2.21.2014

The Funeral


Há certezas que se alojam em nossa alma com a precisão de uma bala. Atravessam-nos. Sem nenhuma misericórdia. Ocorreu-me, de repente, apagar todas as luzes do mundo. Para afugentar essa sensação de desorientação. Na escuridão posso ver tudo. A falta é o que tenho em excesso. E é sempre por extrema ousadia, nunca por covardia que peco. Havia entre nós uma sutil diferença. Um implodia. O outro explodia. Enquanto ele se controlava para manter as aparências, eu me estraçalhava tentando manter a transparência. Não tenho tendência ao isolamento, já ao ensimesmamento... Essa introspecção inútil de quem não perde seu tempo procurando fora o que só se encontra por dentro. Alguns querem popularidade. Outros notoriedade. A vaidade é intoxicante. Foi como se tivesse me dito obrigado por termos existido e, obrigado, sobretudo, por termos morrido. Fiquei sem entender a função dessa gratidão. O luto é o meu discurso. Essa finitude irredutível de tudo. Ainda que fôssemos imortais, jamais poderíamos nos livrar do que somos. Haja grandeza para suportar nossa pequeneza. Como sangra essa razão encarnada.  Se ao menos tivéssemos tentado ser ao invés de tentar parecer, talvez trouxessem flores para colocar sobre a lápide. É sempre tarde quando a sensibilidade nos descobre. Mas, como eu lhe dizia, a morte é, muitas vezes, a mais segura certeza que tivemos uma vida. Vele-nos o quanto quiseres. E depois, por favor, nos enterre — falei mordendo os lábios como se fosse arrancá-los. As fotografias guardadas na memória daquele verão eram vagas e imprecisas. E não foi ao olhar, mas, ao desolhar que elas ficaram cada vez mais nítidas. Nem mortos, nem vivos. Estávamos desaparecidos. Pela porta que não havia, entrava o cão vira-lata da falta. Farejava-me, rosnava-me, latia-me e, por fim, me lambia. A luz das velas que bruxuleiam exaustas tenta dizer quem fui antes de escurecer. Deixei queimar o cigarro entre os dedos olhando-o desfazer-se em cinzas. Num canto qualquer da sala, uma penumbra azulada se eclipsava. Convalescida das antigas feridas, soube que alguém me morria.


                                                                                                                Lídia Martins

3 comentários:

Carlos Roberto disse...

O que perdemos é por dentro, estou certo. Ninguém nos morre por decreto. Sobra-nos o instante perpétuo que atravessa o tempo e se faz saudade num corpo submerso, que se mortifica no que podia ter sido, mas não foi. Mais que cicatrizes, são vazios que nos ficam. E dos vazios, nos enchem os olhos. Saibamos estar atentos. Excelente texto, Lídia.

placco araujo disse...

Quase todos os textos, têm os seus trechos fortes... O que não acontece com este texto... Todo ele é forte. Chego a vivenciar as cenas como se ouvisse a sua voz em of. Lindo!

Beijos e_ternos

Rogerio G. V. Pereira disse...

Sejam quais forem os sentimentos e o comportamento dos corpos, são os cães quem sabe inverter o caminho da raiva até ao afecto...

Se os humanos fossem assim, estaria tudo certo!