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10.03.2015

LES AMANTS


LES AMANTS AU CLAIR DE LUNE – MARC CHAGALL
Ashram: Instrumental: II Mostro by Luigi Rubino


As mãos dizem tanto ou mais que os olhos.  Conto para essas folhas o que não sou capaz de dizer às pessoas. É possível que eu exagere ou, como de costume, invente.
Eu mesma não posso precisar se estou sendo fiel a essas reminiscências. Cresci em um submundo pitoresco, rodeado de cortiços por onde deambulavam dândis bisonhos, vendedores de linguiça, contrabandistas de pássaros, apostadores de rinhas, descendentes deformados de deuses, falsos profetas, velhas loucas e virgens de imaginação delirante. Recordo que partilhávamos o muro de placas com um prostíbulo e pela natureza dos gritos e gemidos que de lá vinham, cheguei a supor, por extrapolação da ingenuidade, que seus habitantes fossem submetidos a toda sorte de sacrifícios e talvez isso explicasse os surtos psicóticos havidos nos altares daqueles cultos demoníacos. As missas negras reuniam incontáveis rostos anônimos que capengavam ao som dos tambores e apitos como zumbis de cemitérios extintos, apagando um cigarro após o outro nos cinzeiros de ferro, embriagados pelo clarão das grandes luas, vez ou outra esbarrando-se nas cadeiras ao redor das mesas, fazendo com que as garrafas e taças periclitassem nas bandejas reluzentes de prata sob uma chuva inusitada de ases, reis, damas, valetes, espadas, paus, ouros e copas escondidas nas mangas dos ladrões de carta.
Nas datas festivas qualquer travessa de doces era motivo para familiarizar-se com os vizinhos nas calçadas apinhadas de cadeiras de balanço, rádios de pilha, bicicletas velhas, e transformá-los em avós, mães, pais, irmãos, tios, sobrinhos, primos e melhores amigas cirandando pelo quartos estreitos, repletos de santos que nos sorriam dos quadros, enfeitiçados pelos pares de sapatos, vestidos de fita e sutiãs de algodão que havíamos ganhado, pintando as unhas umas das outras com esmalte vermelho, borrifando fragrâncias nas colchas de retalhos, quebrando a ponta dos batons nos lábios das bonecas sem braços, juntando páginas soltas dos romances lidos que deixávamos espalhadas pelos cantos, deitadas sobre o tapete da nossa desordem crescente, tentando desembaraçar os cabelos espigados pelos métodos caseiros de efeito permanente que nos deixavam exóticas como as rapunzéis afro, gargalhando a anarquia própria dos nossos corações adolescentes. Onde mais poderia estar o segredo de nossa magia senão naqueles bobes de latinha?
O ar daquela época cheirava a patchouli, poeira, fumaça, manteiga, limão, carne assada, pepsi-cola. Blues e jazzes antigos voavam pelas antenas dos telhados assanhando móveis, cães, gatos, lagartixas sem rabo, dando-nos a sensação de que havia alto-falantes da vitrola clipper em cada cômodo da casa. Não faltavam super-heróis duelando com floretes pela gente. Ventres redondos de possibilidades. Estávamos quase sempre contentes. Descendo a ladeira sob a proteção sagrada dos patuás, das ágatas-de-fogo, dos cristais de quartzo, dos trevos-de-quatro-folhas, dos galhos de arruda, dos búzios e das runas, a vida passava requebrando suas ancas cheias de graça pelas nossas ruas de pedras.
Por muitos anos esses chocalhos permaneceram calados. Conheço a matéria-prima de que os homens são feitos e a fidelidade é um dos ingredientes que os deuses esqueceram de colocar no meio. Acabei aceitando um convite que outras fêmeas da minha espécie talvez recusassem, mas por razões que prefiro não esclarecer agora, a mim chocava. Detive-me na marca da aliança recém tirada acusando aquelas mãos de perverter meus pensamentos, conjecturando fazer dele o Adão de minha terra arrasada, a todo instante perguntando-me quando elas me arrastariam para aquele diminuto éden, trancariam a porta, arrancariam minhas roupas, rasgariam minhas dúvidas e depois de enfiar meia dúzia de palavras sujas nos meus ouvidos, matariam com volúpia meus demônios de desejos deitando sobre o meu corpo toda a sua fúria de macho insatisfeito. Não sou uma dama de más condutas, mas olhando para as curvas daquelas mãos tão distantes quanto Marte, tive ímpetos de me comportar como uma. 
Estou pensando em cobras. Ficam-me esses guizos em voo cego e eu nem sei para qual apontar o dedo. Só sinto as picadas difusas.
                      Lídia Martins

5 comentários:

Carlos Roberto disse...

Li, reli e confesso que tive alguma dificuldade em comentar este texto. Juntei as palavras de vários silêncios num copo, agitei como se agitasse toda a sorte de uma vida, e o que me saiu foi isto: e mesmo que não o tivesses dito, eu teria acreditado.
Texto que nos leva a percorrer um passado distante, a infância, um tempo em que estar contente era um lugar encantado. No fundo, a autora, remete-nos a um presente onde a redescoberta desse lugar é uma forma lindíssima de dizer.

Rogério Saboia disse...

reminiscências em estado de choque... sentidos e sensações à flor da pele, da tua pele...e o que mais atordoa é que mergulhamos nesse mesmo espaço junto contigo.
algo de Toulouse Lautrec e Lima Barreto com a força da tua emoção...

Alvaro Vianna disse...

Reminiscências podem não ser eternas. Ou talvez não sejam para este seu leitor, cara Lídia. Esqueci quase tudo de tempos verdes. Se as tivesse ainda, gostaria que possuíssem sabor, aroma e sons como os que você magicamente relata. Claro que a sua arte faz tudo isso parecer especial, como machado, vitor hugo. Pode ser, ao contrário, que nós humanos sejamos especiais e tenhamos vidas incomuns todos nós, mas apenas pessoas com sua sensibilidade e talento consigam enxergar. Já o mundo adulto temo-lo todos muito presente e sabemos de suas proximidades e distâncias, de suas verdades e inverdades, de suas dores e do resto. Vivemos sempre uma vida emprestada de ninguém, porque ninguém haveria de a querer. Avatares do nada, enganamo-nos sempre porque tudo é engano e infidelidade. Deuses nos enganaram. Abandonaram a obra. Mas não foram a Marte, porque se lá vemos mãos e mares, não se veem coisas que lembrem criadores de vida. Pensei certa vez que os oceanos eram coletores de lágrimas. Talvez o choro tenha chegado ao planeta vermelho. De lá pode ser que alguém escreva sobre a traição do destino que nos traz pessoas, ou arremedos delas, em momentos absolutamente equivocados.


Texto fantástico, como de costume!

fjunior disse...

Um dos melhores que já li aqui. Merecia ser guardado pra continuar. Parece uma bela abertura de algo maior.

placco araujo disse...

Uma das grandes vantagens das reminiscências, é que ao vivê-las, elas deixam de ser passado e são conjugadas no presente. E você faz tão bem, como se fosse uma câmera, que nos coloca no lugar de vivenciadores daqueles momentos.
O texto todo muito bom, muito leve.
É gostoso ver que ao mesmo tempo que consegue escrever com cores fortes e pesadas, também o faz de forma tão leve tal qual aquarelas.
Gostei especialmente desta imagem - "a vida passava requebrando suas ancas cheias de graça pelas nossas ruas de pedras".
Enfim, gostei de tudo.

Não podemos chamá-la de obra-prima, pois desmereceríamos todas as outras, mas é um primor.