Mas e quanto ao homem?
Fechou os olhos esperando por uma pancada que não veio. Sete anos se passaram
desde a madrugada em que acordei com um sabre espetado no peito. Açulou-me uma,
duas, três vezes e não descansou até a vertigem me fazer tropeçar e andar com
as mãos apoiadas nas paredes. Ele e o Ego, segurando um de cada lado. Talvez
tivesse acordado mal naquele dia, sua voz tremia como as mãos de um velho
centenário, na incoordenação dos que não conseguiam mais abotoar uma camisa,
pegar moedas no bolso, saber o que dizer ou amarrar os sapatos. Desejei morrer
como nunca tinha desejado nada na vida, por saber que dedicaria cada minuto do
meu tempo a esperá-lo e, sobretudo porque sonhava em acordar uma manhã nos
braços de um destino que decididamente sabíamos cruzados. As horas perderam os
números. Os dias ficaram inominados. Vi de perto no que o orgulho ferido de um
homem é capaz de transformá-lo. Num juiz hostil que até um simples aceno, por
tédio ou vaidade, haveria de privar-me. Por um breve instante cheguei a pensar
que meu próprio espírito estivesse esterilizado. E de tudo o que ouvi naquele
dia, arrisco exatamente o contrário, não fui um "aborto prematuro",
fui antes, um aborto provocado. Dizia a mim mesma que se alguma coisa poderia
me salvar dos efeitos colaterais daquela lâmina afiada, antes que um surto de
loucura o fizesse, seriam as palavras. Sentei-me diante de minha underwood e
acariciei as teclas enferrujadas. Cada tecla que batia no tambor era a continuação
de minhas mãos amputadas. Senti-me como
uma pastorinha órfã, cuja única forma encontrada para sensibilizar a
providência divina foi a de chutar o Espírito Santo nas partes baixas, ansiando
pelo momento mágico em que ele desceria do Altíssimo para resgatar a minha
alma, e se isso fosse possível, salvá-la. Por um instante me senti bem com
aquilo. Depois me senti mal por ter me sentido bem. E por fim me senti bem por
saber que meus dedos foram a coisa mais parecida com a justiça que eu tanto
procurava, embora ela sempre tirasse férias nos momentos em que eu mais
precisava. Pela primeira vez escrevia para mim e mesmo sabendo dos riscos que
corria, eu não me importava. Quanto ao homem, bem, curiosamente, cedo ou tarde
a consciência se faz carne. E as que não apodrecem sangrarão eternamente.
Encontrei-o onde havia caído. Num trem de carga abandonado, cujos vagões não
eram mais do que um exército de esqueletos metálicos cobertos pelo mato, à
espera da generosidade de alguém que pudesse senão destruí-los, aos menos
desmanchá-los. Recordo apenas os olhos. Estes recordo. Estavam abertos.
Perdidos em qualquer ponto negro que o impedissem de ver as larvas do ego
abraçando-lhe os restos. Em verdadeiros estranhos, foi nisso que acabamos nos
transformando, não por ele ter ido ao encontro do que nunca será, mas por não
poder fugir de quem realmente era. Uma tarde acordei daquela letargia de
esperas e a circunscrever-me o silêncio cortante dessa despedida que só agora
faço. Levantei-me da cama e quando levei as mãos ao rosto encontrei apenas uma
cicatriz no lugar dos lábios. Arrastei-me tão lentamente quanto pude e ao olhar em volta notei que aquela ferida
negra e sem fundo havia se fechado. Soube naquele instante que não era meu o sangue
derramado. Deixei escapar um grito de triunfo e sorri à saúde do amor que nos
uniu e da indiferença, que em seguida, haveria de separar-nos. Não pela dor de
ter no peito um sabre trespassado, mas pelo susto de constatar que apesar do
rasgão ter sido fundo meu coração estava intacto.
lídia martins
16 comentários:
Magnífico texto! É verdade, alguns homens são assim mesmo..uns covardes moralistas. Eles não tem o dom de enxergar a alma e o coração das pessoas, simplesmente porque não se importam.
O racional em mim, ora ofuscado, diz que foi outro texto fantástico. A parte dominante, contudo, só conseguiu ler 'coração intacto'.
E as pessoas envelhecem, se não em estética, em semântica. Depois morrem. Seu amor, moça dos céus, é eterno.
Por favor, me ensine a ser tão bom.
O que dizes,
Tiro como preces.
Que Deus no proteja de todo mal.
Me deixou sem palavras!!
Sensacional!!!
Beijos
muitooo lindo
beijos
likehappydream.blogspot.com
Haja céu para o tamanho de suas asas.
Eu devia ter uns 17 anos e comia mel despreocupadamente. Na época, não havia o excesso, porque o excesso era o sistema métrico oficial. Eu havia acabado de colocar mel sobre a torrada, mas não o suficiente para cumprir a métrica do excesso. Era preciso colocar mais mel, para que transbordasse. Foi então que desenrosquei a tampa da epifania e me deparei com a superfície do mel: intacta. Sua viscosidade perfeita recompôs em segundos o rastro da faca que eu lhe impingira. Peguei uma colher das de sopa e tirei dele uma porção ainda maior, provocando-o. O mel absorveu todo o impacto, fluiu das bordas para o centro, aonde agora faltava, com uma sabedoria que me era inteiramente nova. Então entendi que ele se refaria infinitamente, até a última colherada. Eu afetava seu volume, mas não suas propriedades de mel. Sua última gota seria tão inteira como o pote inteiro, intacta a natureza de mel, embora minguasse. Desde então, há algo em mim que sorri independentemente da amplitude dos lábios. Não, nem os momentos amargos. Já não me podem saquear a doçura. Teus olhos, como os meus: o mel em nós.
Quando eu penso que já vi tudo, ainda falta muito pra ser lido... rs
Um louco sempre sabe quando agiu normalmente... Ops, não seria o contrário? Ou não. Que seja. Descarreguei toda linha tentando entender quando foi que a sensatez entediou-se e resolveu estapear a sinceridade. E diga-se de passagem se o tapa do revide foi pra ser só assim de raspão na orelha, só pra deixar zumbido, penso que esta boa de mira.
Sem mais!
Seus textos deixam um saboroso gosto de quero mais ^^
thebelement.blogspot.com
ai Pipa, sabe que eu não entendo certas pessoas? vc é tão linda, tão inteligente, tão cheia de sentimentos...
Eu já teria casado faz tempo!!
acho que o monstro vai acabar é com uma bagaceira. kkkkkkk
Beijão e abração, nosso.
Ah! e pensa na minha proposta!!
Taquicardia, aborto constante.
Eu já passei por situação semelhante.
Eu li o seu texto e chorei. Suas palavras revirando memórias...
Beijo grande e obrigada. Obrigada, obrigada, obrigada.
Muito interessante o blog !
Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...;
www.bolgdoano.blogspot.com
Muito Obrigada, desde já !
O texto é muito interessante e comovente! Grata por o compartilhar!
Bj,
Manuela
Quando aprendemos a contemplar a beleza que reside em nós podemos até ficar com absolutamente nada , mas o sentimento de plenitude prevalece.
sucesso de palavras
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