5.13.2011

A Casa da Torre













     


Inos Corradin - Casarios
Óleo sobre tela



"- Ouvi seu ressono outra noite..." - escutei. - Eu não ronco! Você deve ter sonhado com algum gorila que sofre de obstrução aérea - improvisei. Edward disse-me uma vez que, dormindo, pareço um bicho exótico de contrabando tentando escapar do faro de detetives selvagens, e, se calhar, chilenos.  Talvez tenha chegado a essa conclusão por inspiração direta de Bolaño. Lembro-me de uma tarde em que o surpreendi em seu quarto abraçado em um volume de efemérides que contava histórias inusitadas e bizarras de alienígenas egocêntricos. Nunca tive notícias de uma dama que dormisse em sua casa, e não saísse de lá perturbada por ter sido devolvida com a honra e a virtude intactas. Seu princípio ativo: a Desconfiança. Uma espécie de código de honra que não valia muita coisa, mas ele respeitava. Edward foi o meu único amigo de carne e osso. Sempre falou pouco. Talvez por isso me parecesse tão verdadeiro.  Nunca foi dado a rodinhas improvisadas, e nos momentos difíceis, que eram maioria, se havia um lugar que eu pudesse me refugiar nessa porcaria de mundo, era em sua casa. Houve um tempo em que acreditei que terminaria meus dias como uma estrangeira itinerante, uma espécie de mochileira das galáxias que se perdeu de seus amigos em uma excursão pelo infinito, depois ficou a vagar eternamente pelo espaço como uma alma penada e ninguém  voltou para buscá-la.  Lembro que quando criança eu aproveitava a distração dos meus pais para fugir de casa. Às vezes passava horas albergada sob a marquise de construções inacabadas,  em uma distância que me possibilitasse esquecer os olhos no portão, como um cahorro carente à espera de que o dono desse pela sua falta.  Alguma coisa dentro de mim dizia que enquanto Edward estivesse por perto eu teria o meu refúgio, e o mundo encontraria um jeito de me esconder. A casa da torre era uma espécie de palácio encantado, repleta de artefatos e imagens de santos e virgens que pareciam fazer careta  sob o clarão dos candelabros. Colecionador nato de ampulhetas, quadros de casais de namorados e de velhos centenários dando de comer aos pássaros, cadeados do século passado, bengalas com cabeça de Medusa e guarda-chuvas com cabos prateados. Em alguns casos, tinham até mesmo as inscrições em latim dos nomes e marcas das mãos de quem os havia segurado. Edward gostava de cultuar a memória de seus antepassados. E o fazia porque acreditava que eles reviviam sempre que eram lembrados. Limpar a poeira que os cobria e deixá-los reluzente em sua estante transparente, era a forma  que ele encontrava de homenageá-los e recuperar suas almas.  Enquanto ele preparava o jantar, escolhi um de seus apontadores  metalizados, em especial, um em forma de tanque de guerra, que ele havia ganhado de sua mãe quando criança. Ela argumentava que quando voltasse às aulas do colégio de freiras, com um tanque daqueles, estaria preparado para enfrentar qualquer batalha. Inclusive, para apontar aquele exército de lápis-de-cores que viviam quebrados, como aqueles soldados que os generais mandavam para os campos de mortalha. Não sabia se a miniatura bélica ainda fucionava, mas resolvi testá-la. Apontei o lápis e o coloquei em riste tentando catalogar aquelas variedades de relíquias macabras.  Quando as porcelanas foram colocadas sobre a mesa, tive a impressão de sermos dois aprendizes de gênios, jantando com os fantasmas de Stálin, e, talvez pela aparência beligerante, Hitler. Três taças de vinho mais tarde, Hitler levantava o indicador: "do que mesmo estou sendo acusado?" Homossexualismo e Burocratização do Estado - pontuei concedendo-lhe a resposta de modo abstrato.  As porcelanas eram restos mortais das hostes da dinastia militar arruinada ao final da segunda guerra mundial, e delas era possível ouvir os lamentos daqueles fantasmas fundindo-se com o eco de outras épocas. A casa da torre era uma espécie de máquina do tempo. Ao adentrá-la, era possível viajar até trezentos anos para o passado e encontrar o sorriso enlevado de personagens legionários que pareciam atormentados pela angústia de serem esquecidos, apesar da titânica insistência de Edward em relembrá-los.  Parecíamos dois ermitões vigiando a planície como anciões solenes.  Na companhia daquele  Lord destilando vapores de colônia Versace, as horas transcorriam perfumadas pelo farfalhar de seus ternos importados. Edward era o oposto de um intelectual, era inteligente. Talvez por essa razão eu tivesse me rendido aquela suave e secreta convivência com ele.  Era um homem exigente, o que acho natural a medida que a amizade avance.  Liquidamos todo o estoque de anis.  A julgar pela altura da ebriedade, eu não estava habilitada para voltar pelo caminho de onde vim. "Passe esta noite aqui."- convidou. Hesitei um instante temendo colocar sua reputação a perder e, lançando-me um olhar ignorado, Edward pegou minha mão e foi me guiando até o quarto. Vencia-me o cansaço e pressentindo uma hecatombe iminente, deixei-me cair.  Quando recobrei a consciência, o dia já amanhecia. Na manhã seguinte, aproveitei -me do fato de o gorila que apareceu em seus sonhos não o ter deixado dormir, e, cedendo ao entusiasmo de seu cochilo faraônico, fui embora sem me despedir. Chamei um táxi, e fiz sinal ao motorista indicando que parasse em uma cafeteria.  Pedi um expresso com chantilly, e, enquanto bebia, comecei a rir.  Lá fora, as folhas se agitavam em redemoinhos entre os troncos das árvores. Talvez os ventos tenham voltado agora, para soprar-me.




