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1.06.2014

Não-te-esqueças-de-mim

A voz veio da sombra, de uma mão anônima.
Interrogava-se mentalmente: "o que faz aquele homem chamando pelo meu nome?" É como um botão que se desprende da roupa. Desalinhado, vago, raso. Era tão oco quanto a casa que havia habitado. Fosse aquele homem um romance à espera de alguém que o escrevesse, chegaria, irretorquível, à conclusão de que nunca se viu tão mal redigido. Ele, sabendo-se apenas um personagem, andava por entre eles como um ser que nada sente. E sentia, enfim, o desejo de que dentro do romance, houvesse a gentileza de mãos que fizessem com que seu coração voltasse a bater novamente. 
Alguns chamariam de afasia. Outros de dislexia. Só uma coisa era clara. Ao ouvir aquela voz, ela perdeu a fala. Não por incapacidade de assimilar as palavras, mas as pessoas. Olhei-os fixamente. Depois desolhei. Vi o exato instante em que ele estendeu as mãos na sua direção, buscando, talvez, a cor de seus olhos na contraluz do sol.
—  Negros?!
  Caramelos  corrigiu ela, esboçando um sorriso emoldurado de alento.
Levantei da cadeira e fui em direção a ela. Ao chegar bem perto, vi que estava forjando um pequeno origami das réstias de um velho caderno. Uma combinação exótica de dobras, aos poucos, tomava forma. Recordei que ela não fazia desenhos como este já fazia algum tempo. E, quando fazia, insatisfeitas, andorinhas, libélulas e borboletas se esvoaçavam de suas mãos como folhas que se desprendem de galhadas secas. Serenamente, ela ergueu os olhos na direção dele para, logo em seguida, baixá-los novamente.
Vamos ver o que acha disso —  disse a ele, estendendo-lhe os origamis.
Flores...
Gosta delas? Fico contente.
Ela segurou o ramalhete entre os dedos e, desajeitadamente, entregou a ele.
É para você, para que não-te-esqueças-de-mim.
As rosas eram perfumadas como as memórias que ela ainda guardava. Ninguém é fiel ao pensamento. Sejamos honestos. A única fidelidade possível é ao sentimento. Todo amor raiz o sabe. Quanto mais se corta, mais se cresce. Eram fiéis à semente. Entre os canteiros de flores. É ali que eles se encontravam sempre. 
Depois daquele dia, compreendi que ela teria uma longa vida. Prêmio de consolação dos que foram valentes o bastante para não levar uma existência vazia e, ela sabia que por mais que desejasse ver a face daquela primavera incontida, ela não viria. Pela primeira vez na vida, se sentia livre da expectativa do que quer que fosse, sem compreender que dali em diante, muito possivelmente ela perderia tudo o que achava que ainda tinha, e o mais inquietante foi constatar que nada disso lhe aborreceria. Há os encontros que nos distanciam. Como há também os encontros que nos aproximam. Mas o encontro deles dois é dos que eternizam. E foi justamente no encontro, que entendera, enfim, a lógica do desencontro. Não é que tivessem perdido o amor um pelo outro, perderam, antes, o amor pelos propósitos. De qualquer forma, cedo ou tarde, ela teria ido embora. De partidas ela entendia. Já de chegadas... Sempre foi um pouco descuidada. A finitude era a sua verdade. Incriada mulher. Preferia a eternidade à continuidade.
Lídia Martins

8 comentários:

Nei Duclós disse...

Lindo poema, fluxo infinito que contorna os limites para ser devorado pela palavra habitada, a que busca amor com sentido, ou seja, sem o derramamento inútil. O amor que mora no lugar exato da palavra e o coração apenas segue com seus bálsamos. Independe do alvo. O que vale é o sentimento cultivado como uma arte rara, como gerar vida dobrando papéis. Onde está Lídia, sobrevive a verdade de uma poesia que não se entrega ao tempo. É a própria passagem, estação de flores que nos inundam.

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Mas o encontro deles dois é dos que eternizam"

Gostava de conhecer a eternidade nem que fosse num pequeno momento, talvez um pouco mais longo do que esse que falas em teu conto

Carlos Roberto disse...

Não o vi nascer, mas tomei-lhe o pulso. Vi-o crescer repleto de sensibilidade, a mesma que nos percorre em cada encontro que nos perpetua. Até porque, e como diz a autora: "A única fidelidade possível é ao sentimento". Sempre bonitos os seus textos, Lídia. Abraços!

Rafaelle Melo. disse...

"As rosas eram perfumadas como as memórias que ela ainda guardava. Ninguém é fiel ao pensamento. Sejamos honestos. A única fidelidade possível é ao sentimento. Todo amor raiz o sabe. Quanto mais se corta, mais se cresce. Eram fiéis à semente. Entre os canteiros de flores. É ali que eles se encontravam sempre. "

Eu havia me encantado com essa linhas lá pelo meio do texto. Uma fala de vida, de esperança, de uma beleza que não morre, ainda que as flores que por um tempo representam a beleza morram.

Foi uma alegria, daquelas bem boas, te ler hoje, hermana.
Hoje foi o dia que também tirei para voltar. Voltei a dar sentido ao jardim dos meus re-nascimentos.

Te abraço e me despeço por hoje com tua despedida no texto, que se me permites tomo para mim: "Incriada mulher. Preferia a eternidade à continuidade."

Be Lins disse...

Lindo texto. Poético, delicioso de ler.
É uma das mais lindas flores do teu jardim. O perfume espalhou-se por aqui.

(já fiz muitas mudas do vaso que você me enviou, e rego, Pipa, rego com tanta Esperança que acredito,
eu confio no céu desta flor!

Beijo

placco araujo disse...

Estes dias me dei conta de que já sigo o seu blog há quase 3 anos...

E como é bom perceber que neste período só melhorou a sua narrativa poética, sempre criando metáforas imagéticas impressionantes.

Neste texto em especial, me senti como sendo a terceira pessoa que narra as cenas, tão vívido é tudo para mim.

Lindo texto, doce pássara!

Karine Tavares disse...

Perfeito!

Parabéns pelo teu blog.
Vem conhecer o meu:

feitaparailetrados.blogspot.com

Salve Jorge disse...

Com esquecer
Se a ruptura
Sempre tem a luxúria
De romper com o contínuo
Vã verdade
É como o sino
Da capela
Da cidade
Não é só por ela
Nem pelo menino
É pelo desatino
De que não há como esquecer
Tanto indefinido
Mesmo se finito
Mesmo se finito...