Marc Chagall
As mãos dizem tanto
ou mais que os olhos. Conto para essas
folhas o que não sou capaz de dizer às pessoas. É possível que eu exagere ou,
como de costume, invente. Eu mesma não posso precisar se estou sendo fiel a
essas reminiscências. Cresci em um submundo pitoresco, rodeado de cortiços por
onde deambulavam dândis bisonhos, vendedores de linguiça, contrabandistas de
pássaros, apostadores de rinhas, descendentes deformados de deuses, falsos
profetas, velhas loucas e virgens de imaginação delirante. Recordo que
partilhávamos o muro de placas com um prostíbulo e pela natureza dos gritos e
gemidos que de lá vinham, cheguei a supor, por extrapolação da ingenuidade, que
seus habitantes fossem submetidos a toda sorte de sacrifícios e talvez isso
explicasse os surtos psicóticos havidos nos altares daqueles cultos demoníacos.
As missas negras reuniam incontáveis rostos anônimos que capengavam ao som dos
tambores e apitos como zumbis de cemitérios extintos, apagando um cigarro após
o outro nos cinzeiros de ferro, embriagados pelo clarão das grandes luas, vez
ou outra esbarrando-se nas cadeiras ao redor das mesas, fazendo com que as
garrafas e taças periclitassem nas bandejas reluzentes de prata sob uma chuva
inusitada de ases, reis, damas, valetes, espadas, paus, ouros e copas
escondidas nas mangas dos ladrões de carta. Nas datas festivas qualquer
travessa de doces era motivo para familiarizar-se com os vizinhos nas calçadas
apinhadas de cadeiras de balanço, rádios de pilha, bicicletas velhas, e
transformá-los em avós, mães, pais, irmãos, tios, sobrinhos, primos e melhores
amigas cirandando pelo quartos estreitos, repletos de santos que nos sorriam
dos quadros, enfeitiçados pelos pares de sapatos, vestidos de fita e sutiãs de
algodão que havíamos ganhado, pintando as unhas umas das outras com esmalte
vermelho, borrifando fragrâncias nas colchas de retalhos, quebrando a ponta dos
batons nos lábios das bonecas sem braços, juntando páginas soltas dos romances
lidos que deixávamos espalhadas pelos cantos, deitadas sobre o tapete da nossa
desordem crescente, tentando desembaraçar os cabelos espigados pelos métodos
caseiros de efeito permanente que nos deixavam exóticas como as rapunzéis afro,
gargalhando a anarquia própria dos nossos corações adolescentes. Onde mais
poderia estar o segredo de nossa magia senão naqueles bobes de latinha? O ar
daquela época cheirava a patchouli, poeira, fumaça, manteiga, limão, carne
assada, pepsi-cola. Blues e jazzes antigos voavam pelas antenas dos telhados
assanhando móveis, cães, gatos, lagartixas sem rabo, dando-nos a sensação de
que havia alto-falantes da vitrola clipper em cada cômodo da casa. Não faltavam
super-heróis duelando com floretes pela gente. Ventres redondos de
possibilidades. Estávamos quase sempre contentes. Descendo a ladeira sob a
proteção sagrada dos patuás, das ágatas-de-fogo, dos cristais de quartzo, dos
trevos-de-quatro-folhas, dos galhos de arruda, dos búzios e das runas, a vida
passava requebrando suas ancas cheias de graça pelas nossas ruas de pedras. Por
muitos anos esses chocalhos permaneceram calados. Conheço a matéria-prima de
que os homens são feitos e a fidelidade é um dos ingredientes que os deuses
esqueceram de colocar no meio. Acabei aceitando um convite que outras fêmeas da
minha espécie talvez recusassem, mas por razões que prefiro não esclarecer
agora, a mim chocava. Detive-me na marca da aliança recém tirada acusando
aquelas mãos de perverter meus pensamentos, conjecturando fazer dele o Adão de
minha terra arrasada, a todo instante perguntando-me quando elas me arrastariam
para aquele diminuto éden, trancariam a porta, arrancariam minhas roupas,
rasgariam minhas dúvidas e depois de enfiar meia dúzia de palavras sujas nos
meus ouvidos, matariam com volúpia meus demônios de desejos deitando sobre o
meu corpo toda a sua fúria de macho insatisfeito. Não sou uma dama de más
condutas, mas olhando para as curvas daquelas mãos tão distantes quanto Marte,
tive ímpetos de me comportar como uma. Estou
pensando em cobras... Ficam-me esses guizos em voo cego e eu nem sei para qual
apontar o dedo. Só sinto as picadas difusas.
lídia martins

5 comentários:
Li, reli e confesso que tive alguma dificuldade em comentar este texto. Juntei as palavras de vários silêncios num copo, agitei como se agitasse toda a sorte de uma vida, e o que me saiu foi isto: e mesmo que não o tivesses dito, eu teria acreditado.
Texto que nos leva a percorrer um passado distante, a infância, um tempo em que estar contente era um lugar encantado. No fundo, a autora, remete-nos a um presente onde a redescoberta desse lugar é uma forma lindíssima de dizer.
reminiscências em estado de choque... sentidos e sensações à flor da pele, da tua pele...e o que mais atordoa é que mergulhamos nesse mesmo espaço junto contigo.
algo de Toulouse Lautrec e Lima Barreto com a força da tua emoção...
Reminiscências podem não ser eternas. Ou talvez não sejam para este seu leitor, cara Lídia. Esqueci quase tudo de tempos verdes. Se as tivesse ainda, gostaria que possuíssem sabor, aroma e sons como os que você magicamente relata. Claro que a sua arte faz tudo isso parecer especial, como machado, vitor hugo. Pode ser, ao contrário, que nós humanos sejamos especiais e tenhamos vidas incomuns todos nós, mas apenas pessoas com sua sensibilidade e talento consigam enxergar. Já o mundo adulto temo-lo todos muito presente e sabemos de suas proximidades e distâncias, de suas verdades e inverdades, de suas dores e do resto. Vivemos sempre uma vida emprestada de ninguém, porque ninguém haveria de a querer. Avatares do nada, enganamo-nos sempre porque tudo é engano e infidelidade. Deuses nos enganaram. Abandonaram a obra. Mas não foram a Marte, porque se lá vemos mãos e mares, não se veem coisas que lembrem criadores de vida. Pensei certa vez que os oceanos eram coletores de lágrimas. Talvez o choro tenha chegado ao planeta vermelho. De lá pode ser que alguém escreva sobre a traição do destino que nos traz pessoas, ou arremedos delas, em momentos absolutamente equivocados.
Texto fantástico, como de costume!
Um dos melhores que já li aqui. Merecia ser guardado pra continuar. Parece uma bela abertura de algo maior.
Uma das grandes vantagens das reminiscências, é que ao vivê-las, elas deixam de ser passado e são conjugadas no presente. E você faz tão bem, como se fosse uma câmera, que nos coloca no lugar de vivenciadores daqueles momentos.
O texto todo muito bom, muito leve.
É gostoso ver que ao mesmo tempo que consegue escrever com cores fortes e pesadas, também o faz de forma tão leve tal qual aquarelas.
Gostei especialmente desta imagem - "a vida passava requebrando suas ancas cheias de graça pelas nossas ruas de pedras".
Enfim, gostei de tudo.
Não podemos chamá-la de obra-prima, pois desmereceríamos todas as outras, mas é um primor.
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