10.25.2015

FOLHAS SOLTAS



           Arte: Frida Kahlo: Roots:1943.
                       
                        
                         A arte é uma pose: admire. Sou a página solta que ainda insiste em encontrar  a obra que  não me levará a parte alguma. Ninguém vai me pedir para ficar. Os dezembros serão sempre os mesmos que conheço desde pequena. Pastorinha órfã espiando as vitrines cheias de presépios, noéis de gesso e anjos de espuma anunciando o Natal ao pé de uma árvore coroada de guirlandas de luzes, unidos em nome de uma felicidade que só existe entre eles,  e os olhos sempre pousados naquela estrela fixa de Belém que brilha em todos os céus, menos no meu. Talvez peça ao vigia da loja para admirar só mais um pouco. Pode ser que seu olhar me empurre, mas não me afaste. Às vezes, quando o carteiro deixa por engano, entre o emaranhado de contas, uma correspondência que é destinada a outra pessoa, seguro o envelope, acaricio os selos, aperto contra o peito e fantasio que sou uma carta extraviada. Uma carta que algum dia vai chegar a um endereço que pouco ou nada conheço, e alguém vai abrir com muito esmero e reconhecer a minha caligrafia. Poeta, esse besta que passa a vida fazendo sala para a solidão, a própria e a alheia, por amor genuíno ao exercício incondicional da entrega. Vida afora sempre caminhei ao meu lado. Quando caí, não fosse a cumplicidade da minha própria sombra, estaria ainda mais morta. Cedo ou tarde nossas escolhas voltam crescidas, cobrando a conta, como essa que tive de fazer agora. Eu que nunca fui agora me vou. Esperam-me as vielas estreitas. Esta tarde cairá a última folha do pessegueiro e quero estar por perto, com este olhar branco, este silêncio, e abraçada comigo mesma. Ganhei alguns romances usados de um cavalheiro que, ao contrário dos que conheci, ainda sorri. Ele me disse que tenho escrito muito, mas lido pouco. Quero envelhecer na melhor das companhias, os livros e a minha. Senhor do Tempo, eu não posso dizer quando foi que o mundo perdeu a cor, mas posso precisar o exato instante em que ele a recuperou. Caminhando sem rumo, beirando o canal, em meio aos olmos, me ensolarando. Sabe-se lá em que campos.


Lídia Martins

5 comentários:

placco araujo disse...

Gosto quando leio seus textos tais como um conto. Aliás, gosto de todos (não me lembro de não ter gostado de algum) e, se não gostei, não tem a menor importância.
E acho que caiu bem a cena de um conto de natal.
Não sei se estou meio tocado com a proximidade da data, pois pra mim gostaria que demorasse muito mais. Ainda faltam tantas coisas que eu queria que acontecesse.
Mas aí, já é uma outra estória.
Lindo texto!

Carlos Roberto disse...

O futuro corria-lhe ligeiro pelo corpo todo, por isso partiu, de encontro à paisagem, por entre nadas e incertezas deitadas a seus pés. Nos olhos, punhados de esperança e no peito eternidades, bastavam-se. O destino era já ali, e até os seixos sob os seus pés o sentiam.
Lídia, qualquer coisa me diz, chamo-lhe coisa porque não sei de onde vem, que um dia ainda irei ler um livro de sua autoria. E sei que darei por bem empregue o tempo e os lugares por onde nele andar. Belo texto!

Alvaro Vianna disse...

Olhar a vitrine ou não olhar a vitrine: eis a questão, se o coração não sente o que os olhos não veem. A resposta não é certa, mas o isolar-se entre os livros será sempre uma opção.

fjunior disse...

nem sempre a arte é uma pose. Por vezes, nem causa admiração. Acho que a arte é provocação, sedução, confronto, deve causar alguma mudança. A arte não pode voltar vazia. A arte que apenas pousa, volta vazia e, por fim, nem é arte. É lixo, mercadoria, dinheiro, vaidade. Mas concordo que o artista faz sala para solidão. Antes, a solidão é sua companheira e companheira até bem vinda, mas a arte também precisa de outras companhias como a arte, o outro, o amor, o calor alheio e por aí vai. A solidão para ser boa companhia da arte requer antes beijos quentes, promessas de amor eterno... ainda que um dia quedem em nada, mas a vida é isso. É juntar pedras e espalhar pedras.

Rockson Pessoa disse...

Eu senti a tristeza da queda da folha do pessegueiro... Mas é livre e leve! Um beijo leve na sua face minha amiga "eterna infante". Beijo no coração da Pipa.