12.28.2012

ACONTECEU

 
 
 
 
 "A manhã está acordando. E, às vezes, é mais do que o suficiente. 
Quando tudo que você precisa amar
está na frente de seus olhos."
 
Josh Groban
 
 
 
 
Tenho sonhado com um sol artificial. Um sol que não existe em parte alguma, a não ser aqui, no quintal solitário de minha imaginação. O som do piano de Josh Groban alagava os cômodos vazios da casa. É céu de quase Janeiro e a neve cai resplandecente atrás das vidraças, como um convite silencioso para a luz, a qual, apesar da treva que nos convoca, nos arrasta irremediavelmente até a ela, feito mariposas iludidas pela iluminância perplexa que reverbera das lâmpadas acesas. Tem alguma coisa me comprimindo o peito. E, seja lá o que for, está doendo.
A verdade é que, é que, é que. Estou gostando de alguém. Não posso dizer isto a ele, então estou dizendo a vocês. Um homem que tem o clássico defeito dos tempos modernos. É de fechar o comércio 24 horas que fica aqui perto. Pouco me importa se ele vai ler este texto, ou, o que é mais improvável, se vai entendê-lo, quando tudo o que sei é que, aspirante a romancista que sou, não há outro modo de vivê-lo senão escrevendo.  Desconfio que este homem não exista de fato. Talvez, Fyodor Dostoyevsky o tenha imaginado.
A prudência foi uma das lições mais difíceis que aprendi. E, neste instante, ela me aconselha a admitir que sim. Tenho tanto medo dele quanto ele tem de mim. Tantas horas, tantos dias, tantos meses, tantos anos. Não foi o tempo, mas o medo, o que acabou nos distanciando. Atiro gentilezas pela janela. Caem verticalmente sobre a sua cabeça. E são esmagadas pelos cascos dos silêncios daquele homem metade gente, metade cavalo.
Espero, mas não sei se espero, enquanto saboreio a ironia amaríssima deste café expresso, que teus olhos me possam ter o mesmo devotamento como quando no instante fatídico em que os meus, por obra de um acaso calculado, se acidentaram nos teus. Ainda é para mim um paradoxo tê-lo procurado sem encontrá-lo e agora encontrá-lo sem procurá-lo. Os olhos giravam com o isocronismo de um pêndulo. Para lá e para cá, a tangenciar o mistério. Observo o tráfego intenso de emoções que desfilam como um cortejo silencioso na rua erma dos meus pensamentos e o vejo. Inteiro. Intenso. Imenso. Atravessei-o. Atravessamo-nos. Num ir e vir de extremos. Deixo a esquina do bom senso, desafio a movimentada avenida da expectativa e, em uma violenta batida, o coração se precipita. Desde aquele novembro, esforço-me por encontrar um modo de fazer com que meu coração pare de bater e, não há nada que eu sinta, exceto este pavor indescritível de estar perdida de amor por alguém que talvez nem imagine que dentro de mim, ele exista. E me ajoelho, apertando a mão contra o peito, até que a ira, antes oculta, seja finalmente admitida, deitando ao asfalto o corpo esfolado, vítima de um dissabor impermanente com a vida. Cafeína.
Até aquele dia, não tinha compreendido que silenciei quando devia ter gritado e gritei quando devia ter silenciado. Até aquele dia, não tinha compreendido que me afastei quando devia ter ficado, e fiquei quando devia ter me afastado. Até aquele dia, não tinha compreendido que quanto mais perguntas eu embaralhasse naquelas poças, maiores eram as chances de que elas se afundassem junto com as respostas. Até aquele dia, não tinha compreendido que aquele sorriso aprisionado numa fotografia de outono, voltaria do passado para arruinar meu orgulho, meu coração e meu destino miserável. Até aquele dia, não tinha compreendido que. Até aquele dia.
Agora a memória era uma máquina analógica. Como naqueles antigos projetores de slides que meus avós guardavam em caixas no sótão. Num retrato em sépia, congelei teu rosto. Foco, e, na luminosidade do instante, pisca-me o sonho. Recuso-me a revelar-te. Prefiro guardá-lo no negativo de meus olhos.
Acontecer... Só pela possibilidade semântica da sintaxe, mordi os lábios como se fosse arrancá-los, deixando na boca aquele brilho cintilante de significados. Não conjugarei este verbo. Ele nos conjugará quando chegar o tempo certo. E, por falar em tempo... A neve parou de cair atrás das vidraças. No Oriente, a estrela da manhã reaparece. O sol abriu-se-me no inverno da alma.
 
