2.23.2014

Inteiramente aos pedaços

Da varanda de meus olhos frios um desconhecido busca um amor irrefletido, dizia inteiramente aos pedaços, em mais um de meus tantos delírios de vidro, eu não te amo, eu não te amo, eu não te amo. Não o amei ontem e não o amarei hoje. Repetirei esta verdade quantas vezes for preciso. Até que fique convencido. É preciso muito esforço para durar nos olhos do outro. A vida não é feita de instantes, mas do que deles permanece. Para os que estão apenas de passagem, a eternidade nunca esteve tão distante. Agora vá! Fique longe de meus labirintos. Você não é em mim e eu não sou em ti. Sou mergulho, não me serve essa sua linguagem de margens. É fundo ser abismo. Senti, de um instante para outro, o céu ficar úmido, frio e escuro. Ainda não havia anoitecido e, nem era um dia chuvoso. Uma brisa grisalha se espalhava pela pele, até aquele dia, fresca e aveludada, abrindo vincos e rugas que anunciaram a chegada de uma velhice inesperada. Migraram pássaros, secaram rios, morreram peixes, esfarelaram-se planícies, entardeceram árvores. Foram-se-me todas as cores. Resplandeceu apenas o silêncio de meus girassóis, secos de tantos invernos. Chorei coágulos vítreos ao recolher os cacos daquele amor trincado. Feito tesouro oculto, em segredo, fui varrendo-os para dentro. Abriguei-os no seio do Eterno e, naquela manhã de fevereiro, eu vi desertos inteiros nascendo no canteiro do meu peito.


Lídia Martins

5 comentários:

placco araujo disse...

"Não existe morte mais deplorável, que a morte do entusiasmo." (Lídia Martins).

Nada a acrescentar!

Carlos Roberto disse...

Não fosse apenas um simples delírio, e eu acreditaria que esse texto tivesse sido mais que um instante. Acredito, mesmo assim, que algo dele permaneça já em algum lugar. Texto profundíssimo, Lídia, "Como é fundo este parto de mim mesmo". Adorei!

Holostasis disse...

oi estava lendo seus textos que me ajudaram a desenvolver algumas ideias - basicamente vitimas de estupro se enquadram em duas resoluções (e tonalidades): uma a superação do trauma e\ou outra a busca pela punição... a primeira me soa como um vetor positivo de coisas que nao tenho certeza nem garantia... a outra me soa apenas cair em outro circulo sem fim de violencia... voce me deu uma ideia para a terceira via...

um abraço



midnight flower [chapter one: mountain laurel] by ramonlvdiaz

I was wearing red dress when almost die. Brutally rapped precisely for 56 minutes, where from the greengrass beneath trees I could see the Hamilton Watch Complex and the time cease to sync with my own body. Everything that was familiar and sweet on Lancaster, as the Crystal Park hours earlier where I was watching strange sculptures of Ulrich Pakker turn into shades of other person that I suppose I was sometime. Was I? Now I could feel every part of my body say no, every cell to repulse, to deny every science ever since. Never in my whole life I was completely aware and at same time so distant. I was screaming and crying but one of them was closing my mouth with torn pieces of my dress and I couldn’t see their faces either because they wear dark masks and black motorcycle goggles.

Every second was a dark eternity, where blood and bruises from mark of teethes and sweat from seven men forced themselves upon me to rip off my clothes and laugh.

“Red Devil Dress”, one said. And laugh. And laugh again.

I look for any sign of god. All lights seem so starry with an old yellow frame, like distant alleys with no one around and certainly no god. I tried to pray at same time that I knew that wouldn’t work. I haven’t enough faith, I didn’t know even how to get faith enough to overcome this. Or that. And now everything.

They finish me off. One of them come close to me. "Conqueror", I knew he felt like that. Superior. I was not their prize or pride. I was their right.

“Hey Red, this is for you”. And then he throw at me a smashed mountain laurel on my naked belly before punch me on face and I passed out believing that I was dead. And sometimes death it’s not enough either. I could feel this absence where I have no place to go: just a straight line that no one could join me.

I’m alone and i don't want to surpass this or feel comfortable and secure again. I don't want any kind of security. And i'm affraid what comes next from this black hole.

fjunior disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fjunior disse...

Vc e as figuras que constrói: quanto esforço é preciso para permanecer nos olhos de alguém?