2.20.2011

Dias cinzas





Arte: Gabriel Pacheco





Uma paixão só vale o quanto temos disposição para entregarmo-nos. Soube que o amor havia acabado porque, de quando em quando, levava as mãos ao coração e o sentia desacelerado. Eram dias em que o tempo se recusava a passar, e quando a luz do sol se despedia, muitos já tinham se confundido com a neblina. A menina, escondida, escrevia. As lembranças gritavam até perder a voz, talvez porque tenham surgido do alento e ali permaneceram. Cálida e transparente, a tarde desabava sobre si mesma num recuo inevitável, como se quisesse sussurar-nos que a fuga é sempre inviável. Respirava um ar de carvão e lixívia, como se essa névoa que lhe embaçasse a vista, pudesse lhe devolver o alento das esperanças perdidas. O crepúsculo descia das alturas como um milagre que anunciasse a existência de um paraíso esquecido. Viajava sozinha para um mundo de sensações, aonde a única coisa que podia ser vista, era o invisível. Deserta, a cidade fantasma emergia das ruas e avenidas, como se os prédios e as casas tivessem sido devolvidos por uma maré de cinzas. Foi ali, no eco de uma época que já não existia, que o passado lhe voltava a memória, ainda que dele só restassem ruínas. Refém de um tempo que se esvaía como fumaça ao vento, dos que não conseguem mais sentir, e, sobretudo, dos que mais nada esperam. Lá fora o sol ardia, incapaz de aquecê-la do frio que a consumia  por dentro. Como fossem lágrimas petrificadas, os flocos de neve caíam. Um instante antes que os primeiros cones de cristal líquido lhe interditassem a vista, o tempo parou, congelando-a nas lembranças e na vida. Naquela tarde em pó, sentiu pela primeira vez que se fundiam. A alma ficou suspensa no ar como uma partícula de poeira fina. Era como acordar em um corpo que não lhe pertencia. No espelho, não era ela. Era uma estranha que via.



Pipa.

12 comentários:

Rafaelle Melo. disse...

Cara Pipa,

Te ler é sempre um prazer, até quando tuas linhas conduzem o gelo de tua alma.


O bom poeta encanta até em cinzas, pois a arte é sempre a possibilidade de uma aquerela de sonhos.

Te abraço para aquecer!

Alvaro Vianna disse...

Quando leio um texto seu dessa qualidade, sempre monto uma cena mental. E sempre vejo uma cena de um filme denso. Desses europeus, de salas e quartos escuros.
Um nó no estômago, mas cérebro arejado.

bj

Cristiano Guerra disse...

Moça Pipa, moça Pipa..
Às vezes não sei bem o que dizer. É aquela sensação de ver uma coisa colossal e deixar a boca escancar-se em silêncio e admiração. E então ficou tudo tão frio, moça! Daqui de minha janela, tento entender onde e porquê o sol escondeu-se tão de pressa. Mas ele há de voltar; ele sempre volta, porque ele não vai deixar esse escuro aqui, não vai.



Vá - Vanessa da Mata, sugiro que ouça, moça.



Você me ensinou abraçar, então eu te abraço.

WILSON disse...

Lídia,


Nenhuma agonia é perpétua. Vai sobreviver ao veneno da paixão, embora as sequelas sejam cada dia mais terríveis. Bem no íntimo, acredito que ele se sinta feliz com o fato de depois de tudo isso, ainda ser lembrado.

Existem lembranças que nenhum de vocês dois poderá apagar, e se pensa que podem, estão enganados.

Suas palavras, como sempre, me deixam enfeitiçado.



Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Mulher Vã disse...

Dilacerada.
Assim que me senti depois que te li. Com as víceras expostas,
pulsando.
Sangrando.

Mas coloque tudo isso no prazer masoquista que é sentir meu interior ardendo e minha alma esfarelada. Nada se compara.

Sou sua fã, veada.

Sizií disse...

Os escritos estão espetacular...
Sentir como dentro de um mundo que não é o meu, mais o seu... e ainda experimentei altos sentimentos..

Abraços'

Sabiana M. disse...

Eu aguardo ansiosa o dia do renascimento... da fé, da alegria, da vontade de recomeçar.
É para isso que fomos criados... para renacermos.

Frido disse...

A primeira frase já é o bastante. "Uma paixão só vale o quanto temos disposição para entregar-mo-nos." Profundíssima!

Keli Wolinger disse...

As mudanças acontecem gradativamente. Quando caímos em si é tarde demais e o breve presente se foi, tornando-se passado.

Abraços, Keli

Patrícia disse...

Como sempre, adoro seus textos.

É assim que me sinto nesse momento. Ainda bem que passa.

Beijos!

Versos e Tintas disse...

Cara Pipa,

Estou me sentindo no ar como você. Adorei. Te visitarei sempre.
Bjs.

Loa Karen disse...

Como conhecendo tão bem nós mesmas somos capazes de não nos reconhecermos quando se trata de sentimento? Ou pior ainda, quando se trata do amor? Grande arma, acalenta as maiores confusões e proporciona os maiores desvaneios.