Herói é o que não
teve tempo de fugir."
Millor Fernandes.
Estou rindo. Que
senso de humor mais perverso tem o destino. Gosto de pensar que ele poderia ter
nos unido, mas nem sempre acredito. Morremos. Ainda há pouco. Tentei juntar
lembranças que me fugiam. Exceto por esse vulto escuro me repetindo às minhas
costas, não me sobrou nada. Nem de como era seu rosto, nem da sua voz, nem do
seu cheiro, nem do seu olhar, nem do seu sorriso eu me lembro. Todos
desapareceram. Eu os perdi no instante em que descobri que não voltarias mais
para esta escrivania, onde sempre lhe toquei com todos os meus dedos, para
compensar a falta que me fez todo esse tempo. Encontramo-mo-nos, ainda hoje,
antes do canto do último bem-te-vi. Da varanda dos teus olhos frios,
contemplamos pela última vez essa vista. Olhamos o céu e não vimos nada além
dessas torres de fumaça a sussurrar-nos que tudo termina. Combinamos que não
haveria despedidas. Só essa concordância muda de quem não desiste apenas
aceita. Em nós, a solidão não foi uma opção, mas uma espera mascarada que foi
crescendo entre às sombras, onde as conseqüências pouco importavam. Tenho
pensado nisso já faz algum tempo. Inventar desculpas para todos os erros é uma
forma de legitimar nossas dívidas, por mais questionáveis que sejam. E isso
tudo inquieta-me. Foi apenas uma alucinação pensar que estávamos no mesmo
nível. Nada nos faz mais infelizes do que o medo. A certeza que nos impediu de
arrancar palavras de um papel, só por temer o atraso das entregas e a covardia
de não dividir segredos. Gosto de imaginar que poderia ser o mesmo com o qual
escrevi centenas de páginas contemplando a cidade se afastar como uma miragem
que desaparece rápido demais. Exceto pela solidão, essa rainha das putas, não
havia ninguém à minha espera. A rodear-me, só estas estantes repletas de almas
tão perdidas quanto a minha, embora nunca admitam. Sempre senti, a vida
inteira, que tinha que escrever enquanto todos dormiam ou faziam filhos.
Espetáculos onde eu não era a palhaça, era a piada, e poucos se lembravam de me
agradecer por isso. A alegria, se é que
isso existe, me aparece sob uma luz muito fraca, como se alguém a houvesse
apagado sem que nem ela pudesse ter suspeitado. Às vezes acho que ela nos
espera na sombra, com uma calma que mais parece uma farsa, noutras com olhar
consternado, como se eu a tivesse expulsado, mas ela no fim tivesse me
perdoado. Penso. Do que vale se calar quando o silêncio é vencido pela força do
olhar? A madrugada é uma hora mágica.
Vestindo cem tonalidades de cinza, talvez fosse o céu desse dia apenas uma estátua uniformizada que repousa
serena sob um lençol de fumaça. Eu juro que estou me esforçando. Às vezes finjo que estou bem e acabo ficando.
Mas quando a vista embaça, não fica nada além dessa expressão devastada. Só a incerteza ilumina nosso caminho. Nos
vestimos de silêncio até que não restasse mais nada para ser dito. Não
tivemos a morte que sonhamos mas a que merecíamos. Não vamos limpar o musgo
sobre a lápide. Deixe que ele cresça até encobrir-nos. Nunca pensei que pudesse
amar tanto alguém que eu sequer conhecia. A essa altura ele era apenas a sombra
do homem de quem eu me lembrava, e, em
tantas outras vezes me perdia. Todos têm uma história. Essa é a minha. Apertei
o livro contra o peito e o abracei escondendo minhas próprias lágrimas. Era
hora de virar a página.
lídia martins

20 comentários:
Viver ainda continua sendo melhor que criar a própria realidade em caneta e papel?
Seus textos mexem comigo.
Parabéns, flor!
Que coisa mais linda, mais pura, mais sincera. Já passei por isso Pipa e tenho certeza que a melhor parte de sua vida ainda está por vir. Relaxa baby e flui...
Mais uma vez você me deixou sem voz!
Cara Pipa, porque agimos sempre assim, tão presas ao que não nos cabe? E porque nem acreditamos nisso de verdade?
Agente se encontra por ai, no ar, nos sonhos, pois isso de fato temos em comum.
Levo fé que um dia agente aprende, apesar de ainda acordar vendo ir embora a esperança de que todos ao redor pudessem estar errados.
Te abraço.
Me abraças.
Quando venho por aqui, faço questão de vir descalço. Adoro o chão, não importa como esteja. E é meu jeito de dizer, que por respeito, jamais pisarei nas suas palavras. E então eu me surpreendo, sempre me surpreendo. Porque suas metáforas precipitam-se feito chuva e fico encharcado com seu sentimento. E dessa vez teria sido fabuloso, se não fosse trágico. Dessa vez, moça Pipa, eu apenas gostaria de te dar um abraço apertado.
