Rain Ririn
"Te
quiero... gracias porque vives, porque ayer me dejaste tocar
tu luz más
íntima y porque dijiste con tu voz y tus ojos
lo que yo esperaba toda mi vida."
Frida kahlo
(...) shhh faça
silêncio silêncio silêncio vim pelo nevoeiro mais espesso o mais cinzento o
mais sincero nua criatura nua vestida apenas com a lonjura muda destas palavras
que transpassam pelas frestas da tua
janela nesta noite orvalhada o inverno finalmente chegou respingado pesaroso
decomposto e faz um frio indescritível aqui dentro do peito precisei calar a
boca do mundo para escutar o som do meu próprio coração levá-lo para a mata
mais secreta mais fechada mais intacta
para compreender a natureza desta lâmina afiada que está há meses me roçando arando gradeando nivelando plantando
silêncio silêncio silêncio eu poderia encher estas páginas inteiras de silêncio
silêncio silêncio é como se as raízes de uma árvore cinzenta me tivessem
atravessado as entranhas até destroçar nervo por nervo alastraram-se-me coisas
viscosas verdes vivas vindas de grãos fecundos semeados a uma profundidade que
não pode ser medida deixando fraturas na alma mutilada exposta caleidoscópica
esquecida carregada pelas mãos de anjos
e demônios ensandecidos que não descansaram até abortar com furor todas as
certezas que eu tinha me escute o coração é a única coisa que nos une cada
batida é uma martelada surda que lança nos ares uma poeira reluzente de
lapidação de esmeraldas em um ritmo tão compassado quanto uma dançarina espanhola
que enfeitiça almas com o seu par de castanholas segure em minha cintura e
vamos estrear passos inéditos de um magnífico tango to evora pelas ruas lua
eclipsada de tanto céu tanta brisa tanto sol
campônio um seu arauto um fauno por méritos impróprios estou tão quente quanto as cores de Frida
kahlo a saudade que sinto de ti é de fazer estarrecer todas as fibras do meu
ser os males que tenho se curam com beijos macieira em flor percebo não eram as
raízes nem os troncos nem os galhos nem
as folhas nem os frutos nem a árvore não eram eras tu crescendo em mim até
cansar até doer até tombar até matar eu também te amo e é tão pouco o tanto que te amo que entortam-me os dedos os
versos que não te escrevo caem-me dos braços as carícias que não te entrego
morrem-me nos lábios as palavras que não te falo (...)
lídia martins

8 comentários:
Criação literária de primeira água, na linhagem da vanguarda que faz emergir a linguagem múltipla da sonoridade, impulsionando a leitura para a invenção simultânea, junto com a poeta, numa interface de grande envolvimento. Uma beleza, uma pintura de poema.
texto de tirar o fôlego em todos sentidos! rs
Diria muito se não soubesse que ia mutilar a beleza do texto. Há coisas que não são dizíveis, simplesmente porque ainda não foram descobertas as palavras certas para as nomear.
Dizer que este texto roça a genialidade? Que nos agarra pelo peito de uma forma quase abusiva e escandalosa, e que isso acontece desde o início até ao fim, e que no fim, por fim, nos leva a alma? Seria dizer muito pouco. Por isso, e só por isso, me Kahlo.
Belo belo belo, Lídia. Parabéns!
Ao não pontuar o teu texto, você entregou a nós a responsabilidade de quando respirar, e eu me lembrei de quando ainda moleque, me defrontava com uma raia de 25 metros que eu teria que atravessar mergulhando, mas só valia a pena se eu conseguisse ir até o final. Pois foi isto que tentei ao ler o seu texto. Não consegui, mas fiquei com a respiração presa quase o tempo todo.
Muito bom texto pássara e como bem disse o Carlos Roberto, diante dele me Kahlo!
Está dito
Disto
Pelo visto
O que vestes
Vertes
Vastos versos
Imersos no silêncio ansioso
Como uma ferida
Como Frida
Dançarina
De cores fortes
Presse moço
Perdido nos cortes
Na corte
Tal sorte
Afasta a morte
Faz tal moça...
Parabéns pela ousadia, Lídia! A menina definitivamente cresceu.
Lídia,
que lindo. Sensacional, envolvente, rítmico.
adoro descansar os meus olhos nas tuas palavras.
Um beijo.
"que sinto de ti é de fazer estarrecer todas as fibras do meu ser os males que tenho se curam com beijos" totally love it
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