Pipa

22 comentários:

Wilson disse...

Está SOBERBO!
O texto?
Não! O FATO!

Então passa a noite com o seu melhor amigo e vem aos ares como se não tivesse feito nada de errado? O que está tentando insinuar? Uma história de amor, onde a paixão e a amizade se misturaram? Ah se é comigo, eu faria uma oferta irrecusável. Que Stálin Hilter lhe paguem! Porque eu não posso!

Pipa, odeio admitir isso, mas ficou fantástico!

Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Wilson,


Enquanto eu tiver comentaristas como você minha vida pessoal ficará ingovernável.


Abraços.

z i r i s disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leo disse...

Perfeito, como sempre, né? há um ar de reencontro com a paz, com a serenidade. Sabes que não mais terminarás os dias como estrangeira itinerante, tens morada aqui e um longo abraço.

te beijo com carinho
te abraço com nostalgia!

Clebson Moura Leal disse...

Olá, querida!

Adorei seu blog, tudo é perfeito ^^
Quando estiver com mais tempo, vou voltar e ler tudinho rs


Se quiser conhecer o meu, entre em semcorponenhum.blogspot.com

Siga-o, se for de seu interesse!
Beijo.s

A Menina que não pisca nunca! disse...

Qu texto maravilhoso. Nossa fiquei encantadam, mesmo. Parabéns, adorei o blog e fico no ar mesmo com esses textos.

www.ama-visse.blogspot.com

z i r i s disse...

Aqui, nesta sala, cercada por seus adoradores, em meio as esplêndidas reverberações de sua beleza, ela respira profundo. As cortinas imitam o vendaval de sua alma. Entregue, ela se deixa acarinhar na face enquanto as laranjeiras oferecem seu aroma por onde caminha. São novos ventos que vem lhe soprar. Não é o triunfo, não ainda. É sobretudo, o desafio que lhe encanta a tez.

É o Cavaleiro de Madara...


Gastei todo chumbo só para comentar...

Um abraço clássico

Alvaro Vianna disse...

No comentário que se perdeu até quis ser profundo. Agora já não tenho a mesma coragem.
Estupefaciente!

O N Z E P A L A V R A S disse...

Você escreve tão livre. É você mesma na foto do twitter? Aquela moça que parece enrolar nos cachos os segredos da escrita que embalam os leitores e que me seduzem? Mau leitora? Você vem e a sua presença emerge com tantas perguntas! É de queimar o coração, a sua beleza, a sua letra. É nessa mochila que você guarda o seu segredo, mochileira?

=]

Leo disse...

Comentário que se perde vira poeira de estrela? é difícil lembrar o que eu tinha dito exatamente, mas sei que foi algo bem bonito de ti.

O Ar que era vácuo ganha novos ares.

Vejo o céu azul no mar.

Beijos e carinhos!

Pedro Antônio disse...

Pipa, a gente podia se ver no ar. Que tal?