Moça Pipa, Su é uma conta a qual estava aqui por acaso. Não a estranhe.
Outro abraço, apertado
"Hora de virar a página": a frase mais terrível que um ser humano pode ouvir ou dizer. Hora de morrer uma vida, é o que significa. Claro, dolorosa para os que a vivem com suprema intensidade ideológica. Para quem vem ao mundo querendo parir outro universo - à semelhança de um deus. O amor é o sentimento-ação que faz isso. E nasce da união de corpos e mentes com o mesmo propósito.
O maior dos dramas é o encontro do par perfeito. Quantos enganos nessa busca. Quantas estradas que não prosseguem, em ambas as pistas.
Perda de fé é a consequência mais comum. E a perda do sentido da vida. Tudo passa a ser sequência de dias e noites sem cores, cheiros e sabores.
Pode ser um excesso de otimismo, mas talvez esse cenário árido favoreça que se vejam pessoas de luz apropriada. A seletividade arduamente conquistada pode ser a solução.
Alguém por aí quer fundar universos?
doce pipa, pessoalmente já te disse,
o tempo é a melhor resposta,
mas quando a ferida é profunda,
dói mais, demora mais a sarar
mas não desista
...
de amar
somente de amar
as cicatrizes nos servem para contar histórias de como aconteceram e de erros que podemos evitar. pense nisso
bjao
polícleto
Um lugar ípmar...
Adorei seu blog. De verdade.
Grande abraço,
Cinthya
http://odivaadellas.blogspot.com
Os Tuaregues, um povo nômade do deserto africano, oficializa as separaçãoes com uma festa!
Porque são selvagens, loucos ou o sol lhes derreteu o pouco de raciocínio lógico?
Não.
Mas porque festejando, partilham a idéia de que se houve separação acompanhada de dor, o amor existiu...
Cansei de dizer que 'desta vez você arrancou minhas costas cansadas do encosto da cadeira ao te ler'... Direi que, possuo hoje este invejado abdômem por conta desses emocionantes exercícios de cadeira que pratico por aqui.
Saudades.
Muitas.
Amor, Ziris
Poxa, que lindo. Eu queria saber a hora de virar a página, tô apanhando pra aprender...
Lindo seu blog *-*
Desista não vire a página. De pouco adianta, sempre saberá que ela será diferente, pois está amassada,rasurada e reescrita inúmeras vezes.
O que nos cabe é olhar para ela confiante de que sobreviveu a escrita.E que irá relê-la algumas vezes ainda e pode conjuga-la no passado.. um dia quem sabe algum dia.
Um abraço de boa sorte e que novas páginas venham
E a incerteza sempre nos veste a alma e quando chega a madrugada as suas cores fica densa.
Adorei seu texto. Sensivel e intenso ao mesmo tempo.
Querida Pipa,
Há tempos te observo daqui da minha torre, acompanho suas entre linhas, suas delicadezas em forma de palavras. És possuídora do dom da escrita que tanto me seduz. Sendo assim, te peço, não vire a página... falta lindos parágrafos, reticenciados com pontos de continuação para findar essa história. Daqui do alto da minha torre lhe mando beijos acarinhados com ternura, e torcida para que no fim a luz prevaleça sobre a escuridão que nos rodeia!! Para nós duas... por nós duas!
A madrugada,
A negra madrugada
é o que nos trás certamente
à luz aos pensamentos e nos
revela a grande verdade que
somos.
Coragem, ela nos dá coragem
de virar a página, a negra
madrugada.
Te beijo. Me beijas.
com carinho!
Viver e não ter a vergonha de ser...
O que você bem entender.
Perdoe o sumiço,andei a cismar.
beijocas
Por mais que tentemos permanecer sempre os mesmo,a mudança sempre acontece gostando ou não chega uma hora q temos q reunir nossas ultimas forças e "virar a pagina"!
Parabéns, lindos texto, to te seguindo, se der me segue tá?
www.robertameyce.blogspot.com
Virar a página dói, perceber que estamos esquecendo de coisas tão bonitas também dói, mesmo que seja necessário... e mesmo assim tudo isso pode ser transformado em um texto tão bonito quanto esse!
Beijos
Virar a página, seria talvez esquecer de vez cada lágrima derrubada. Cada sonho confesso está agora rodeando laços nunca desfeitos. Deixar que a solidão abrace a alegria disfarçada de cinza ainda é coisa rara.
Um beijo. Um sonho sempre.
Mais uma vez saio daqui sem conseguir proferir palavra, mas levo comigo um livro delas.
Beijo
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