4.24.2011

Coração Indômito





Imagem: Deviantar't







Mas e quanto ao homem? Fechou os olhos esperando por uma pancada que não veio. Sete anos se passaram desde a madrugada em que acordei com um sabre espetado no peito. Açulou-me uma, duas, três vezes, e não descansou até a vertigem me fazer tropeçar e andar com as mãos apoiadas nas paredes. Ele e o Ego, segurando um de cada lado. Talvez tivesse acordado mal naquele dia, sua voz tremia como as mãos de um velho centenário, na incoordenação dos que não conseguiam mais abotoar uma camisa, pegar moedas no bolso, saber o que dizer ou amarrar os sapatos. Desejei morrer como nunca tinha desejado nada na vida, por saber que dedicaria cada minuto do meu tempo a esperá-lo e, sobretudo porque sonhava em acordar uma manhã nos braços de um destino que decididamente, sabíamos cruzados. Mas ele não compareceu ao encontro marcado. As horas perderam os números. Os dias ficaram inominados. Vi de perto no que o orgulho ferido de um homem é capaz de transformá-lo. Num juiz hostil que até um simples aceno, por tédio ou vaidade, haveria de privar-me. Por um breve instante cheguei a pensar que meu próprio espírito estivesse esterilizado. E de tudo o que ouvi naquele dia, arrisco exatamente o contrário, não fui um "aborto prematuro", fui antes, um aborto provocado. Dizia a mim mesma que se alguma coisa poderia me salvar dos efeitos colaterais daquela lâmina afiada, antes que um surto de loucura o fizesse, seriam as palavras. Sentei-me diante de minha underwood e acariciei suas teclas enferrujadas. Cada tecla que batia no tambor era a continuação de minhas mãos amputadas.  Senti-me como uma pastorinha órfã, cuja única forma encontrada para sensibilizar a providência divina, foi a de chutar o Espírito Santo nas partes baixas, ansiando pelo momento mágico em que ele desceria do altíssimo para resgatar a minha alma, e se isso fosse possível, salvá-la. Por um instante me senti bem com aquilo. Depois me senti mal por ter me sentido bem. E por fim me senti bem por saber que meus dedos foram a coisa mais parecida com a justiça que eu tanto procurava, embora ela sempre tirasse férias nos momentos em que eu mais precisava. Pela primeira vez escrevia para mim, e mesmo sabendo dos riscos que corria, eu não me importava. Quanto ao homem, bem, curiosamente, cedo ou tarde a consciência se faz carne. E as que não apodrecem, sangrarão eternamente. Encontrei-o onde havia caído. Num trem de carga abandonado, cujos vagões não eram mais do que um exército de esqueletos metálicos cobertos pelo mato, à espera da generosidade de alguém que pudesse senão destruí-los, aos menos desmanchá-los. Recordo apenas os olhos. Estes recordo. Estavam abertos. Perdidos em qualquer ponto negro que o impedissem de ver as larvas do ego abraçando-lhe os restos. Em verdadeiros estranhos. Foi nisso que acabamos nos transformando. Não por ele ter ido ao encontro do que nunca será, mas por não poder fugir do que realmente era. Uma tarde acordei daquela letargia  de esperas e a circunscrever-me o silêncio cortante dessa despedida que só agora faço. Levantei e quando levei as mãos ao rosto, encontrei apenas uma cicatriz no lugar dos lábios. Arrastei-me tão lentamente quanto pude, e ao olhar em volta notei que aquela ferida negra e sem fundo havia se fechado. Soube naquele instante que não era meu aquele sangue derramado. Deixei escapar um grito de triunfo e sorri à saúde do amor que nos uniu e da indiferença, que em seguida, haveria de separar-nos. Não pela dor de ter no peito um sabre trespassado, mas pelo susto de constatar que apesar do rasgão ter sido fundo, meu coração estava intacto.




Pipa.

16 comentários:

Cris R. disse...

Magnífico texto! É verdade, alguns homens são assim mesmo..uns covardes moralistas. Eles não tem o dom de enxergar a alma e o coração das pessoas, simplesmente porque não se importam.

alvaro.lv disse...

O racional em mim, ora ofuscado, diz que foi outro texto fantástico. A parte dominante, contudo, só conseguiu ler 'coração intacto'.

Cristiano Guerra disse...

E as pessoas envelhecem, se não em estética, em semântica. Depois morrem. Seu amor, moça dos céus, é eterno.


Por favor, me ensine a ser tão bom.



O que dizes,
Tiro como preces.
Que Deus no proteja de todo mal.

Cyทτiα ทσgυєirα ઇ‍ઉ disse...

Me deixou sem palavras!!

Sensacional!!!

Beijos

Giovanna disse...

muitooo lindo
beijos
likehappydream.blogspot.com

Anônimo disse...

Haja céu para o tamanho de suas asas.

Roberta Mendes disse...

Eu devia ter uns 17 anos e comia mel despreocupadamente. Na época, não havia o excesso, porque o excesso era o sistema métrico oficial. Eu havia acabado de colocar mel sobre a torrada, mas não o suficiente para cumprir a métrica do excesso. Era preciso colocar mais mel, para que transbordasse. Foi então que desenrosquei a tampa da epifania e me deparei com a superfície do mel: intacta. Sua viscosidade perfeita recompôs em segundos o rastro da faca que eu lhe impingira. Peguei uma colher das de sopa e tirei dele uma porção ainda maior, provocando-o. O mel absorveu todo o impacto, fluiu das bordas para o centro, aonde agora faltava, com uma sabedoria que me era inteiramente nova. Então entendi que ele se refaria infinitamente, até a última colherada. Eu afetava seu volume, mas não suas propriedades de mel. Sua última gota seria tão inteira como o pote inteiro, intacta a natureza de mel, embora minguasse. Desde então, há algo em mim que sorri independentemente da amplitude dos lábios. Não, nem os momentos amargos. Já não me podem saquear a doçura. Teus olhos, como os meus: o mel em nós.

z i r i s disse...

Quando eu penso que já vi tudo, ainda falta muito pra ser lido... rs

Um louco sempre sabe quando agiu normalmente... Ops, não seria o contrário? Ou não. Que seja. Descarreguei toda linha tentando entender quando foi que a sensatez entediou-se e resolveu estapear a sinceridade. E diga-se de passagem se o tapa do revide foi pra ser só assim de raspão na orelha, só pra deixar zumbido, penso que esta boa de mira.



Sem mais!

Isabella F. disse...

Seus textos deixam um saboroso gosto de quero mais ^^

thebelement.blogspot.com

Leo disse...

ai Pipa, sabe que eu não entendo certas pessoas? vc é tão linda, tão inteligente, tão cheia de sentimentos...

Eu já teria casado faz tempo!!
acho que o monstro vai acabar é com uma bagaceira. kkkkkkk

Beijão e abração, nosso.

Leo disse...

Ah! e pensa na minha proposta!!

sobrefatalismos disse...

Taquicardia, aborto constante.
Eu já passei por situação semelhante.

O N Z E P A L A V R A S disse...

Eu li o seu texto e chorei. Suas palavras revirando memórias...

Beijo grande e obrigada. Obrigada, obrigada, obrigada.

Amanda Lemos disse...

Muito interessante o blog !
Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...;

www.bolgdoano.blogspot.com

Muito Obrigada, desde já !

Manuela Freitas disse...

O texto é muito interessante e comovente! Grata por o compartilhar!
Bj,
Manuela

Keli Wolinger disse...

Quando aprendemos a contemplar a beleza que reside em nós podemos até ficar com absolutamente nada , mas o sentimento de plenitude prevalece.

sucesso de palavras