3.25.2014

Abstract Dream




Há em mim uma infinitude de acordes secretos que tocam o tempo inteiro. Deixo que escutem, folheiem, risquem e até me rasguem. Sou uma poesia que não nasceu para ser lida. Nasci, apenas, para ser sentida. O mundo está cheio de música. Talvez seja medo do silêncio.  Toda a minha força se exaure na tentativa de afugentar essas clarezas solares. Um coração batendo na escuridão. Esses pressentimentos me adoecem de morte. Pouco importa que ela nos aprisione ou  liberte, que a verdade triunfe onde a mentira fracassou. Misericordiosamente. Olho os negativos de nossas fotografias... Todos queimados pela exposição a uma claridade excessiva. Se nos víssemos, não nos revelaríamos. Baixei os olhos e, prendendo os cabelos, pressenti os espectros de uma sombra silenciosa e absorta erguerem-se às minhas costas. Olhei. Depois desolhei. Os espelhos eram incapazes de mostrar qualquer reflexo. Medi-os. Medimo-nos. Presságio contra presságio. Agora os vejo. Esquálidos, indômitos, imundos. À esta hora mágica espreitam-me os chacais noturnos. Estão amordaçando meus lábios com o selo invisível do mistério para, em seguida, me arrastar pelos cabelos. Vorazes, levam-me pela mata adentro, fazendo-me prisioneira de seus mais primitivos instintos. Ávidos dos mais repugnantes prazeres, açulam-me uma, duas, três vezes e não descansam até vertigem me fazer cambalear com as mãos apoiadas nas paredes. Olhe só para eles... Uivam tão esganiçadamente que fazem estremecer todas as fibras do não-ser. Estudam-me como um cientista inconsequente, mortos de fome e sede, não de serem compreendidos, mas de não compreenderem-se. Circunscritos em seu próprio vazio. São conduzidos pelo ausente. Como naus errantes que procuram refúgio nas borrascas de um jogo mudo, cego e surdo e, naufragados pela fulguração do encontro, precipitam-se no tempestuoso mar das paixões efervescentes. Eles são muitos. Acham que sou a sacerdotisa do amor. Eu os reprimo! Esconjuro! Eu os expulso! Demônios! O que faço com esses monstruosos esqueletos de desejos tentando, em vão, impor o rigor do pertencimento? As mais cruéis deformidades não estão por fora, estão por dentro.  Somos, todos, alquimistas do perverso. Que esmagadora força têm as mãos dos que maldizem a nossa sorte. Enroscam-nos como serpentes, matando por asfixia toda a poese que nos reveste. No escuro em que me contorço, gemo e ardo, os olhos vertem o terror pelos instantes desperdiçados antes mesmo de serem vivenciados. Celebremos essa imobilidade de gestos que, gentilmente, nos foi concedida pela morte. Não há antídoto contra o veneno do silêncio. Repousemos. Esquecidos, alquebrados e exaustos. O silêncio é um carrasco que nos tortura, matando-nos, muito lentamente. E nós ainda o reverenciamos prostrando-se aos pés dele. Letargicamente... Nem no passado, nem no futuro. Estava agora no presente. Olhos perdidos em uma bizarra geografia de instantes.  Olhava o lençol negro com que Deus forrara o firmamento e, de quando em quando, bordava estranhos e abstratos sonhos. Fazendo de cada lágrima caída uma estrela rebitada, constelava-se. Era muito tarde e, talvez, de algum lugar distante, brilhasse um alento de felicidade. Deitada sob o mais escuro vazio, adormecera sorrindo para o infinito que lhe era possível. São tão profundos os abismos nos quais mergulho, que caio infinitamente para dentro, sem nunca tocar o fundo.

Lídia Martins

7 comentários:

placco araujo disse...

Estarrecedor! De estremecer os sentidos, tirar o fôlego...
Belíssimo!!!

Nei Duclós disse...

Cada vez mais intensa, e desta vez, assustadora por nos revelar a caixa de Pandora de suas grutas de sonho. Ler, reler e ter acesso ao domínio do verbo em sua grandeza. Literatura de mergulho. Para derreter as pedras.

z i r i s disse...

"São tão profundos os abismos nos quais mergulho, que caio infinitamente para dentro, sem nunca tocar o fundo."


E você me vem com essa, logo depois de Leminski me oferecer um drink. Acho que vou precisar é de uns faixas-pretas, e não são de karatê! rs.




"Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.
Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha
E é melhor encher a cara".


Paulo Leminski


Um abraço desafortunado...

Carlos Roberto disse...

Palavras que revelam a complexidade do inconsciente, e de como a sublimação dos nossos anseios e medos se pode tornar especialmente encantadora. Viajar por mil mundos. Cantar a ousadia ignóbil de rostos sem nome, é condição para mergulho sim, e bem profundo. Quem sabe, nessa sensação de queda, o sonho, expansão da consciência, se possa revelar de coisa concreta e definida rs
Mais um belíssimo texto, Lídia. Talvez para rebitar no firmamento das primaveras reprimidas. Um abraço!

Beta Repezza disse...

Que esmagadora força tem esse texto!

Anônimo disse...

Eu te amo e é tão pouco o tanto que te amo, que sufoco e me perco, nos tantos amores que por ti me transpassam todas as saudades, todas as verdades que aprendi, quando te amo.

Quem escreve disse...

Eu não disse nada sobre esse texto? Ahhh, estou em metades!