7.10.2014

O terceiro homem

Ao ler tua carta naquela tarde fria de inverno, voltaram-me os sonhos. Minha alma ficou mais vertical e os meus olhos, sempre orientados pelo chão, lentamente, tornaram a perscrutar o horizonte. Nunca se sabe o que uma viagem ao íntimo de nós mesmos pode trazer ao mundo externo. Frequentemente me acontece entrar neste quarto e bagunçar todos os pensamentos que nele deixo arrumados. Entre nós não havia mais nada a ser dito, apenas a ser escrito.  Toquei-o. Tocamo-nos. Como dois estranhos que se reconhecem em meio à multidão, concedendo-se a chance de se apresentarem de novo. E não. Não houve um único sinal em nossos corpos que estivesse fechado um para o outro. Amigos?  — perguntei.  — Até que o desejo nos separe — escutei. Amei-o com uma doçura semioculta naquela noite de pesadelo. Apesar do impiedoso inverno que me atravessava o peito, sentia que meu coração ainda era capaz de algum verão. Como geralmente ocorre, os personagens dos romances estão quase sempre distraídos ou parados em outra esquina que não a deles. A simples menção que ele fizera de nos desencontrarmos novamente foi o bastante para que eu me afastasse para sempre. E hoje, à medida que penso, espero e escrevo, basta-me estar aqui, a sós, com a memória daquele momento. Não me passava pela cabeça tornar a vê-lo. Depois do havido, o meu único desejo era o de esquecê-lo. Feito do qual se encarregou o tempo para deduzir o que provavelmente se olhou e não se viu, se disse e não se ouviu, se entendeu mas não se compreendeu, apagando de minha mente a imagem daquele jovem fauno com o mesmo vagar que se vira a página de um livro de Guilherme Del Toro. Pode se dizer que, posto que não o vemos, o tempo é extenso. E se encarrega de nos fazer passar ou durar conforme os nossos méritos. Doeu-me a solidão, a saudade, o silêncio, sobretudo quando descobri que não havia ninguém esperando por mim. Estava deserta a estação de trem onde desembarquei com uma a uma de minhas angústias. A noite cegou-me apenas para me fazer ver que em pouco tempo eu seria dia. Em minha vida as emoções geralmente assumem a forma de gigantescas rodas. Sobem, descem, param, mas sempre retomam a trajetória. Pela rua que simplesmente não existe, passa o outro homem que há em minha vida. Apressa os passos como quem adianta os ponteiros de um relógio atrasado. Tem ânsia de chegar. Ainda que seja a lugar nenhum.  Ai vão elas... As dúvidas? Não, as certezas. 


Lídia Martins

6 comentários:

placco araujo disse...

Não sei se é uma foto ou um dos fotogramas de um filme que insiste em não deixar os subsequentes se revelarem, tentando impedir que se mostre que ali não há mais nada. E, na via ao lado, o terceiro homem pode estar passando, como uma névoa, aquele que tal qual Roque Santeiro, foi sem nunca ter sido.

Carlos Roberto disse...

Um texto pintalgado de sensualidade e com um hermetismo bem escalonado. A atenção ao detalhe poderá ser a porta de entrada, ainda que isso seja o menos importante. Ou talvez não. Fica o cenário, belo e denso que envolve o leitor, assim como a musicalidade imprimida por um jogo de palavras devidamente ritmado e inserido numa paisagem com tudo de poético. Vejo uma imagem final de costas voltadas, mas é mentira. Sempre é.

annie lancaster disse...

Incrivel

annie lancaster disse...

Parece como uma historia de um filme. Seu texto faz com que eu idealize personagens e veja cenas se desenrolando. Isso se torna ainda melhor. Essa capacidade que o autor tem de fazer com que o leitor viaje.

Gabriela Freitas disse...

"Doeu-me a solidão, a saudade, o silêncio, sobretudo quando descobri que não havia ninguém esperando por mim."
Parece que você me leu e descreveu o que viu, o que eu senti, sinto. Cê' escreve lindamente, faz a gente engolir as palavras pra dentro da alma, toca profundo o coração, sabe? Parabéns pelo talento.
http://www.novaperspectiva.com/

Marília Gabriela disse...

QUanta saudade da Pipa!!