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1.24.2014

Nas areias do tempo


E, de repente, um código novo. Tingindo o espaço de  um enigma nunca antes decifrado. Era o vento... Fazendo laços onde haviam apenas nós gigantescos. Atravessamos desertos ou são eles que nos atravessam? Ela nada tinha de concreto. Exceto aqueles dedos trêmulos tentando, em vão, desembrulhar a surpresa daquele momento. Olhou. Depois desolhou. Assimétricos. Oceânicos. Peregrinos. Aqueles olhos eram azuis o bastante para mandar qualquer mulher para um hospício. Eu sou feliz? — perguntava-se. Otimista que era, dizia que sim. Era possível ser feliz. Até na infelicidade. Ria sozinha daquela existência de escafandrista. Mergulhava em seus mais primitivos  silêncios sonhando emergir deles com o belo. As palavras eram um respiro cálido apertando-se involuntariamente contra os lábios. Dentro, um tornado. Deitada em sua colcha de retalhos sorria, submissa, imaginando que formato teriam as mãos daquele que cobriria a nudez de seu coração desaconchegado. Ela, sede. Ele, água. Os dois juntos, oásis. Na paisagem imóvel de ser metade, experimentava na carne a inquietude de não bastar-seDeslizava as pontas dos dedos sobre o ventre gravídico de sentidos.  Entregava-se àquela miragem com uma proclamação quase exaltada. Não só de corpo mas também de alma. Ensina-me a passar que eu te ensino como durar sussurrava. A falta era a semente que lhe fecundava.  Desmedida, excedia-se numa morna e lenta agonia íntima. Era ela, a menina a fantasiar de dentro da ampulheta. Era ela, a mulher a esfarelar-se em delírios de carne, areia por areia. Não precisou dizer. Já eram uma memória. Antes mesmo de acontecer. 

Lídia Martins

5 comentários:

Carlos Roberto disse...

Profundo. Ousado. Uma ilusão repleta de sensualidade e sedução. Uma memória?! Há memórias que nos tocam realidades. Mais um belo texto, Lídia. Desta vez o encontro foi para além do ar. Um abraço!

Ana Clara disse...

Uau! Mais uma vez o ar me falta após ler tuas palavras, Lidia...
Estou maravilhada, como sempre.

Rafaelle Melo. disse...

Incrível a transparência desse texto, qual vidro de ampulheta. Tão indecifrável os desejos desse coração, qual areia que se esvai a parecer se repetir no tempo. Mas não há nada de repetição nesse tempo movediço. Te leio e afundo, hermana. Te abraço.

Nei Duclós disse...


Lidia tem o dom de saber o limite da palavra e sua danação, o infinito que contém dentro de si. Aqui, tece a espera e o acontecimento, simultâneos, no amadurecimento lento e ao mesmo tempo abrupto da menina que fantasia a mulher e vice-versa. A carne trêmula que sonha. O delírio que encarna, real, no dia. O clima de sua poesia é a da viajante obscura, a que pinta o crepúsculo de cores mais fortes, transformando o ocre em cinza, o azul em ouro, o desmaio em despertar brusco entre esfinges. Decifra-se, a poeta, para o nosso encanto, e assim mesmo permanece o mistério que herdou junto com sua extrema beleza. Poeta de varreduras extremas, nos abate como uma rajada de vento norte.

z i r i s disse...

Era sábado. Abri as janelas mantendo a ponta do nariz para dentro do mundo. Nada me servia. A não ser aquele vestido verde dependurado no vento. Vesti-o. Serviu-me justo. Nada, até então havia me servido tão justo. Tão verde! Bem sabes Hermana...




P.S.: Pode me jogar um pouco de oxigênio desse escafandro ou vai ficar parada aí soltando bolinhas para as estrelas do mar? ;)

Um beijo