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4.04.2014

LUZES DE OUTONO

Eu nunca sei o que dizer. Aliás, sei. Depois que a ocasião passa. Não quero passar um outono esperando o outro. Os mortos não falam, mas leem, escutam, veem e alguns deles até escrevem. É o meu caso. E ao escrever faço o que melhor sei fazer: ponho tudo a perder. Às vezes pergunto-me onde eu estava com a cabeça quando reduzi minha vida à ponta de uma caneta. É preciso resistir à tentação de mentir. O que faço para tapar os buracos deixados por este vazio insuportável? A procrastinação é uma doença que nos mata sem qualquer pressa. Causa-mortis: atuação dispersa. E eu tenho tantas urgências, mas procuro esquecê-las, com muita frequência. Não costumo fugir das minhas responsabilidades, no entanto, tenho despriorizado muitas decisões importantes. Exceto meus tormentos, sempre inadiáveis. Não bastasse o choro pelos ontens, choro também pelos hojes, amanhãs. Choro baixo para não acordar o bairro. Três palavras me prefaciam neste momento: superioridade, separação e segredo. E não é outro o meu desejo, senão o de que elas sejam em mim como foram em ti. Não há remédio contra a atrofia de gestos. Uso focinheiras de ferro para amordaçar a fúria destes cães raivosos. Os dias têm me dado dentadas violentíssimas. E, para completar, me engolido sem mastigar. Limpo cuidadosamente os ferimentos do tempo. Alguns vão demorar para cicatrizar. Eles me ardem feito fogo fresco. Certas palavras ocultam uma ternura que nem sempre nos é dada entrever. Nunca é. Ontem escrevi até os dedos sangrarem. Não o fiz para justificar meus acertos e sim para confessar os meus erros. Cartas sem a menor pretensão de serem enviadas, como uma criança natimorta que vem ao mundo apenas para atestar o seu incontenível e entusiasmado suspiro catártico para, em seguida, fechar os olhos diante do espanto provocado no outro. Nem tanto pelas palavras... Há intenções que nasceram para ser imediatamente enterradas. Saio às ruas, dobro a esquina e, em uma violenta batida, o coração se precipita. Quero ficar a sós com estes pássaros, estas árvores, estas sombras, estes galhos. Que pousem em mim todos os sonhos que um dia alçaram voo. Deixo esta rosa rigorosamente incógnita sobre o túmulo coberto de heras, sarças e musgos. Lerás remorso. Palavras são rosas que o vento desfolha. E é abril. Mês das cores que já não reverdecem. Logo as ruas e avenidas da memória ganharão outras matizes de lilases, nunca como as de antes. As luzes de outono pedem: deixa ir o que não serve. O fim é sempre por onde começo. Tente não reparar na ordem dos acontecimentos. As razões que nos levaram a aproximar foram as mesmas que nos levaram a distanciar. Quem sequer chega, não pode desejar ficar.

Lídia Martins

5 comentários:

Nei Duclós disse...

A danação do ofício de escrever atinge quem escreve na sua faina diante do espelho: as molduras da imagem pelo avesso parecem limites mas são as bordas do infinito. Essa lucidez que enxerga a palavra cumprindo seu destino como se fosse um defeito físico é o drama da literatura que sugere remorso e é apenas sintonia fina com a arte de se expressar pela voz moldada em letras, sílabas, versos, frases. Viagem que Lídia Martins transporta como se fosse um fardo, mas sabemos que é transfiguração. A poeta se supera porque não se conforma. E assim sobe para o ar ganhando cada vez mais fôlego. Um amor pelo trabalho que não nega a dor da artífice, a que consegue chegar reportando cada milímetro de sua jornada impregnada de humanidade.

Carlos Roberto disse...

Para quem tem o dom da escrita não há silêncio que cale fundo, e para sempre. As palavras revelam-se quase involuntariamente, revelando-nos. Há qualquer coisa de misterioso, ou talvez não, que nos leva a revisitar o passado, quem sabe, a tatear o presente, de olhos postos no futuro. Perscrutar fantasmas ou atestar da sua defunção, vezes sem conta, é quase como um processo de cura, lento e sofrido, mas necessário. Talvez o remorso seja a cartada final de quem deitou tudo a perder. Nobre o útero de quem pare assim. Baralhar as cartas para voltar de novo a dar.
Belíssimo texto. Parabéns, Lídia!

MooN disse...

Excelente texto. Obrigado

MooN disse...

Excelente texto. Obrigado

Leo disse...

Será que a gente já não começa uma coisa pelo fim com esperança de colhermos a felicidade do começo noutra época? Somos pássaros surpreendidos por uma vidraça dum arranha céu suburbano.