desligou.
Suavemente, ela deslizou as mãos pelo corrimão, conteve a respiração e pelo espaço de quase um segundo, as agulhas de seus saltos desistiram de açoitar os degraus. O som daquela voz tinha parado de ressoar em seus ouvidos e as portas à sua frente se abriram como cortinas de um teatro antigo.  Uma onda de luz âmbar arrebentou em seu rosto, emoldurando-o em um retrato cujos lábios exibiam um sorriso distante, lúdico, velado.  Naquele espetáculo de dezenas de mesas e cadeiras vazias, via-se apenas um vulto mudo que, letargicamente, naufragava no escuro. Sobre o palco sem público daquele instante, fez-se um silêncio de lápide. Ele ficou apenas com as contas e os números.
Tinha outro nome, outra pele e outra memória a mulher que descia escadas abaixo. Era sua, a vez de mostrar-lhe a sutileza das curvas. Das costas, meu caro.
 
 
Lídia Martins

13 comentários:

Leo disse...

Um texto belíssimo de acerto de contas, um exorcismo para afugentar os fantasmas e zumbis do passado.

Saudades e abraços!

Leo

placco araujo disse...

as agulhas de seus saltos desistiram de açoitar os degraus....

Como eu gosto das imagens que você cria ou simplesmente lê e as transforma em poesia!
Como já te disse, li este seu texto mais de uma vez, e tentava a cada vez lê-lo de uma forma diferente...
Afinal...gosto muito de te ler!

E como já dizia o Chico..."a sua ausência me dói tanto, e eu canto pra ver, se espanto este mal"...

Beijos e_ternos.

Anônimo disse...

Tu sabes,a palavra nos fez conhecer... E não, eu não posso lhe conceder o direito de desaparecer.

Manoel Carlos Alves disse...

Passei, vi, li e adorei o seu blog. Parabens! Aguardo sua visita em meu blog e peço que se possível, vote em blog para o PRÊMIO TOP BLOG 2012. http://inkdesignerstampas.blogspot.com

Manoel Carlos Alves disse...

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Fabi disse...

Como gosto do seu blog.Como sempre excelentes textos e imagens que tu pregas nos leitores.E com o desenrolar da história,tu deixas no fim doce para que saboreamos e querer sempre ler mais.

Analuka disse...

Descobri tua deliciosa escrita através de um link publicado pelo amigo poeta Nei Duclós. Que alegria! Voltarei, certamente, outras vezes. Abraços alados e boa noite.

António Jesus Batalha disse...

Meu nome é António Batalha, estive a ver e ler algumas coisas de seu blog, achei-o muito bom, e espero vir aqui mais vezes. Meu desejo é que continue a fazer o seu melhor, dando-nos boas mensagens.
Tenho um blog Peregrino e servo, se desejar visitar ia deixar-me muito honrado.
Ps. Se desejar seguir meu blog será uma honra ter voce entre meus amigos virtuais, decerto irei retribuir com muito prazer. Siga de forma que possa encontrar o seu blog.
Deixo a minha benção e a paz de Jesus.

Dani disse...

Amei seu texto. Tão intenso!

Muito bom seu blog. Vi seu link no Página Cultural.

=]

http://www.avidaemletras.com/

Rafaelle Melo. disse...

Pipa, minha menina!

Nós sempre acabamos nos encontrando nas curvas que nossas linhas fazem.
Confesso que esse teu texto soou-me como aqueles suspenses de arrepiar a espinha... Talvez seja só tua incontestável habilidade em escrever tramas e dramas, mas ouso desconfiar que hoje, a luz âmbar recaia sobre meu rosto para apontar meu medo já concebido.

Mas não vim aqui falar do meu medo, na verdade não vim aqui com finalidades, vim passar, passear pelos ares que voas... Por hoje não fostes brisa, minha amiga, fostes quase furacão na minha alma.

Queria alegrar-me irremediavelmente com tuas costas ao final do texto, mas te confesso que gelei por dentro. Meu erro talvez tenha sido ler-te com os olhos no teu rosto.

Te abraço com tudo que fica por aqui, esperando encontrar-te por aí em breve.

Wilson Vaccari disse...

A gente podia se ver no mar.

z i r i s disse...

Nuoooooosss Senhorrr di Apareci...

Às vezes é bom experimentarmos a mesma poltrona fria que botamos alguém sentado...


Um beijo boquiaberto! rs

Anônimo disse...

Escreva.