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9.09.2015

PARA MAURÍCIO,




que está nestas palavras que escrevo agora e estará também amanhã
quando formos apenas uma memória.



Querido M.,


                           Vendei os teus olhos por intuir que, nem que seja por curiosidade, você possa tatear-me. Outro dia fui fazer um exame de sangue e o enfermeiro, notando que eu havia fechado os olhos, deixou cair a seguinte afirmação: “É só não olhar que não dói.” Perguntei: isso vale também para pessoas? Rimos os dois. É como estar diante de um inábil atirador de facas. São cortantes os tempos e visíveis as marcas. Passos não dados esmagam o assoalho. Estou em todos os espaços que não ocupo. Deve ter havido uma ocasião em que o Oráculo arregalou os olhos na esperança de colher algum espanto, e revelou sem constrangimento a resposta para aquela pergunta que nunca nos fizemos.  Versos. Foi o que fiz em todo esse tempo. Escrevi até quando ninguém mais estava lendo. Há tantas canções que gostaria que tivesse escutado e temo que nunca cheguem aos seus ouvidos, tantos poemas que gostaria de ter lhe mostrado e temo que nunca cheguem aos seus olhos. Você não faz ideia do que o tempo é capaz de fazer com os nossos sentimentos, Maurício.  O país em que um dia acreditamos só existe em nossos sonhos. Explorei minas intermináveis de versos, não encontrei nenhum tesouro. Recebi convites de algumas editoras, cheguei a pensar na possibilidade de publicar, mas quando entendi como a engrenagem funcionava, preferi passar o resto da vida espantando moscas. Imbecilizaram a arte. Não sei onde li que a maioria dos poetas escreve a poesia que gostaria de viver, muito embora não se possa afirmar que vivam a poesia que gostariam de escrever. Isto não é, por assim dizer, uma forma de morrer? Escrevo sob a proteção de um deus que me esqueceu. Não possuo a elasticidade de alma das webcelebridades religiosas. Olhe bem para mim, não tenho mais idade para me juntar aos padres saradões e fazer aeróbica do Senhor nos cultos para dez mil fiéis. O palco que deveria edificar olhares e fazer deles um bem comum, não é senão uma arena de escribas se digladiando, marqueteiros relâmpagos e humanistas de última hora que entretém as massas repartindo a hóstia da insatisfação a cada um de nós endereçada. Articulados que são, por pouco não me arrastam para os seus torneios horrendos de egos. E não pense você que me refiro somente ao que leio, mas também ao que escrevo considerando que ao dar voz a estes pensamentos, me igualo aos lírios brancos que, depois de reverenciar todos os budas da literatura, brilham esquecidos em meio a estes pântanos. Quando me perguntam se publiquei algum livro, respondo, a arte que abracei desde o princípio dá forma à minha expressão, não ao meu ofício. E a boa ou má notícia é que isto não me isenta de absolutamente nada, ao contrário, me faz sentir ainda mais culpada.  Os escritores contemporâneos, no meu caso aspirante a escrevinhadora de fim de semana e feriados prolongados, jogamos a arte para  um nível tão baixo,  que dentro em breve vão considerar crime ambiental desperdiçar papel e tinta com os nossos parágrafos. Estamos desgraçados. Há uma particularidade que gostaria de lhe confidenciar, Maurício,  embora possamos contar nos dedos, há um seleto público que parece estar nos compreendendo e desconfio, ser irrecusavelmente íntimo de pessoas que dedicam seu tempo a olhar para os nossos rostos anônimos não é privilégio apenas de famosos. E sabê-los ali, contemplando os nossos abismos e nos mostrando os deles, ainda que invisivelmente, nos torna duplamente importantes, e esta não é senão a recompensa que desejo. Tudo que sei é que temos de continuar escrevendo, seja para eles ou para nós mesmos.  