A porta daquela casa suspensa entre os arbustos
estava aberta, mas não se via ninguém nas janelas. Olho as folhas amarelas a
enfeitar a escada de cordas. Há um frêmito de vento a balançar as copas da
memória.
Os bichos de pelúcia a mendigar o reflexo da
alegria atrás das vidraças, as bonecas de biscuit com as feições estranguladas,
os velhos carrinhos estacionados nas calçadas das tardes solitárias. Todos à
espera daquelas crianças que, sem qualquer explicação, os abandonara.
Eram indícios de que haviam crescido ou, talvez,
diminuído. A realidade é que a fantasia lhes havia saqueado o juízo. E, sem que
percebessem, envelheciam atrás dos muros que eles mesmos tinham erguido.
A agitação do coração, a sua tepidez de sol, o
toque das mãos. E não restou nada, a não ser o vácuo deixado pela culpa das
coisas tardiamente apreciadas. Cansada de correr atrás de fantasmas.
O barco de papel procura seu capitão, agora
escondido no porão do navio. As palavras não ditas aportarão no cais de teus
lábios, mais dia menos dia. Há um ancoradouro invisível no caminho. Consegue
vê-lo marinheiro? Eu consigo.
A menina e o menino que pensava terem morrido
estavam vivos. Passaram por mim ainda agora, correndo em direção àquela cadeia
de montanhas serrilhadas. A chuva tornou a cair lá fora, como um véu de noiva
imaginada.
E, quando dos tombos de bicicleta levantar o
primeiro homem, aquele que vai gerar todos os outros, lembra-te do menino, esse
que conserva em si a magia de todos os sonhos.
Agora desperte, coração dormente.
lídia martins
14 comentários:
Belíssimo poema, emocionante. Mais uma jóia da nossa querida poeta.
Como sempre lindas palavras tocando profundamente a alma de quem lê.
Parabéns, por tudo que nos proporciona.
Beijos
Louies
De uma tristeza suave para as mãos de uma suave esperança avisada. Palavras de paz. Achei tão bonito que quase lembro do tempo em que acreditava que as fantasias tinham chance. Hoje não creio mais nelas, mas é inevitável perceber-las em beleza e poesia, ainda mais nas tuas palavras.
Que a vida te seja gentil e te traga bons avisos, Pipa!
Beijo
* percebê-las
Sou vulnerável a crepúsculos, como o Pequeno Príncipe. Acontece de às vezes algo dentro da gente se por, o sol mais querido. Eis que completa seu trajeto e se despede, deixando-nos tardorosos, anoitecentes. Ensinam-nos os nórdicos que há dias de o sol não nascer. Acorda-se, vai-se ao trabalho, cumprimenta-se os vizinhos. E é como se tudo fosse a mesma e indivisa noite e a cidade uma massa insone de gente condenada a existir apesar do escuro, a produzir dentro do escuro. A neve forra-lhes os pés para andarem sem ruído. Os deuses dormem.
blog que me toca,sempre acompanho,sou uma fã.rs
posso apresentar meu blog tb?
http://vilarejodesinha.blogspot.com.br/
grata!
continue sempre a se inspirar...
Pipaaa *___* estava com saudades de ler tuas postagens...
Eu passei um bom tempo sem atualizar o meu mas como o bom filho a casa torna... voltei com a mesma proposta: Simplicidade e leveza!
http://portaldeideia.blogspot.com.br/
Lindo, lindo, me faz desejar morrer num sonho como esse, rindo ...
Parabéns
que lindo. Tão suave. Leve. Me trouxeram uma paz e uma saudade. beijinhos
Seu blog é lindo, muito fofo mesmo*0* parabéns!! Já estou te seguindo amada =))
Convido voce e suas leitoras a conhecer meu blog
toobege.blogspot.com
Beijinhoooos ;**
De menino eu entendo.. Eles passam voando, não?
Sensibilidade!
hola, quiero decirte que me gusto mucho tu blog,porque tienes un estilo único. ya tienes un nuevo seguidor.
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Fotomontajes Gratis
Penso que tu crias um jeito novo, diferente de fazer e dizer poesia, contando uma história.
E deixando à nós; os que passam,um enigma ...
Te ler é bom, é tão desafiador e pretensioso imaginar e decifrar tuas letras, que sonhar desperto, enquanto se lê, tem um certo prazer sem fim.
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