5.07.2011

Letargia





Imagem: Deviantar't







São sete mil, oitocentos e setenta e três metros nestas paredes. Eu já contei várias vezes. Não como há três dias. Não durmo há três noites. E deixei o trabalho. Não sinto dor. Apenas cansaço. Uns passos na soleira da porta me despertaram. Tentei abrir os olhos. As pálpebras convergiam para a parte traseira das retinas, como se estivessem tentando se proteger das milhares de agulhadas de luzes que  as espetavam sem consciência nem medida. Sabia perfeitamente que havia alguém dentro do quarto. Fiz menção de levantar, tentando encontrar algo que pudesse me auxiliar, algum indício de qual deveria ser o meu próximo passo, mas as pernas não ajudavam. Virei para o lado. Na claridade ocre da tarde, a sombra deslizava pela parede com uma aparência pouco relaxada, mas afável. Ela flutuava sob os espaços das lajotas, pelos relevos do teto e pelas esferas das lâmpadas. Depois parou pixeladamente e pendurou-se em um fio descascado. Tentou dizer algo, mas foi assaltada por uma tosse áspera e alquebrada, como se tivesse engasgado com as palavras. Não pude evitar um sorriso. Cínico. Mas era um sorriso. As últimas luzes do dia  desmaiavam sobre o céu da cidade, enquanto nuvens negras arrebatavam-lhe o azul resplandecente em circunstâncias trágicas, como se quisesse dar à tarde um fim não só poeticamente justo, mas também necessário. Alheia à claridade, virei-me para contemplá-la. Uma mulher de pernas e braços  quebrados. Devia ter a minha idade, e sua imagem lembrava uma beata entediada tentando acostumar-se com os anos de vida solitária, abrindo um maço de correspondências, no geral, contas atrasadas, enquanto dinamitava as veias com uma bomba de cafeína, para poder pensar em como iria pagá-las. Procurei pelo meu benzodiazepínico. Ele tinha desaparecido. Tempos de codeína debaixo da língua. Tem dias que não dá para segurar a barra sozinha. Avistei-o dentro de um dos meus saltos. Arrastei-o com  os dedos e tomei-o só de um trago. Quando percebi que os músculos não respondiam a qualquer estímulo,  deixei-me cair para o outro lado, mas antes, gesticulei para a sombra de modo que ela se afastasse alguns passos. Pela expressão galhofeira das sobrancelhas ficou claro que ela não entendeu o recado. Senti que suas longas unhas se fechavam sobre a minha pele, e naquele exato momento, a casa pareceu mergulhar lentamente num estado intermediário entre o desejo e o esquecimento. Fechei os  olhos para agradecer  a  consciência, acreditando que ela finalmente tivesse me deixado partir sem rancor, mas ao contrário, ela também tinha me abandonado. De repente, um sobressalto. Senti que algo se movia dentro de mim. Acordei com o estrondo do meu nome em seus lábios. Era o meu espírito tentando recobrar o contato.




Pipa.

14 comentários:

Alicia disse...

Me deu água na boca, sei lá por que...

Por vezes somos puro corpo perambulando por aí.

Noe* disse...

Intenso. Maravilhoso! A gente ainda não foi feito, como diz um poeta por aí.

Um beijo =*

Alvaro Vianna disse...

Por aqui acontece uma mágica. Não são só os textos. Há um direcionamento que ultrapassa em energia o simples ato de escrever. Acho que o verdadeiro artista carrega mesmo algo externo ao corpo, que não é só esse espírito do texto. Ali é um corpo e a essência dele. Uma escritora com o seu talento tem um software que não cabe no drive físico. É a essência e o seu corpo. Isso não é mágico?

À mulher do texto ofereço:

http://www.youtube.com/watch?v=jO5hO3XfyIg

"Eu daria tudo
Pra não ver você cansada
Pra não ver você calada
Pra não ver você chateada
Cara de desesperada
Mas não posso fazer nada
Não sou Deus nem sou Senhor"

Vamos, Lídia, botar o bloco na rua. Como naquela outra canção:


"Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero todo mundo nesse carnaval...

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender"


Beijo, minha querida

z i r i s disse...

Pipa, querida minha!

O impressionante,aterrorizante e inesperado já aconteceu: o amor! Um brinde ao que sorriu e ao que chorou, ao que gritou e ao que calou. O resto é espectro do que poderia ter sido e não foi. O amor aconteceu, as pessoas não. O resto é saudade e sonho. O resto é a vida.

Eu brindo a sua coragem!


Te abraço sempre!

Roberta Mendes disse...

São curiosos esses momentos de desdobramento. A parte que fica na posição fetal parecerá que (se) encolhe, quando o certo é que os fetos crescem. Só precisam de sossego para fazê-lo. A outra parte fica por aí, volitando, fantasmagórica. E aguarda. Que percamos o medo de (nos) ver fantasmas. Que percamos o medo de provocar assombro.

Wilson disse...

Mas que delícia. Você tem cada comentarista. rssrsrsrs...

Lídia, impressão minha ou estou diante de uma recaída?

Mas que desgraceira saber que ainda espera por um noivo que nunca vai aparecer na igreja!

Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Wilson,


Deviam trancafiá-lo em uma penintenciária de segurança máxima, por medida de segurança literária. Você não entende nada de interpretação.


E quanto às minhas comentaristas, respeite-as. Como eu, elas tem alergia à cretinos. Vocês pinicam!

Leo disse...

Pipa minha querida!

Concordo com a Zi, Aterrorizante e inesperado. Eu tive a sensação ao ler-te de desintegração, parece que conforme vamos progredindo nas palavras com elas caem pedaços de ti e de nós, que vamos sofrendo juntos.

E juntos vamos nos reconstruir e sorrir. te garanto.

Te abraço. me abraças. Nos curamos.

O N Z E P A L A V R A S disse...

Queria poder comentar os seus textos tão lindamente como você o faz. As vezes, quando quero por a leitura em dia, vejo a troca de comentários entre você e Betinha (Roberta Mendes). As vezes, leio e saio em silêncio, porque as palavras me calam fundo. As vezes e sempre, saio nutrido.

Reverencio-te.

Juliana Biagi disse...

Adoro a maneira singular com que escreves. :)

Anônimo disse...

Que porra é essa que cê fuma? Olha na boa, você escreve pra caralho cara! Vai ser foda assim lá na casa do cacete, mas na boa é metáfora demais, você confunde o entendimento!

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Anonymous,


Espero que o dano causado não seja permanente.

Guilherme t. disse...

Parabéns pelo blog é lindo, gostei muito desse post realmente é como se desfrutássemos do texto! Ja estou seguindo e passarei por aqui mais vezes. http://guuilhermet.blogspot.com/

Celso Andrade disse...

Tudo sempre belo por aqui...


abraços poéticos