11.04.2015

DUAS LUAS E UMA FUGA


Claude Monet: Soleil Levant, 1872.

"Ali, era sempre Novembro."


               Era como se revirassem a minha gaveta de peças íntimas, acendessem a luz e iluminassem a minha nudez tão antiga. Aproximei-me da janela vez ou outra olhando para os carros em miniatura que circulavam pelas ruas como um redemoinho de folhas secas e fiquei relendo aquela carta sem palavras. Naquele momento, desejei não ter pernas nem braços, apenas um par de asas para estilhaçar aquelas vidraças e voar sem pausas entre os andares daquele prédio. Os teus olhos de fogo estão me queimando. Cercam-me por todos os lados. E eu não fujo. À distância do que já não somos, um mar ancestral transborda do asfalto quente, transpassando todas as verdades, todos os amores, todas as saudades, inaugurando um equinócio de possibilidades onde os dias já não se distinguem das noites. Coloco as mãos nos bolsos procurando por uma chave que não encontro. Saio às ruas, dobro a esquina, misturo-me ao nevoeiro das coisas que já não vejo. Criatura de sopro diluída em ar. Alguém para tentando reconhecer o meu rosto. Disfarço. Torno a me esconder atrás das montanhas e vejo que atrás dos primeiros montes há tantos outros. Olho uma vez mais para a paisagem descobrindo nela uma Waterloo que não estava ali antes, e na litografia das paredes era a primeira vez que eu via aquela ponte. Conserto um cigarro quebrado e sorrio para o isqueiro riscado de cabeça para baixo. E ali, logo à frente, atrás das nuvens portáteis de fumaça, a silhueta de duas luas se ergue sob o céu aceso dos meus pensamentos. Segui as pegadas dos pássaros que serpenteavam pela arrebentação, recolhendo uma ou outra concha deixada pelas ondas. Dessa vez, a minha praia de areias incertas não estava deserta. Os ramos dos pinheiros se agitavam nos troncos fazendo rodopiar um par de pinhas derrubado pela brisa. Giram até caírem eternas aos pés uma da outra. Era o capitão do meu barco de papel retornando com os peixes voadores que me prometeu. Eclipsados, teus olhos se põem nos meus e me transformam outra vez no que sou: porção de lua virada para o sol.



Lídia Martins

5 comentários:

Carlos Roberto disse...

Texto maravilhoso, Lídia. Repleto de imagens que concedem ao leitor o direito de se deixar viajar pela perdição “alheia”. Um texto que não adia ou divide, mas que despe. E como despe. Um sentimento reencontrado. De certo modo, é o ordenar desequivocado do amor através do vocabulário.

fjunior disse...

O amor enche o coração de esperança e fulgor mesmo quando vem lento num barquinho de papel, num dia de sol logo após a tempestade.

placco araujo disse...

Coisa linda este texto!

Alvaro Vianna disse...

Duas luas remetem a Marte. É um texto repleto de cifras. Permita-me interpretá-lo, com o risco de incorrer em severos erros. Phobos, medo, donde fobia, é um dos satélites do planeta vermelho. O outro é Deimos, pânico. Quem tem medo, quase sempre foge. Medo de quê? Será do amor? De fato, é a coisa mais assustadora dos universos. Por outro viés, aparecem cá também as pinhas, símbolos de eternidade. Vencido o medo restará uma vivência amorosa que desconhece fim. Acredito ser essa a proposta intrínseca. Perdoe, Lídia, se excedo em imaginação, mas um texto assim não merece leituras superficiais. A Marte sem medo.

Wendel Valadares disse...

Perfeito. Sem muitas delongas, rs.


Adoro te ler, Pipa.

Beijos.