Lídia Martins
 
 
 P.S.: Amor, amor, e mais amor gente! É o que tem para 2013!
Um beijo!
Pipa.

12 comentários:

Sara Carvalho disse...

Um amor pleno e verdadeiro! E correspondido, é claro.

z i r i s disse...

Antes que eu arriscasse a única palavra trêmula e quase (no lugar dele) homenageada e ela caísse desesperada ao chão, sem mais dúvida alguma de amor, pensei - quem teria o que dizer depois de toda essa palavra?


Eça de Queiroz me interrompeu com ares de quem por mérito intelectual e de alma elegantemente amorosa, soubesse explicar e disse:

Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações.


E eu disse a ele despeitada - Eça, meu caro, como você e o amor se repetem!





The end!

placco araujo disse...

Minha doce pássara...
Como você consegue ser arteira e nos surpreender, sempre!
Mas é uma surpresa boa, pois você denota no texto, embora denso, que este coração volta a pulsar com o mesmo vigor de uma adolescente.
Que se instale um amor novo, que venha um ano novo e que continue propiciando textos tão bonitos como este!
Beijos e_ternos

Vanessa_Oliveira disse...

FELIZ ANO NOVO QUERIDA.
Que a vida seja só sorrisos nesse ano que logo se inicia.
Muita saúde, amor e sabedoria.
beijo grande ****

Anônimo disse...

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Bruno Angeli (Reqqiem) disse...

A verdade é que, é que... esses sentimentos plantarão uma semente no mundo, que florescerá. Tudo o que pensamos e sentimos, nos retornará. Não sei se na intensidade que buscamos algumas coisas, mas algo sempre virá ao nosso encontro.

Além do coração apertado, eu pude sentir os teus olhos abertos e perplexos de tristeza pela não-concretização dos sentimentos...

Você escreve de uma tal forma que o leitor pensa se se trata da realidade ou de uma ficção muito vívida. Te admiro.

Roberta Mendes disse...

Vim. A alma muda ainda. Entender é silencioso. Abraço-te em risco. De vida.

Rafaelle Melo. disse...

Arrepios e mais arrepios.
Que belo, Pipa! Que belo!
Não o texto apenas, pois seria pouco diante de tudo que sinto agora. Belo o amor que tu deixas entrar com ares de festa, de luz, de devoção.
Devotas tua alma a algo que te ultrapassa, encontra o mistério, o inatingível, o indizível, o AMOR!
Cumpriste com o que prometeste a Deus em tua longa jornada até esse texto. Reencontrastes o ponto, a vida, e hás de merecer!
Vou embora não por não ter mais o que dizer, mas só por não ter a pretensão de esgotar teu texto, seria uma injustiça.

Te abraço forte, cheia de alegria e gratidão.

Relicário disse...

"que tenha amor pra recomeçar"

Seu lugar me cativou.
Beijo na alma,
Sam.

António Jesus Batalha disse...

Vim à net para encontrar novos amigos e ao mesmo tempo divulgar meu blog, encontrei o seu blog, e estive a ver algumas postagens e achei o seu blog muito bom, tenho de lhe dar os parabéns, pois é um blog que dá sempre vontade de vir aqui mais vezes.
O meu blog é o Peregrino E Servo, se tiver tempo ou se desejar pode fazer-lhe uma visita e se gostar faça o sentir no seu coração, saiba porém que nunca deixei alguém ficar mal.
Desejo paz e saúde para si e para o seu lar.
Sou António Batalha.

Jeferson Cardoso disse...

Muito amor a você também Pipa!
http://jefhcardoso.blogspot.com lhe espera. Abraço!

Be Lins disse...

Acontecer...
que verbo mais bonito esse, ainda mais se associado aos sentimentos mais vibrantes e às tuas sempre emocionantes palavras.

Pipa, FELIZ 2013, pra você!
Que seja um ano de acontecimentos maravilhosos. E que eles te inspirem ainda mais.

Beijo