:)

Pedro Antônio

Wilson disse...

Apagou meu comentário como se apagasse um vestígio. Não me importo. O condomínio também já tentou de tudo para me arrancar daqui e acredite, o que de menos grave fiz foi atrasar o pagamento dos boletos. O texto está soberbo, mas não gostei da máscara estilo tribal. Pareceria mais verdadeiro se pintasse no rosto uma caveira, assim não teria que gastar tanto pó compacto para disfarçar essas olheiras.



Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Pipa. A mochileira das galáxias disse...

Wilson,

Sua visita em meu blog é como uma espécie de loteria do inferno. O diabo, provavelmente entediado com todas aquelas sucessões de estampas nauseabundas de almas penadas e monstruosas flutuando à exaustão no infinito, sem nada melhor para fazer resolve me sortear e como prêmio, me manda ao purgatório ao antes do tempo.


Quanto aos comentários, peço desculpas aos demais, o blogspot teve problemas em seu servidor por dois dias consecutivos, lamentavelmente todos foram perdidos.

ϟ Cynthia Brito disse...

Olá!cFaço parte do projeto escolar "Idoso: Inclusão não tem idade" que está na luta pelos direitos e valorização da pessoa idosa. Convido você para conhecer a nossa equipe através de Um Cantinho Especial (o link você encontra no fim deste comentário), blog que criamos para o projeto afim de divulgar nosso trabalho e proporcionar a prática cidadã na sociedade. Será um prazer encontrar você por lá, onde poderemos discutir e abraçar temas e ações pouco socializados na sociedade.


Um grande abraço,
"Projeto IINTI"

http://emjpcantinhoespecial.blogspot.com

Roberta Mendes disse...

O primeiro impulso era o de pegar um pincel de cerdas gordas de tinta amarelo-alaranjada e colorir de outono as árvores da nova imagem da abertura. É minha estação predileta. Gosto da cor das coisas antes da queda: das folhas, do sol, dos olhos antes do desfecho do beijo.

Mudança de ares, D. Pipa? Foi esse vento que lhe soprou o mistério.

Pollycléssio Mota Sá disse...

Filosofia do eterno retorno, vejo isso em tua postagem. Desde o desenho da torre - de cor marrom - até o urso - de cor marrom - me fez lembrar o chocolate.
"Edward gostava de cultuar a memória de seus antepassados. E o fazia porque acreditava que eles reviviam sempre que eram lembrados"
É importante lembrar os momentos já vividos com alegria. Gadamer chama isso de celebração/festa. Quando você recorda o passado, por exemplo, os momentos felizes, você os faz presente.
Você ainda não o esqueceu.
E nem deve, fica bonito esse teu modo de - lembrar de quando era criança - voltar à casa da torre e reviver. Desejo felicidade pra ti.

Pollycléssio Mota Sá disse...

Não acredito que fizestes isso. Por acaso alguém te ameaçou de processo?
Do que adiantou eu parar e refletir sobre um tema tão profundo?
Não vou mentir, estou triste. Não quanto à casa da torre porque já falei sobre ele, mas quanto ao fato de você ter tido medo. Você é ou não uma poetisa?
Tenha coragem!!!
Desculpe a sinceridade.
Mas sou teu amigo, sinto-me no dever de falar isso. Bjão. Te amo.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Querido Monstro da Capela,

Cada texto que escrevo e jogo no lixo, sinto que sou eu quem ali fico. Talvez eu deva dar um tempo da escrita. Não quero assustar as pessoas catalogando variedades de moscas voando em um céu batido por nuvens negras que se movem em círculo sobre a minha cabeça. Não quero meu leitor dando um duro danado para não morrer de tristeza a cada novo parágrafo. Voltarei num momento mais leve. E lembre-se: a estupidez está sempre nas mãos de quem a escreve.



Te abraço com tristeza.

Ana C. disse...

beijos flor..
passando pra visitinhas..

francys disse...

Estava lendo um outro post, no meu reader, mas, não achei por aqui então li este...acho que o vento soprou este para eu ler(rs).
beijos

Keli Wolinger disse...

Fascinante e libertador. Demonstra seu talento em não ocultar os segredos da alma.

Bjos

Roberta Mendes disse...

Dessa vez você não mandou aviso :(
Usei o que ainda restava do meu kit de sobrevivência a naufrágios.

E já não sei se te abraço ou nos ancoro.