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7.09.2014

World Cup — O Mosaico do Fracasso



Repasso seguidamente estas cenas em minha cabeça. E não fico me perguntando onde foi que erramos, ao contrário, a pergunta é... Onde foi que acertamos?  Mas bonito mesmo foi ver a vó Maria... Uma velhinha de olhos azuis e sorriso maroto comemorando seus noventa 90 anos com uma bandana do Brasil na cabeça e gritando com a sua voz rouca “O Brasil vai pras quinta!” Quinta vó Maria? “Aff... A finale fia.” E foi mesmo. Só que para as quintas do inferno. E o pai então? “Grita não, fala baixo minha fia, senão o pai num entende causa de que aquele juiz não marcou esse pênalti.” Mas não foi pênalti não pai Gerson, o árbitro mandou seguir porque não houve qualquer irregularidade no lance. “Sem tirar os olhos da tv ele devolve: “Vai lá na cozinha e me traga um copo d’água que de bola cê num entende é nada.” Pai, natural ou gelada? “O que minha fia?” Uai pai, a água. Ou o vendedor autônomo que chegou apressado para entregar o pacote de cigarros paraguaios e berrou do portão: Oh Dina! “Êêê cumpade André, mai isso lá é hora de chegar? Vamo entrá...” André responde: “Fizeram outro gol... Eu até saí da frente da televisão. Vamo perder feio hoje gente! Esses 4x0 aí o Brasil não reverte.” Ela defende com fé: “Cala a boca André! Vamo esperar pra ver.” Veio o quinto, o sexto, o sétimo gol e com eles, a perplexidade do primeiro ao último instante. Final de Jogo. Placar: Alemanha 07 X Brasil 01. Fica para a próxima, hexa. Até o espanto que é mudo deixou escapar um grito de susto. Impulsionada pela força do nosso anestesiamento a seleção alemã triunfou onde fracassamos, reconheço. De resto, já nem faziam questão de comemorar seus sucessivos gols. Aos alemães, pois, meus cumprimentos. Mas triste mesmo foi pousar o olhar sobre as estrelas zangadas. Não faltaram discursos inflamados, vingativos, pessimistas, sobretudo daquelas a quem, por ter profunda admiração acreditei serem pessoas inteligentes,  amadurecidas e porque não dizer, conscientes de que se tratava apenas de um jogo e resulta que, para que uma parte pudesse sorrir, a outra teria que chorar. Enquanto lia os enxovalhos ofertados a nossa Seleção pensava na palavra Constelação. E olha que se há uma coisa da qual somos abastados  é de céu. Memória fraca não é uma de minhas características. Li tantas porcarias que quase tive um surto de dislexia. A tristeza que contaminou e rapidamente se espalhou nos rostos, especialmente das crianças, o olhar atônito das câmeras do mundo inteiro, a alma partida dos jogadores diante daquele torneiro de horrores, tendo como prêmio de consolação as repetidas vaias dos torcedores, protestos que não diziam respeito apenas a quebra do espelho, mas sobretudo ao trincamento do reflexo, pensei com os meus botões: as feridas de nosso ego arderão por um bom tempo. É sempre assim, quando as coisas vão mal ao invés de estender todos retraem as mãos. E nem vou me excitar com o mérito das questões políticas, embora saiba que tudo gira em torno de suas virilhas. Alegrei-me quando venceram e me entristeci quando perderam. Nem só de ganhos, mas também de perdas que um país escreve a sua história. A seleção não deve desculpas ao povo brasileiro. Chegamos na fase semifinal quando a crença geral era a de que não passaríamos nem das oitavas. E foi tão real a expectativa da vitória que a derrota pareceu inventada.  De tudo, ficou um gesto. Ao ver as mãos em punho de David Luiz se fechando impetuosamente contra o peito, implorando por um perdão que não foi aceito, baixei a cabeça, fechei os olhos e fiquei em silêncio. Em prece por um mundo onde os acertos se sobreponham aos erros. Gratidão Senhor Deus, aos nossos pés sempre descalços. Quem é capaz de grandes quedas, é também capaz de grandes saltos. Em nome dO Futebol. Dos  Jogadores. Dos Torcedores. Amém.

Lídia Martins


3 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Das melhores crônicas que li nestes dias, especialmente de ontem para hoje. O normal é colocar-se a paixão acima da razão, quando não a falta de conhecimento esportivo ou a falta de honestidade intelectual e má intenção ideológica.
Seu lirismo, moça, bota ordem no caos. Traz sentimento nobre em meio a tantas diatribes.

Parabéns, Lídia Martins

Bianca M. disse...

Moça, seu texto traz um sentimento que vai além da derrota de ontem: abre os olhos de quem lê para enxergar o futebol como apenas jogos, em que vence o melhor. Do lado de cá, escutei muita barbaridade de quem até horas atrás torcia pra sua seleção ser hexa. Muita gente mostra que não sabe perder e distribui ódio a quem quiser e não quiser ouvir. Junto-me a você, "em prece por um mundo onde os acertos se sobreponham aos erros" e parabenizo você, não só pelo texto, mas pelo pensamento que você colocou nele.
Um beijo.

Bell disse...

Tudo é aprendizado, espero que a gente aprenda com isso tb, e cresça.
Acredito que não foi pq não era o tempo certo, e não há culpados e justificativas.
Desde o primeiro jogo, achei o time fraco, corria pouco e com o passar dos jogos isso foi ficando evidente.

O sonho pode ter acabado, mas a esperança fica, afinal somos brasileiros.

bjokas =)