3.2.11

Queria água






Imagem: Gabriel Pacheco



Não se sabe o que é ter sede até o instante em que a água falta. A tarde caiu como uma adaga abrindo velhas chagas. Fechei os olhos e ouvi as longas unhas do vento arranharem as vidraças das fábricas. Ruas de nuvens e linhas se estendiam sobre o horizonte, agora todo espetado por milhares de agulhas de fumaça. Queria água. As lembranças gritavam até perder a voz, talvez porque tenham surgido do alento e ali permaneceram. Ou talvez porque o entrecruzar daquelas vozes queriam abafar a dor dos instantes não vividos. De que vale se calar quando o silêncio é vencido pela força do olhar? Com o tempo, decidi parar de fugir daquele silêncio desprezível e comecei a enfrentar o olhar inquisitivo daquelas pessoas vazias, na esperança de encontrar meus passos nos pés de outras almas tão perdidas quanto a minha. Quando perguntavam o que eu fazia, dizia que era advogada. O ego vencia-me. Achavam que eu mentia, pois não compreendiam como alguém que se sentia tão derrotada, pudesse ganhar uma única causa que fosse na vida. O estranho é que eu nunca perdia. Quando amanhecia, desaparecia como uma miragem em meio às avenidas até me fundir com a neblina. Como se aquela névoa, que me embaçasse a vista, pudesse me devolver o alento de todas as esperanças perdidas. Quando criança, fantasiava que era invisível. Escondia o regalo dos olhos para que não descobrissem neles o espanto que sentia com todas aquelas desgraças que via. Só não fugia porque nem para onde ir eu tinha. Hoje depois de grande, me sinto ainda menor do que antes. Não durmo nem como há dias. Só reviro os bolsos da calça à procura do meu relógio de pulso para amaldiçoar a hora em que ocorreu-me embriagar-me dessa água seca, que não importa a quantidade, não vai me impedir de arder por dentro. Queria água. Justo agora que ela me falta. Não tenho copo para colocá-la. Imagino a água. E imagino o copo parado diante da minha cara. No cristal, o reflexo do que eu nunca deveria ter sido. Nem dito. Enfrento o vazio cristalino que vem dela. Bebo-a, talvez com medo ou com desejo que ela transborde em mim e encha-me logo. Penso. Não há sujeira que não possa ser lavada. Tão bem quanto sei disso agora, sabia-o ontem quando decidi encher os copos até a gota que os transborda para mascarar na ironia uma amargura disfarçada. Essa água inquieta-me. Talvez porque esteja segura do que sabe. E pra lá dessa incerteza, sei que vou tomar-te. E quando eu encontrar o fundo deste copo, o recuo inesgotável da memória vai achar-me. Grito em voz alta - Queria água.  E ninguém vai ouvir, porque não há ninguém ao meu lado. Exceto por esse vulto escuro me repetindo às minhas costas, não me sobrou nada. Agora o vândalo está se afastando com água. Olhamo-nos. Estranhamo-nos. E por fim, estrangulamo-nos. Ele engasga como se quisesse devolver-me ou vomitar-me. A água? Não. A raiva.




Pipa.

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