9.21.2012

VULNERABLE

A porta daquela casa suspensa entre os arbustos estava aberta, mas não se via ninguém nas janelas. Olho as folhas amarelas a enfeitar a escada de cordas. Há um frêmito de vento a balançar as copas da memória.
Os bichos de pelúcia a mendigar o reflexo da alegria atrás das vidraças, as bonecas de biscuit com as feições estranguladas, os velhos carrinhos estacionados nas calçadas das tardes solitárias. Todos à espera daquelas crianças que, sem qualquer explicação, os abandonara.
Eram indícios de que haviam crescido ou, talvez, diminuído. A realidade é que a fantasia lhes havia saqueado o juízo. E, sem que percebessem, envelheciam atrás dos muros que eles mesmos tinham erguido.
A agitação do coração, a sua tepidez de sol, o toque das mãos. E não restou nada, a não ser o vácuo deixado pela culpa das coisas tardiamente apreciadas. Cansada de correr atrás de fantasmas.
O barco de papel procura seu capitão, agora escondido no porão do navio. As palavras não ditas aportarão no cais de teus lábios, mais dia menos dia. Há um ancoradouro invisível no caminho. Consegue vê-lo marinheiro? Eu consigo.
A menina e o menino que pensava terem morrido estavam vivos. Passaram por mim ainda agora, correndo em direção àquela cadeia de montanhas serrilhadas. A chuva tornou a cair lá fora, como um véu de noiva imaginada.
E, quando dos tombos de bicicleta levantar o primeiro homem, aquele que vai gerar todos os outros, lembra-te do menino, esse que conserva em si a magia de todos os sonhos.
Agora desperte, coração dormente.

 
Lídia Martins

14 comentários:

Nei Duclós disse...

Belíssimo poema, emocionante. Mais uma jóia da nossa querida poeta.

Anônimo disse...

Como sempre lindas palavras tocando profundamente a alma de quem lê.
Parabéns, por tudo que nos proporciona.
Beijos
Louies

Be Lins disse...

De uma tristeza suave para as mãos de uma suave esperança avisada. Palavras de paz. Achei tão bonito que quase lembro do tempo em que acreditava que as fantasias tinham chance. Hoje não creio mais nelas, mas é inevitável perceber-las em beleza e poesia, ainda mais nas tuas palavras.

Que a vida te seja gentil e te traga bons avisos, Pipa!

Beijo

Be Lins disse...

* percebê-las

Roberta Mendes disse...

Sou vulnerável a crepúsculos, como o Pequeno Príncipe. Acontece de às vezes algo dentro da gente se por, o sol mais querido. Eis que completa seu trajeto e se despede, deixando-nos tardorosos, anoitecentes. Ensinam-nos os nórdicos que há dias de o sol não nascer. Acorda-se, vai-se ao trabalho, cumprimenta-se os vizinhos. E é como se tudo fosse a mesma e indivisa noite e a cidade uma massa insone de gente condenada a existir apesar do escuro, a produzir dentro do escuro. A neve forra-lhes os pés para andarem sem ruído. Os deuses dormem.

Reginaluz disse...

blog que me toca,sempre acompanho,sou uma fã.rs
posso apresentar meu blog tb?
http://vilarejodesinha.blogspot.com.br/
grata!
continue sempre a se inspirar...

Cristiane Melo disse...

Pipaaa *___* estava com saudades de ler tuas postagens...
Eu passei um bom tempo sem atualizar o meu mas como o bom filho a casa torna... voltei com a mesma proposta: Simplicidade e leveza!

http://portaldeideia.blogspot.com.br/

Anônimo disse...

Lindo, lindo, me faz desejar morrer num sonho como esse, rindo ...

Parabéns

Patricia Thomaz disse...

que lindo. Tão suave. Leve. Me trouxeram uma paz e uma saudade. beijinhos

Mariana Leal disse...


Seu blog é lindo, muito fofo mesmo*0* parabéns!! Já estou te seguindo amada =))

Convido voce e suas leitoras a conhecer meu blog

toobege.blogspot.com

Beijinhoooos ;**

Velho Santiago disse...

De menino eu entendo.. Eles passam voando, não?

Marisa Matos disse...

Sensibilidade!

Google disse...

hola, quiero decirte que me gusto mucho tu blog,porque tienes un estilo único. ya tienes un nuevo seguidor.
___________________________________
Fotomontajes Gratis

Anônimo disse...

Penso que tu crias um jeito novo, diferente de fazer e dizer poesia, contando uma história.
E deixando à nós; os que passam,um enigma ...
Te ler é bom, é tão desafiador e pretensioso imaginar e decifrar tuas letras, que sonhar desperto, enquanto se lê, tem um certo prazer sem fim.