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4.17.2014

O quarto-de-não-dormir

Olhei o teto. Os olhos giravam com o isocronismo de um pêndulo. Para lá e para cá, a tangenciar o mistério. Os sentidos imploravam por equanimidade. Era preciso ficar à mesma distância dos extremos daquele movimento. Sei ficar invisível, sobretudo, nas ocasiões em que necessito. Os portões do paraíso foram abertos e, ao invés de avançar me fiz recuar, não porque duvidasse da clareza que a luz prometia, mas, por preferir as revelações que só a treva me mostraria. Precisei tomar incontáveis pílulas de silêncio para acalmar os pensamentos, ou, por assim dizer, meus sentimentos. Aqueles dias anunciavam uma calma precisa, transparente e fria. As palavras perpassavam pelos lábios e voltavam rendidas como se tivessem encontrado no silêncio um tipo de prazer que só ele oferecia. Calar, além de transmissível, era contagiante. Desabara o castelo de desesperos que ergui com os meus próprios dedos. Pouco me afetava se era assaltada por uma sensação de tristeza ou alegria, àquela altura, esses sentimentos me eram igualmente bons, e, mesmo que houvesse algo de mau, eu não distinguiria. O que passou a me incomodar não foi o momento em que perdi o hábito de sorrir ou chorar, mas, quando perdi o hábito de me importar. Troquei o meu lugar ao sol por um lugar na escuridão. Pelas alamedas sombreadas da memória agora andam pessoas vivas e mortas embaralhando perguntas em poças que só fazem afundar junto com as respostas. Os dias amanhecem escuros diante dos meus olhos de não ver tudo. O quarto-de-não-dormir... Hei de descansar aqui. 

Lídia Martins

6 comentários:

placco araujo disse...

Acho que se não fosse poeta, seria uma cineasta, pois tem uma facilidade em criar verdadeiras cenas cinematográficas. Quase todos os seus textos, eu os vejo enquanto leio.
Muito bonito!

Carlos Roberto disse...

Belo texto, Lídia. Uma viagem que nos leva ao extremo da nossa própria dimensão. Quando já nada importa. Quando as palavras cavam onde não tem. Quando o sentimento que alumiava, apenas nos cega. Então sim, é preciso desligar a luz e recomeçar a partir do escuro. De onde, na verdade, nunca nos deveríamos de afastar em demasia.

Bell disse...

Há necessidade de as vezes sair de cena.

Tenha uma Super Páscoa

bjokas =)

Leo disse...

"O que passou a me incomodar não foi o momento em que perdi o hábito de sorrir ou chorar, mas, quando perdi o hábito de me importar." É isso Pipa, é isso!

Anônimo disse...

Eu sei como é isso de ter os sentidos anestesiados. Sinto o perfume de teu que também é meu: cansaço. Teus passos cambaleantes deixam entrever o claro/escuro em que desces é tudo tão pesado que fica leve. Flutuas intacta por detrás dos teus olhos de ver tudo, percebe? Tua aura tem uma alvura, uma coisa qualquer luminosa que absorve, devasta e devora. Escreva teu livro. Estamos esperando por isso.

Beijos

Fabiane Botelho

Anônimo disse...

Então aí, eu vou descansar contigo.

Beijo em tuas mãos, uma sensação de alegrias...