Repasso seguidamente estas cenas em minha cabeça. E
não fico me perguntando onde foi que erramos, ao contrário, a pergunta é...
Onde foi que acertamos? Mas bonito mesmo
foi ver a vó Maria... Uma velhinha de olhos azuis e sorriso maroto comemorando
seus noventa 90 anos com uma bandana do Brasil na cabeça e gritando com a sua
voz rouca “O Brasil vai pras quinta!” Quinta vó Maria? “Aff... A finale fia.” E
foi mesmo. Só que para as quintas do inferno. E o pai então? “Grita não, fala
baixo minha fia, senão o pai num entende causa de que aquele juiz não marcou
esse pênalti.” Mas não foi pênalti não pai Gerson, o árbitro mandou seguir
porque não houve qualquer irregularidade no lance. “Sem tirar os olhos da tv
ele devolve: “Vai lá na cozinha e me traga um copo d’água que de bola cê num
entende é nada.” Pai, natural ou gelada? “O que minha fia?” Uai pai, a água. Ou
o vendedor autônomo que chegou apressado para entregar o pacote de cigarros
paraguaios e berrou do portão: Oh Dina! “Êêê cumpade André, mai isso lá é hora
de chegar? Vamo entrá...” André responde: “Fizeram outro gol...
Eu até saí da frente da televisão. Vamo perder feio hoje gente! Esses 4x0 aí o
Brasil não reverte.” Ela defende com fé: “Cala a boca André! Vamo esperar pra
ver.” Veio o quinto, o sexto, o sétimo gol e com eles, a
perplexidade do primeiro ao último instante. Final de Jogo. Placar: Alemanha 07
X Brasil 01. Fica para a próxima, hexa. Até o espanto que é mudo deixou escapar um grito de susto.
Impulsionada pela força do nosso anestesiamento a seleção alemã triunfou onde
fracassamos, reconheço. De resto, já nem faziam questão de comemorar seus
sucessivos gols. Aos alemães, pois, meus cumprimentos. Mas triste mesmo foi pousar o olhar sobre as
estrelas zangadas. Não faltaram discursos inflamados, vingativos, pessimistas,
sobretudo daquelas a quem, por ter profunda admiração acreditei serem pessoas
inteligentes, amadurecidas e porque não dizer, conscientes de que se
tratava apenas de um jogo e resulta que, para que uma parte pudesse sorrir, a
outra teria que chorar. Enquanto lia os enxovalhos ofertados a nossa Seleção
pensava na palavra Constelação. E olha que se há uma coisa da qual somos
abastados é de céu. Memória
fraca não é uma de minhas características. Li tantas porcarias que quase
tive um surto de dislexia. A tristeza
que contaminou e rapidamente se espalhou nos rostos, especialmente das
crianças, o olhar atônito das câmeras do mundo inteiro, a alma partida dos
jogadores diante daquele torneiro de horrores, tendo como prêmio de consolação
as repetidas vaias dos torcedores, protestos que não diziam respeito apenas a quebra
do espelho, mas sobretudo ao trincamento do reflexo, pensei com os meus botões:
as feridas de nosso ego arderão
por um bom tempo. É sempre assim, quando as coisas vão mal ao invés de estender
todos retraem as mãos. E nem vou me excitar com o mérito das questões políticas, embora saiba que tudo gira em torno de suas virilhas. Alegrei-me quando venceram e me entristeci quando
perderam. Nem só de ganhos, mas também de perdas que um país escreve a sua
história. A seleção não deve desculpas ao povo brasileiro. Chegamos na fase
semifinal quando a crença geral era a de que não passaríamos nem das oitavas. E
foi tão real a expectativa da vitória que a derrota pareceu inventada. De tudo, ficou um gesto. Ao ver as mãos em punho de David Luiz se fechando
impetuosamente contra o peito, implorando por um perdão que não foi aceito, baixei a cabeça, fechei os olhos e fiquei em silêncio. Em prece
por um mundo onde os acertos se sobreponham aos erros. Gratidão Senhor Deus,
aos nossos pés sempre descalços. Quem é capaz de grandes quedas, é também capaz
de grandes saltos. Em nome dO Futebol. Dos
Jogadores. Dos Torcedores. Amém.
Lídia Martins

3 comentários:
Das melhores crônicas que li nestes dias, especialmente de ontem para hoje. O normal é colocar-se a paixão acima da razão, quando não a falta de conhecimento esportivo ou a falta de honestidade intelectual e má intenção ideológica.
Seu lirismo, moça, bota ordem no caos. Traz sentimento nobre em meio a tantas diatribes.
Parabéns, Lídia Martins
Moça, seu texto traz um sentimento que vai além da derrota de ontem: abre os olhos de quem lê para enxergar o futebol como apenas jogos, em que vence o melhor. Do lado de cá, escutei muita barbaridade de quem até horas atrás torcia pra sua seleção ser hexa. Muita gente mostra que não sabe perder e distribui ódio a quem quiser e não quiser ouvir. Junto-me a você, "em prece por um mundo onde os acertos se sobreponham aos erros" e parabenizo você, não só pelo texto, mas pelo pensamento que você colocou nele.
Um beijo.
Tudo é aprendizado, espero que a gente aprenda com isso tb, e cresça.
Acredito que não foi pq não era o tempo certo, e não há culpados e justificativas.
Desde o primeiro jogo, achei o time fraco, corria pouco e com o passar dos jogos isso foi ficando evidente.
O sonho pode ter acabado, mas a esperança fica, afinal somos brasileiros.
bjokas =)
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