1.31.2014

Sem açúcar, nem afeto

É preciso ser forte — falei enquanto abarrotava pacientemente uma caixa de alfajores. Desconfio que esta maravilha alfajorística tenha um propósito secreto, embora nem sempre possamos compreendê-lo. Se me tivesse saqueado apenas um beijo, mas não, era preciso saquear também o meu sossego. Restou-me esta coisa sem nome que, camada por camada, devora-me. Alfajores... Consumi-o. Consumimo-nos. Mas, de novo, inunda-me uma amargura invisível que não explico, uma saciedade triste de algo que fique, um tremor de felicidade a desconcertar-me, uma clareza solar que me cega os sentidos, uma mão que me afaga com a mesma delicadeza com que me afoga. Submerjo, sem saber se ela é real ou apenas metafórica. Uns querem vida, outros poesia. Passei a tarde lendo aqueles versos funestos e cheguei à conclusão irretorquível de que ele não tinha a menor ideia do que estava dizendo, embora soubesse exatamente o que estava sentindo.  Com uma rigidez quase militar, imito um gesto cívico e ergo os olhos para o relógio como se quisesse e pudesse ordenar o tempo passar. Desafio o brilho metálico dos ponteiros e, feito soldados uniformizados, os marcadores se alternam em movimentos ora isolados, ora combinados. E, sem dar quaisquer explicações de seus atrasos, a memória volta a coreografar aquele samba melancólico. Sem açúcar, nem afeto. Balançando suas longas e agitadas pernas, aí vem ela.  A Saudade?   Não, a Espera. Não tenho saudades, tenho alfajores. É amargo só ter lembranças doces.

Lídia Martins 

9 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Uns querem vida, outros poesia." A dicotomia é prevalecente nos desequilíbrios glicémicos... ainda assim é um texto recomendável, se bebido em pequenos sorvos...

placco araujo disse...

Ainda bem que tem os alfajores para suportá-la...Ela...A espera!!!

Ou comeste-os todos????

Lilian Rocha disse...

E quem não tem?

Flá Costa * disse...

"É amargo só ter lembranças doces".

Pipa do céu: UAU!

Beijoca

Nei Duclós disse...

O delírio abraçado à doçura, um cruzamento no abismo que a poesia de Lídia Martins nos proporciona. Um assombro.

mariana gouveia disse...

Quero um alfajores. quero sim.

Alex disse...

Por que alfajores tem esse nome?
Seres alfas independentes?
Ha anos nao tenho me visto, me perdi em tantas viagens pelo mundo... Onde sera que fui parar? Seu blog me faz relembrar de mim mesmo, aos poucos, tudo ainda confuso, escrever em portugues me eh estranho, tudo ainda ofuscado por uma luz ou por sombras demais...

Obrigado pelo texto.
Beijo grande

Anônimo disse...

Isso parece reunião dos "impressionistas", alguém sabe esclarecer quem diz o que, numa ordem que eu entenda?

Merci,

Cézanne.

Ella A. disse...

Poderia postar seu lindo texto no meu face? Colocaria os devidos créditos.

=)