5.04.2011

Indigesto





Imagem: Deviantar't





De suspeita em suspeita, se chega a uma incerteza - ruminei mordendo os lábios como se fosse arrancá-los. Ou seria ao contrário? Uma mosca azul-metálica me ensinou como combater a repugnância das pessoas: pouse em sua sopa. Olhei para o prato. Intacto. Um bote de ideias frescas descansava frio e transparente sobre a mesa. Peguei a colher e comecei a remá-lo.  Fiquei ali um bom tempo perguntando-me se devia ignorá-lo ou se devia bajulá-lo e engolir de imediato aquele amontoado de bravatas que o prato acabara de me propor. Da última vez que me deixei engolir, esqueci a sabedoria do sabor. Pensei comigo mesma que qualquer coisa que pudesse explicar aquela amargura em minha língua, merecia uma tentativa. Olhei sem vontade para o prato. Pensei na sopa. E pensei em mim. Mas pensei, sobretudo, em todas aquelas pessoas que me diminuíram quando cruzaram o meu caminho. Concluí que não era a sopa, eram elas quem não me desciam. A sensação ruim que o meu encontro com o que elas eram e o que haviam se tornado, foi decisivamente o que deixou em minha boca aquele gosto amargo. Talvez isso explicasse o fato de  eu ter  me distanciado.  Olha aqui nas minhas mãos: isso é um calo! E registre: orgulhoso, porque tive que dar um duro danado para conquistá-lo. Como se estivesse procurando ouro no fundo, continuei remando aquela  sopa rala de palavras, convicta de que eu encontraria nela todas as indicações necessárias. E só o fiz para rastrear o exato instante em que deixei de respeitar a minha fome para matar a dos outros. Não tinha notado que seus egoísmos deixaram o meu prato minguado.  Foi mais do que isso. Meu prato estava vazio. Tudo o que sabia era que precisava conseguir mais comida e se eu iria ou não repartí-la, isso também já não estava importando.  Mas por que não? - vocês devem estar se perguntando. Todo porco tem seu chiqueiro - pontuei completando: o que eles aumentaram no peso, eu aumentei no tamanho.



P.S.: Essa vai para o seu Black Berry, ex-chefe!


Um beijo.
Pipa

14 comentários:

Juliana. disse...

Muita coisa em nossas vidas tem o gosto amargo, fazer o que?

Um beijo Pipa!

JasonJr. disse...

Eu não sei se tem um cantinho pra isso ai Dn. Pipa mas sinta-se a vontade para pegar o selinho que quiser lá! Eu arrisco o do balãozinho que é a sua cara!
Super abração e um beijo!

z i r i s disse...

Pipa,

É que alguns não partilharam do mesmo recreio da gente...
E esse abstrair do alheio dá de uma certa forma um falso orgulho de se saber o que quer. Ô mundo cão, eta vida severina. Num dá não num é mesmo Pipa, pra deixar a vida assim tão emporcalhada... Por isso as vezes nos dói os calos da mão...


Por isso eu bebo! Oh My!

Leo disse...

Meus amigos eram inimigos sobre pernas de pau
Com as cabeças ocultas numa nuvem astuciosa.

Dylan Thomas

Um dia a perna de pau desequilibra e esse povo repugnante cai feio, a roda gira e nem percebem.

A maldade alta cairá. Melhor, pois, ter sempre ao nível do solo as coisas que nos ameaçam.

Meu abraço carinhoso!!

Denise disse...

O gosto bom é que vc cresceu por dentro enquanto eles...
Vai saber

Saudadona,resolvi deixar a corrida da madrugada antes da correria do dia e vir aqui te deixar um grande abraço

De

Noe* disse...

Pipa,

Texto maravilhoso, como sempre!
Só vc mesma para fazer um texto assim cheio de entrelinhas significativas.

Um beijo =*

Vanessa Mendes disse...

você escreve maravilhosamente BEM!
adimiro bastante *--*

Todo porco tem seu chiqueiro - pontuei completando: o que eles aumentaram no peso, eu aumentei no tamanho. gostei \o/

Vanessa Mendes disse...

você escreve maravilhosamente BEM!
adimiro bastante *--*

Todo porco tem seu chiqueiro - pontuei completando: o que eles aumentaram no peso, eu aumentei no tamanho. gostei \o/

Suzana Z. disse...

"Mas cada porco tem seu chiqueiro..."
verdade nua e crua mas que poucos veem.
bjoks

Francy´s Oliva disse...

É por isto que adoro pássaros, eles não são falsos.
Algumas pessoas se superam aff.
bjs

jennyfer disse...

Passando por aqui
para lhe pedir um favorzinho'
Que siga meu blog'
*-*
sigo de volta'
http://jennyferlima.blogspot.com/
bgd desde já ♥

Cristiano Guerra disse...

E que ninguém se esqueça: você tem a alma grande, e pra te encontrarem precisão de muito mais do que uma colher.

Eu ri, moça que voa.


Sempre te abraço.

ErikaH Azzevedo disse...

Agora me diz , foi a imagem quem te inspirou? pq a junção está mais que perfeita...
E são tantas as sopas que tentam nos enfiar guela abaixo, que melhor mesmo é essa sopa de letras, esvazia angustias e de vida nos alimenta

O corpo da palavra quer mesmo é ser no outro mais que corpo,o corpo da palavra quer ser no outro alma.
Na alma tirar o seu próprio provento...Ser dela o seu maior alimento. A sua insaciável fome...

Beijos para a menina das palavras com asas.

Erikah

Roberta Mendes disse...

Intragável essa nata coalhada sobre a substância da sopa, esse visgo sobre o qual caminham, sem milagre, desprezíveis insetos, em uma lenta patinação sobre o pântano. É impressão minha ou, raspado os restos, havia uma verdade transparente no fundo prato? Mania sua de se alimentar no bojo fundo da duralex. Com trocadilho. :-)