11.09.2013

The Final Cut








 Eu sinto muito  comecei.
 Posso saber pelo que?
 Que tenhas esquecido o motivo pelo qual estivemos juntos.
 Mais vinho tinto? 
— Não, obrigada querido.

E, no entanto, o homem que só vivia na memória daquele retrato, havia regressado.  Não soube dizer se do presente, do futuro ou do passado. Inundado de saudade, suor e saliva, levantou-se na penumbra e, sem dizer nada, tirou uma a uma de minhas roupas, deixando-as cair sobre a cama acolchoada. Com a alma à mostra, deixei-me acariciar por aquela silhueta por segundos que pareciam ter se congelado dentro do relógio que ficava sobre a cômoda. Suavemente, deslizou as mãos pelo meu colar de pérolas, como se quisesse e pudesse apagar marcas de feridas já cicatrizadas. Eu te amo, eu te amo, eu te amo — sussurrava. Não fosse o tempo entornado, a intimidade debaixo daqueles lençóis teria bastado para reconciliar-nos. Olhei o teto. Meu reflexo, tal qual o tinha visto naquele espelho. Cortante. Ausente. Sereno. Como dizer a ele que amava outro? Como dizer a ele que havia perdido na espera a tremura invisível das pernas? Como dizer a ele que vivia a vida que tinha sonhado? Agora já não era preciso dar ouvidos às súplicas desesperadas da memória. Houvesse ou não sentimento, matei-o. Minhas mãos estão manchadas de sangue. E a única palavra que meus lábios conseguem gotejar é: Perdoe-me. Perdoe-me. Perdoe-me. 



Lídia Martins

10 comentários:

placco araujo disse...

Posso cometer o erro de, ao comentar, me estender mais do que deveria, pois este seu texto é conciso e lindo.

Punto e basta!!!

Leo disse...

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d'esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

José Joaquim Nunes.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não devia ter olhado o teto
Era altura para olha-lo nos olhos

Rafaelle Melo disse...

Pipa, que saudade! Não podia mata-la de melhor forma: deixando-te me matar com essas linhas.

Regressou uma lembrança ou uma dor?! Fiquei aqui engasgada e tu bem sabes porquê.

Te abraço.

Carlos Roberto disse...

Ninguém lhe havia dito, mas era o amor a percorrer-lhe a alma. Talvez a arte de, sob olhar, colocar passado e presente de mão dada. Talvez a dignidade de se deitar do lado certo da luz.
Mais um belíssimo escrito, Lídia. Na linha do que nos habituou. Parabéns!

Gabriela Andrade disse...

Triste, cortante, melancólico, bonito. No meio dessas linhas me vi mergulhada em minhas memórias também.

Quem escreve disse...

Lindo, lindo, lindo.
Ps: me destes uma ideia para uma série fotográfica. Bora realizar a ideia agora...

Carina Rocha disse...

Olá!

Como estás? Espero que te encontres bem. Estive muito tempo sem vir ao blogue, tanto ao meu como aos blogues que sigo. Quero recuperar esse tempo por isso sempre que puder vou tentar ler as tuas publicações porque se te sigo é porque, realmente, gosto.
Sou a autora do blog "Não procurei pelos teus olhos", blogue que agora pus privado, mas entretanto criei um novo, ei-lo:

http://odesassossegodosilencio.blogspot.pt/

Caso estejas interessada, sê muito bem-vinda.
Espero que goste.

Um beijo

Carina Rocha

annie l. disse...

Consegui me imaginar lendo este texto. Mto incrivel!

Anônimo disse...

Pipa *--*, Só me enche a alma de dor amor, não importa, me encontro ao lê-la sempre.

Pipa!