7.31.2014

Macieira em Flor


Imagem: Frida Kahlo - Arte: Rain Ririn

"Te quiero... gracias porque vives, porque ayer me dejaste tocar
tu luz más íntima y porque dijiste con tu voz y tus ojos
 lo que yo esperaba toda mi vida."

Frida kahlo

(...) shhh faça silêncio silêncio silêncio vim pelo nevoeiro mais espesso o mais cinzento o mais sincero nua criatura nua vestida apenas com a lonjura muda destas palavras que transpassam pelas frestas da  tua janela nesta noite orvalhada o inverno finalmente chegou respingado pesaroso decomposto e faz um frio indescritível aqui dentro do peito precisei calar a boca do mundo para escutar o som do meu próprio coração levá-lo para a mata mais secreta mais fechada  mais intacta para compreender a natureza desta lâmina afiada que está há meses me  roçando arando gradeando nivelando plantando silêncio silêncio silêncio eu poderia encher estas páginas inteiras de silêncio silêncio silêncio é como se as raízes de uma árvore cinzenta me tivessem atravessado as entranhas até destroçar nervo por nervo alastraram-se-me coisas viscosas verdes vivas vindas de grãos fecundos semeados a uma profundidade que não pode ser medida deixando fraturas na alma mutilada exposta caleidoscópica esquecida  carregada pelas mãos de anjos e demônios ensandecidos que não descansaram até abortar com furor todas as certezas que eu tinha me escute o coração é a única coisa que nos une cada batida é uma martelada surda que lança nos ares uma poeira reluzente de lapidação de esmeraldas em um ritmo tão compassado quanto uma dançarina espanhola que enfeitiça almas com o seu par de castanholas segure em minha cintura e vamos estrear passos inéditos de um magnífico tango to evora pelas ruas lua eclipsada de tanto céu tanta brisa tanto sol  campônio um seu arauto um fauno por méritos impróprios  estou tão quente quanto as cores de Frida kahlo a saudade que sinto de ti é de fazer estarrecer todas as fibras do meu ser os males que tenho se curam com beijos macieira em flor percebo não eram as raízes  nem os troncos nem os galhos nem as folhas nem os frutos nem a árvore não eram eras tu crescendo em mim até cansar até doer até tombar até matar eu também te amo e é tão pouco o  tanto que te amo que entortam-me os dedos os versos que não te escrevo caem-me dos braços as carícias que não te entrego morrem-me nos lábios as palavras que não te falo (...)


Lídia Martins

8 comentários:

Nei Duclós disse...

Criação literária de primeira água, na linhagem da vanguarda que faz emergir a linguagem múltipla da sonoridade, impulsionando a leitura para a invenção simultânea, junto com a poeta, numa interface de grande envolvimento. Uma beleza, uma pintura de poema.

fjunior disse...

texto de tirar o fôlego em todos sentidos! rs

Carlos Roberto disse...

Diria muito se não soubesse que ia mutilar a beleza do texto. Há coisas que não são dizíveis, simplesmente porque ainda não foram descobertas as palavras certas para as nomear.
Dizer que este texto roça a genialidade? Que nos agarra pelo peito de uma forma quase abusiva e escandalosa, e que isso acontece desde o início até ao fim, e que no fim, por fim, nos leva a alma? Seria dizer muito pouco. Por isso, e só por isso, me Kahlo.
Belo belo belo, Lídia. Parabéns!

placco araujo disse...

Ao não pontuar o teu texto, você entregou a nós a responsabilidade de quando respirar, e eu me lembrei de quando ainda moleque, me defrontava com uma raia de 25 metros que eu teria que atravessar mergulhando, mas só valia a pena se eu conseguisse ir até o final. Pois foi isto que tentei ao ler o seu texto. Não consegui, mas fiquei com a respiração presa quase o tempo todo.
Muito bom texto pássara e como bem disse o Carlos Roberto, diante dele me Kahlo!

Salve Jorge disse...

Está dito
Disto
Pelo visto
O que vestes
Vertes
Vastos versos
Imersos no silêncio ansioso
Como uma ferida
Como Frida
Dançarina
De cores fortes
Presse moço
Perdido nos cortes
Na corte
Tal sorte
Afasta a morte
Faz tal moça...

Alvaro Vianna disse...

Parabéns pela ousadia, Lídia! A menina definitivamente cresceu.

Wendel Valadares disse...

Lídia,

que lindo. Sensacional, envolvente, rítmico.

adoro descansar os meus olhos nas tuas palavras.

Um beijo.

Saeed disse...

"que sinto de ti é de fazer estarrecer todas as fibras do meu ser os males que tenho se curam com beijos" totally love it