Header

Header

7.28.2014

O Pastor Órfão

Alguns nos ajudam a viver, outros  a morrer — anotou ela com o bico de sua pena, tentando acalmar a folha que tremia como uma serpente viva entre as mãos encharcadas de tinta. Tem certeza de que deseja decepar apenas a minha cabeça? Ainda tenho dois braços, duas mãos, duas pernas, dois pés e um coração para o caso de mudar de ideia — arrematou com os olhos em fuga, em meio às nuvens de pólen que traçavam no ar dezenas de trilhas de labirintos sem saída. A morte a cercava por toda parte, como se a esperasse. Naquela manhã de julho o céu fora encoberto por um agosto eterno e não importava quantas luzes inaugurassem setembro, quantas árvores colmassem a terra com suas cores, quantas flores borrifassem seus lentos e doces perfumes, quantas chuvas viessem saciar a sede das raízes, quantos pássaros viessem estrear seus novos cantos, a primavera seria sempre uma promessa distante, que não se cumpriu, e por essa razão fora do alcance das mãos. Estéril de gestos. Viúva de afetos. O ventre que antes se sabia gravídico, agora tornado infecundo como uma semente que queda inerte em um chão de pedregulhos. Os girassóis desenhavam sombras esqueléticas com suas pétalas secas, eram rosas terminais, vestidas de luto pelos desejos lacrados de medos, de abandonos, de silêncios. Ao contrário do outro ela não sentia muito, ela sentia tudo. Perdera a conta das noites em que andara pelos corredores das noites insones à procura do clarão da grande lua que, carregada pelos corvos, nunca tornou a mostrar a luz de seu rosto. E nem poderia dizer que chegara ao fundo quando não havia nem mesmo um poço. Seguia a procissão de carros negros com seus faróis ora apagando ora acendendo, cumprimentando tristeza por tristeza com suas luvas pretas. Misturava-se aos cortejos como quem assistisse ao seu próprio enterro. Em meio a tantos erros, quem almejaria ainda pensar nos acertos? Em segredo, às escondidas, confessou ao exasperado que se nomeou seu pastor. Minha religião é a dúvida e a sua? Gostaria de saber como imagino o Juízo Final? Um monólogo de caráter pedagógico com a parede branca para repensar as más condutas. Depois agradecê-la com um obrigada por nada e, se o tempo estiver bom, sair para brincar nas ruas. Eu não fui rebelde. Não muito. É só não olhar que não dói. Isso vale também para  pessoas. Fiz você se lembrar de alguma coisa? Não me espanta que ainda esperem por epifanias. Os algozes estão sempre abstraindo embora vivam para negar isso. E leva tempo até se darem conta de que não são mais do que abstratas e pornográficas sombras. Muito antes que empunhasse esse sabre, eu já estava morta. Há muita memória sem palavras. Estamos nas páginas deste livro que fecho agora. E estaremos também amanhã, quando formos apenas uma memória. E todos aqueles versos confusos eram para ele, seu leitor único. A quem ela sempre haveria de lembrar por nunca sequer ter pensado esquecer, a quem ela sempre haveria de amar por nunca sequer ter aprendido odiar, a quem ela haveria de sempre voltar por nunca sequer ter imaginado deixar. Exausta daquelas histórias que começavam e terminavam em cemitérios, mergulhou pela última vez o bico da pena no velho tinteiro e, vendo a tinta escorrer pela canaleta, pensou na palavra apagamento. Abrira a gaveta e, ainda hesitantes, todas as suas partes extraviadas ataram as pontas para, em seguida, unir-se às raízes do impronunciável vazio que a esperava. Longínqua, desfeita, esvaída, existiria agora em outro plano. De róseos rochedos, mineral, subterrâneo. 




Lídia Martins

3 comentários:

Carlos Roberto disse...

“As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Guimarães Rosa designaria este texto como a Teoria do encantamento. E, Como diria alguém que conheço: “É, e não é possível que não seja”.
Belo texto, Lídia. Parabéns.

Anônimo disse...

The critically acclaimed hit collection “The Carol Burnett Show”
debuted on CBS in 1967 and made America snicker for
eleven seasons.

Here is my web page - party pill store

Salve Jorge disse...

Me afastei de Pandora
Por sua longa demora
Não em fechar a caixa
Mas em perceber a cilada de Zeus
Mas feliz foi Prometeu
Que não via crime
No ato pensado
Fogo para o homem
Para a mulher
Para o par
Hermafroditas cortados no mito
E no dito
Vivem as tais memórias num infinito
Tantas sensibilidades que não cabem em palavras
Sei que te cito
Pra poder me perder
Que nesse padecer
De relato
Navego o tato, o paladar e o olfato
Mas não serei ingrato
De não arrancar um suspiro e um delírio
De quem vendo além do martírio
Desse mundo fechado
Abre incomensuráveis caminhos
Desalinhos
Ímpares de tão pares...