Pergunto-me a quantas outras formas de tortura seremos submetidos para que possamos continuar a prender os suspensórios da palavra nas calças, as nossas e alheias, se caírem ficaremos todos com as nádegas à mostra. Valha-nos Senhor Jesus Cristo! Prefiro não chegar a conclusão alguma. Nem agora, nem nunca. Não  é o que sinto,  mas o que não sinto que me faz pensar isto. Então comecei a apostar em corridas de cavalos, fazer jus à minha existência de jóquei, montar o impensável. Não faz muito tempo, talvez alguns meses, passei a tarde na companhia das árvores. Tirei os sapatos e coloquei os pés na grama e pela primeira vez em  muito tempo entendi que vivo em um plano subterrâneo, como as raízes daquelas árvores frondosas que balançavam à minha volta, tão dentro. Doem-me ainda os movimentos de me inscrever em uma paisagem diferente da que eu havia imaginado. Estou lhe contando isso porque posso mentir para todos, mas para você não, Maurício.  Você não tem aparecido mais em meus sonhos. Da última vez as suas meias não combinavam com a cor dos sapatos. Se um dia nos encontrarmos por aí permitirei que me pague um expresso. Eu terei muito prazer em aborrecê-lo. Soube que tem andado pelas ruas da cidade na companhia de uma dama de desejos inconfessáveis. Achei que tivesse sublimado a fase de pendurar a cabeça das caças na sala de jogos.  Espanta-me que ainda haja lugar para acomodar mais troféus nas paredes dessa sua mente doente. Também nenhum sentido haveria jogar fora seus tantos fantasmas empalhados de lembranças, afinal de contas, toda caça viva ou morta é uma história. O problema dessa sua obsessão por esse  exercício de taxidermia é que você nunca sabe quando ele termina. Já não tenho esperanças de que abandone esses rifles.  Tenho pena dessas coelhinhas que sua inteligência hipnotiza. Já lhe ocorreu porque só colecionou cabeças, Maurício? Toda vez que deixou de lado aquelas armas, suas presas tornaram-se caças e você o animal sem voz tentando sobreviver ao seu próprio susto. Não terá balas pela vida toda, Maurício, cedo ou tarde o tempo se encarrega de nos incapacitar com o seu fel, e você não passará de um  maldito velho amargo, sentado em sua sala ampla, contemplando absorto  as presas suspensas e inertes de sua antiga poltrona, sempre olhando para a besta versátil que o espreita em meio às brumas da savana, sonhando o improvável abate, indeciso se deve ou não poupar  o último exemplar da espécie que lhe pisca os olhos com uma luz adolescente, e brincando de pique-esconde se confunde em meio à paisagem que ameaça esfumar-se entre os cata-ventos girando fora de controle. E quase invejo o vento que tocará seus cabelos grisalhos enquanto balança a cabeça em câmera lenta, mordendo os lábios como se fosse arrancá-los, com aquele  brilho infantil dos olhos que não  deixam escapar nenhum gesto, nenhum afeto, nenhum  movimento, maravilhado com o menino que, olhando adulto em volta, sorri para o homem que fez de si mesmo. Espero que até lá seu coração ainda seja capaz de algum verão. Eu não estou aqui para lhe apontar o meu dedo conspiratório,  malgrado já seja um homem velho, seus antecedentes são tão óbvios, você continua o  mesmo impostor nojento. Esta manhã me peguei pensando nas bobagens que conversávamos pelados, depois do sexo. Você sempre dizia que a gente só perde a saudade do cheiro, do toque e do sabor do outro, quando se envolve com outros gostos até as lembranças se diluírem, virarem sol ou, em nosso caso, sons.  Abarrotei uma caixa  de alfajores. De olhos fechados levei-os aos lábios e deixei que derretessem um após o outro. Tenho desejos que nem eu mesma suspeito de tão secretos. Sempre que te imaginei lendo o que escrevia para você, recomecei.



