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11.13.2013

Vertigem


É como um poema esquecido que anseia copiosamente pelo instante de ser passado a limpo. Apago-me, reescrevo-me, amasso-me, atiro-me ao lixo e, assim, em meio aos escombros de mim, me ressignifico. Repetidas vezes passei as mãos pela testa como se quisesse e pudesse apagar aquela ideia da cabeça. Gostaria de poder concluir o contrário, mas não pude me livrar da tentação de acreditar que a sobriedade havia me abandonado. Estudando a lógica dos loucos, me oriento. Arrepia-me a valentia com que tentam pôr fim aos desesperos. Quase padecem, de tão intensos. E, outra vez, minha caneta se deita vertiginosamente sobre este diário manchado, com todos estes rabiscos que, embora não façam qualquer sentido, me explicam. A parte que mais me comove são estes lobos imaginados a salivarem minha carne. Há em mim qualquer coisa deles, talvez, quem sabe, esta fidelidade obscura ao que se sente. Minha hora mais humilde é esta em que tento ser, ao invés de tentar parecer. Creio perdida toda parte de minha vida que não passei sentada nesta escrivaninha. Desperdicei chances nobres de reeditar-me. Quando medito, como frequentemente faço, sobre as coisas que fiz, algumas vezes digo a mim mesma: tente não se importar tanto. E talvez até conseguisse, não fosse essa ternura que me assalta os olhos nos momentos mais ásperos. Apesar de minha familiaridade com os aliens, há em mim um peso humano de caminhante que me obriga, quase sempre, a voltar a minha pobreza de criatura terrestre. Não corrigi nenhum dos erros que cometi e sequer me pesa saber-me assim. E a roer-nos, os ratos dos anos. Rasgando pedaços de mim para colar em ti. Mendiga diriam. E era. Não propriamente dos prazeres lascivos que as paixões desenfreadas inspiram. Nunca me deixaram ficar por tempo suficiente para saciar a fome de afeto que tinha do outro. Partiam sempre antes que lhes pedisse: fique. Culpá-los? Não... Não ouso. Por mais que enchessem as tigelas, morri, estoica, de uma miséria anônima de dar pena até nos mais desacreditados poetas. E, no entanto, minha fome não era diferente daquela que sentiam todos os outros.  Eis-me aqui, lambendo até as tampas da profundidade e sem nunca saciar-me.  O muito é para poucos.
 
Lídia Martins

8 comentários:

Gabriela Lemos disse...

"É como um poema esquecido que anseia copiosamente pelo instante de ser passado a limpo. Apago-me, reescrevo-me, amasso-me, atiro-me ao lixo e, assim, em meio aos escombros de mim, me ressignifico."

Nossa que texto lindo. *-*
Amei. ♥

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Minha hora mais humilde é esta em que tento ser, ao invés de tentar parecer." lido todo o texto, concordo. No fundo, parece que é o que realmente tenta parecer...

Belo exercício de alma

Mª Fernanda Probst disse...

Eu vou soltar aquele frase clichê de gente que parece que não leu: que texto perfeito. Você veste uma doçura nas tuas linhas que é invejável, Lí.

Beijo meu

placco araujo disse...


"Minha hora mais humilde é esta em que tento ser, ao invés de tentar parecer."
Mas ser não é a razão da nossa existência?
Quanto a esta fome, que bom que ela não se sacia!

E, é fato...O muito é para poucos.

z i r i s disse...

U!


Me lembrei de Manoel e sua menção à borboletas que não machucam as próprias asas onde quer que pousem. Ou caiam. Ou mesmo morram. Oras bolas, se tudo tem um quê de eterno, que sejam as cores, as primeiras.


Mana, tenho tido quedas por gente que cai, gloriosa.


Um beijo


Zi

Carlos Roberto disse...

À procura de significados… uma caneta que se deita, ou alguém que se deita com ela, sob o manto da poesia. Sobre um leito de sonhos. Sobre uma escrivaninha. Belíssimo texto, Lídia. Impactante e profundo, vertiginoso, vasto como a própria fome. Fome de afetos!

Beijos pra vc...

annie l. disse...

Acredito que seja sempre essa mudança. Começar por você mesma. Deletar as outras pessoas,que passaram pela vida e que causaram transtornos."Quando medito, como frequentemente faço, sobre as coisas que fiz, algumas vezes digo a mim mesma: tente não se importar tanto. "

Anônimo disse...

Ler-te não é o mesmo que beijar-te, tocar tua pele e sentir minha boca seca depois do gozo. Eu pensei antes, sempre, que assim seria. depois de agora, o gozo em tuas palavras, penso e sinto eu, que é muito maior do que estar simplesmente entre tuas coxas.