9.21.2015

AUTORRETRATO



Ilustracionista: Agócs Írisz



Tenho me sujado e me limpado muitas vezes. Alguns passam a vida cagados, outros cagando. As pessoas se divertem com a merda que cai na cabeça dos outros. Esta sou eu, cagada por um pombo.
Buscamos coerência quando somos incoerentes por natureza. Somos tão capazes de síntese que nos equivocamos, consumimos nossas energias com suposições inúteis que ao invés de esclarecer apenas confundem. Frequentemente me questiono se as pessoas intuem que por trás de cada olhar, alegre ou tristonho, haja um cãozinho enfermo, o fim de um casamento, um câncer ameaçando arrebatar a vida de alguém que amamos, um irmão perdido em toda sorte de vícios, pais que não conseguem se entender com os filhos, uma demissão inesperada, um tio esquizofrênico explicando o ataque zumbi, amigos zombeteiros te chamando de Sartre da Favela, Eddie Vedder de Calcinhas, Beauvoir de Cemitério. Falta, falta e falta, quantas páginas poderíamos encher com essa palavra? Falta de abraços, de dinheiro, de sossego, coisas que fazem a vida ficar tão heavy metal. Ocorre-me às vezes, o pior “não” é o que não se ouve, faz com que a gente deduza um “sim” onde ele não existe. Piedade para os que acreditam que o silêncio tem a função de substituir o entendimento. 
Ao longo do caminho vamos nos esvaziando de tantas pessoas e nos enchendo de tantas outras, feito riachos que, ao sabor das estações, ora secam ora transbordam. Talvez devêssemos regressar àqueles que abandonamos, isso se não tivéssemos perdido o mapa que nos diz como. Pergunto-me se ainda nos reconheceríamos em meio ao tumulto. Na tentativa de descobrir o que ser quando crescer, alguns de nós ficaram muito adultos. 
Às vezes acho que não passamos de cachorros curvados ao abismo caleidoscópico dos fornos de frango giratório. Haja ração para as fomes que nos assaltam. Outro dia fiz uma ousada experiência. Tentei falar de amor para um cara vestido com a camiseta do Palmeiras. Falei qualquer coisa sobre um pássaro que voava parado e ele devolveu: "Importa-se de falar um idioma que eu entenda?" Eu ri, possivelmente de mim mesma. Coloquei os meus fones de ouvido no volume mínimo, e caminhei pelas ruas da cidade dando o menor número de passos que as pernas conseguiam. Uma canção  tentou, em vão, recordar a menina que fui um dia. Preciso parar de ouvir Smiths. Enquanto fico aqui me acabando nesse mp3, o Morrissey tá lá escutando David Bowie fase "Ziggy". Os tombos são parte dos pulos que damos. Ali entendi o quanto nossa linguagem tem o poder de nos afastar ou aproximar dos outros.
Somos seres tão mais complexos do que todas essas merdas que falamos e fazemos. Somos esse desacerto de tempos, somos o encontro atemporal e o desencontro mortal que nos proporcionamos, somos o acervo das pessoas que amamos e também das que tivemos que deixar de amar para que continuássemos respirando, mas somos, apesar de tudo, todos os instantes que ainda não conhecemos e que nos esperam de braços inacreditavelmente abertos.


Lídia Martins

3 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Uma visão escatológica do mundo e suas filosofices. Resta buscarmos a limpeza de tempos em que éramos tão somente e tão sonhadoramente crianças.

Beijos, Lídia Martins!

Carlos Roberto disse...

Texto cuidado e amadurecido, como deve ser. O olhar ao redor e sobre si mesmo de quem escreve. A visão intima de quem lê, de quem, acima de tudo, se vê. Somos de fato, tão complexos que a única linguagem que nos define é a do amor, ou da falta dele.

placco araujo disse...

Apesar da reflexão salpicada de menções escatológicas (já dito pelo Alvaro Vianna), o seu texto é de extrema leveza, mesmo tratando de assunto tão denso.

Não podemos dizer este é seu melhor texto pois sempre você nos surpreende, mas este texto é como um filme iraniano, cheio de revivências e reflexões.

Parabéns, mais uma vez.