Lídia Martins

6 comentários:

Marga Cendón disse...

Você encontrou um jeito de dar a volta no texto, dizer tudo e reparar aquilo que alguns poderiam considerar um equívoco. Deu saída para que o leitor possa se incluir nesta ou naquela situação. Um de seus melhores textos, Lídia. Um abraço.

Carlos Roberto disse...

Atrevo-me a pegar nas palavras do enfermeiro, ou nas suas, ou nas que tomo por minhas não sendo minhas, e quase acredito, como se acreditar me pudesse salvar... “É só não olhar que não dói.”, mas dói. Nada, nem ninguém nos salva. Um texto que se contorce e dobra para dentro, que vai fundo e me leva por arrasto. Um grito que agita as sedas do abismo. Depois, como se já não bastasse, e num suspiro a morder a face oculta do lábio que está mais à mão, e quase sem respirar, um novo mergulho. O romance improvável que leio ao contrário. E já te lia quando as palavras ainda não tinham rosto. Ler-te era querer ser amado assim. Belíssimo, Lídia.

rogerio saboia disse...

Pobre Mauricio...... confrontado consigo mesmo,virou um paradigma da sociedade de consumo: sucessos efêmeros, copos vazios,sexo padronizado e vitórias de Pirro..
Confrontado com a qualidade, se atribui na quantidade
Corpo para um lado, alma para o outro.

Rockson Pessoa disse...

Sabe Lídia dia desses eu li que a estrela mais próxima do nosso planeta está a 8,6 anos luz de distância... Em outras palavras, sua luz navegou todos esses anos para ser vista como a estrela mais luminosa do céu. Seu nome é Sirius e até que morra, assim mesmo demorará o mesmo tempo para de fato sabermos. Como vida e morte podem se cruzar em um mesmo olhar? Como é que mesmo desconhecidos, astros podem repercutir naquilo que somos? Talvez a questão não seja olhar ou não para aquilo que nos faz sofrer - é quão preparado estamos para perceber em que ponto da história aquilo que reluz vive ou morto está em nós. É tudo uma questão de perspectiva... Do mesmo modo: o que lemos enquanto leitores? Lemos a luz que você e demais escritores nos permitem enxergar... O tempo é análogo aos sentimentos que permitem o caledoscópio destas palavras. Se entre abismos e vicissitudes - nada sabemos! Nos coube enxergar e testemunhar o fugaz.
Um dia te pedi algo sobre escolhas... Somos livres de fato Lídia? Será que somos mesmo livres para nos comportarmos? Eu tento entender M sabe?! Tento entender a mim mesmo neste teu texto. A vida nos ensinou a compreender que somos a soma de escolhas e o peso destas consequências. O M e até mesmo você permaneceram a emitir ondas de luz. Independente de onde vocês se encontrem no espaço - afinal corpos celestes se movimentam, irão teimosamente irradiar e impactar outras vidas. Irão aquecer outras histórias e desvelar tantos outros sofrimentos. Minha amiga Lídia, se assim posso denominá-la, eu penso que a resposta para tudo resida naquilo que nos leva a escrever... Quais os intentos? Quais as paixões que nos movimentam para testemunharmos sobre nós mesmos? Você é a própria árvore frondosa - só se esqueceu em raiz! Você é a copa frondosa e nada mais importa... Quanto ao que escolher colecionar bem disseste: não se pode julgar, pois uns colecionam troféus e outros a menor razão de ser. Beijo na tua alma Pipa - sempre Pipa! = )

fjunior disse...

Às vezes, acontece de alguém resolver ir embora e o que nos deixa é uma dor irremediável. Sinceramente, não sei o que é mais fácil: deixar ou ser deixado. Penso que a dor de ser deixado, o que nos torna vítimas, é mais nobre. Quem vai é sempre o vilão – mesmo que não seja de tudo verdade. Assim construímos essa dualidade, o bem contra o mal. Culpamos o outro, e, é tão bom ter outro para culpar. Mas no fim é o desprezo de quem fica ainda indica um amor forte. Tal qual aquela música do Chico: “tantos homens me amaram, bem mais e melhor do que você”. Não tá dito na letra, mas subentende-se que o eu lírico - ainda que queira magoar e odiar o carinha que se foi - morre de amores por ele. A raiva e o ódio não são antídotos do amor, antônimos, mas sim sinônimos. Uma variação sobre o mesmo tema. No fim, talvez pior do que a dor de deixar ou ser deixado é a dor de deixar partir. Amar também é deixar ir. Algumas pessoas são como os pássaros. São belos e cantam quando são totalmente livres.

Alvaro Vianna disse...

A cada texto aqui uma surpresa. Onde você irá parar, moça? Nem o Olimpo parece limite. Suas imagens são sempre incríveis, mas esse texto traz elementos psicológicos e existenciais para mim inéditos em sua obra. Nítido traço de seu amadurecimento artístico.

Grande abraço, Lídia Martins