5.02.2011

Fuga em ré menor





Imagem: Deviantar't




"Toccata & Fugue in d minor"

( BACH, J. S.)





Não era um piano, mas um corpo, o que Bach estava tocando. Esta noite o mundo me apareceu sob a forma de um anjo com um sorriso reptiliano. Vi o meu reflexo em suas pupilas vermelhas, que se dilatavam como uma mancha de sangue sobre o papel em branco. Reforcei o tom professoral, e olhei para ele como se fosse um aluno do ensino médio, rebelde, desagradável, amargurado e, sobretudo, com problemas de cálculo.  Do mundo que conheci eu já me desprendi faz tempo. Talvez o mundo que sonho ainda esteja  para ser descoberto. A noite vigiava a planície como uma anciã solene. Desertei-me. Desertaram-se.  Fitei o teto, mas ele desviava o olhar, incrédulo. O lamento elegante de Bach regia os meus ouvidos com um estalido seco  como se estivesse tentando orquestrar o silêncio. Por um instante as notas regressaram para a essência de seu eco.  Continuamos nos ouvindo. Peguei uma xícara de café, pensei na vida e, enquanto bebia, inquiri:  E se não houver nada do outro lado? E se tudo for um grande vazio?   Por um instante pensei ouví-lo dizer tonalmente, como se quisesse expressar o profundo, que tudo não passava de uma recordação.  De alguma coisa que você vai tocar, falar, provar, sentir ou ouvir, e é exatamente  por isso que você será lembrado ou esquecido quando partir. A sinfonia parou antes que ele pudesse me responder se este mundo não era mesmo tudo o que tínhamos.  As certezas afastaram-se sucessivamente em um tom pedal implícito. O medo escorregou dos meus olhos e a verdade ficou dependurada por um fio.  Retrocedi dois passos com a cordialidade de um organista inimigo em trégua indefinida  com a sua melodia e exibi um sorriso, agora, de aflição. O meu riso tinha adquirido a tonalidade das cordas que sucumbem ao tédio das carícias eventuais, num respiro carregado de sentidos, e, no entanto,  sem qualquer satisfação.   A fuga em ré menor. Bach, do piano. Eu, do coração.




Pipa.

10 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Bach era um gênio, como Einstein também era. Este último subverteu as relações de espaço e tempo. Então, fuga pode representar avanço, já que os referenciais a gente escolhe.
O início dramático poder virar fim apogético.

Beijo

Leo disse...

"Do mundo que conheci eu já me desprendi faz tempo. Talvez o mundo que sonho ainda esteja para ser descoberto."

Esse fragmento me mostra o nascimento de uma nova era, a era sem monstro infantil de chocolate. uma era de sonhos recheados de creme ao som de Bach.

Meu beijo, Pipa!!

z i r i s disse...

Um dia escrevi:
Mas naquele dia, feito borboleta sem asas, suas palavras sôfregas riscavam dores invisíveis sobre as folhas...


Pra ti?


Deixa passar, bota aqui no meu colo vivido, seu coração fugidio, a descançar...

Wilson disse...

Fico me perguntando porque não se contenta com a humildade das pequenas medidas. Se o fizesse, certamente receberia delas a alforria tão desejada. Mas não, tem que vir aqui e colocar o mundo debaixo da sola dos seus saltos, talvez para dizer a ele que está à sua altura, ou quem sabe seja apenas para mostrar quem manda. Tu és feito as cordas do piano de Bach quando descansa os seus ouvidos à distância, insinuando uma alegria, que de perto, está visivelmente desfalcada. Mas é no lume dela que vislubras o futuro, de um presente que cuidadosamente está debruçado em tua janela. Ah se a mim fosse concedido o direito de colocar as minhas intenções nela. Tuas partituras de palavras espalhadas pelo chão da sua casa, como uma primavera fora de hora a lançar pequenos brotos sobre a terra, partilhando com o mundo e com tempo, o intervalo inquietante das esperas.




Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Keli Wolinger disse...

E quem manda de fato é o coração. Mesmo em fuga de emoções ele encontra um modo de voltar ao passado e fazer tudo ao contrário do que a razão nos ordena.

Que o vento sopre e espalhe o pó do seu chão de giz, para ele desenhar seus sonhos por aí.

Bjos

Vanessa Mendes disse...

Tudo aqui é divinamente adimirável :D

sobrefatalismos disse...

Embora o amor da minha vida seja Beethoven, Bach deve ter gostado dessa homenagem justa.
Abraços.

Mademoiselle disse...

Muitas saudades daqui. Obrigada por nos brindar com um texto tão belo.
Bjoo

Ju Fuzetto disse...

Coisa linda de ler e sentir!


beijos

Roberta Mendes disse...

E lá vem você me provocar emoções sustenidas em plena pausa do expediente. Hoje o dia era para transcorrer todo por dentro do ventre de um piano, as cordas percutindo açoites nos tímpanos, membrana tão parecida com a alma, por suas características de transparência e vibração, quando exposta aos sons e suas pausas. Bach que não nos ouça, mas acabo de ficar Noturna. E o dia ainda vai à pino...