9.08.2012

SOM E FÚRIA

Num duelo sangrento entre a luz e a treva, a loucura aflora. O passado vem à tona, toma conta do presente e um rastro de som e fúria traça com pólvora o futuro da história.
Fechei os olhos e segurei-os bem dentro. Para invocar certas imagens é preciso empenho. Há algumas semanas, sonhei que tornava a vê-lo. Em sonhos, você falava sobre o tempo... Perguntei-me se já não era chegada a hora de esquecê-lo, mas as luzes de setembro inauguravam um novo sorriso diante de um inesperado acontecimento.
Nossos encontros eram cada vez mais raros. Às vezes tropeçávamos nos corredores dos manicômios judiciários, e antes que um surto de distasia lhe saqueasse os passos, ele marchava ebriosamente para o outro lado.
O egoísmo é a escara deste século. Impediu que as pessoas repartissem até acenos. Economia ou necrose de gestos?! Não soube explicar direito, sobretudo, porque naquela tarde segui o seu indisciplinado exemplo de orgulho, fazendo o mesmo. Com o passar do tempo, comecei a acreditar que eu tivesse desenvolvido alguma espécie nistagmo temporário. Depois de meses sem vê-lo, nas ruas, era cada vez mais difícil controlar o movimento dos olhos. De tanto procurá-lo no rosto de estranhos, as imagens se desestabilizavam e os reflexos tornaram-se involuntários. A probabilidade de doença ter se manifestado, naquele caso, era sete vezes maior, já que ele não havia deixado pistas de onde eu pudesse encontrá-lo.
Lembro que o observei pelo espaço de um quase um segundo, até que aquela miragem se perdesse em meio ao tumulto. Abri a bolsa, resgatei três cápsulas de codeína e coloquei debaixo da língua com a esperança de que elas me sedassem os lábios e, com sorte, o efeito do ópio impedisse mais um, entre tantos estragos.
— Vamos sair daqui — por telepatia, sugeri.
Com estudada indiferença, ele fez que não, mas o olhar o desmentiu, me dizendo que sim. Assenti em silêncio. Aquela que foi a última vez que o vi, muito embora, quanto mais distância tomava daquela recordação fantasma, ainda mais próxima ela ficava de mim. A morte estava perto. A menos de um metro.
— Corra! — socorreu uma voz rouca às minhas costas. A voz da mágoa.
Os joelhos, em fogo vivo, ainda tremiam. Mas os pés vacilaram e o corpo caiu, exausto. Com as mandíbulas desencaixadas, a alma avançava. Não consegui fugir do amor que ainda guardo por ti. Não consegui. Quando achei que pudesse mesmo esquecê-lo, voltei atrás e desisti. Se me atrevi a entrar em sua casa-coração foi porque pensei que estivesse desabitada. E estava. Mas uma vez dentro, não me tirariam de lá, nem amarrada. Devo dizer que minha estadia dentro dele tem sido algo pleno. Daqui tenho uma visão excepcional de seu solitário cemitério interno. A ausência é um condutor ainda mais potente que a presença. É a recusa do coração em aceitar a perda.
Eram ataques acintosos de palavras. O ar cheirava à pólvora. Os golpes vinham das sombras, de mãos anônimas. Agora a memória revisitava arquiteturas ultrajadas. Em vez de paisagens luminosas, esquadrinhavam-se suntuosos campos de batalhas. Esqueletos de desejos tentavam, em vão, matar a sede de pertencimento. Os ecos dos silêncios eram cada vez mais intensos. O que eles não contavam é que, o silêncio era elo invisível que ao invés de enfraquecê-los, fortalecia-os. Sorrindo à saúde de sua vingança solitária, apertava a caneta contra o punho até estilhaçá-la. Não era uma caneta, o que ele tinha nas mãos, era uma arma. De sedução?! Não. De destruição em massa.
Recolheu o tubo da caneta que, prodigiosa, o esperava no chão. Fez um traço no papel e, em seguida, deixou cair o pincel. O seio de uma flor de açucena se insinuava na tela, como um borrão de aquarela. Ansiava tocar o espinho, mas, traído pelo doce aroma, seus lábios roçaram a pétala. Não só para sossegar a inquietude do espírito, mas também para saborear o delicado prazer de ainda possuí-los.
Olho novamente para o cavalete. A imagem que esculpistes há poucos instantes, como um véu de sonho, desaparece. Não há ninguém ali. Não há ninguém. Ninguém. Nem o flerte adolescente, nem as risadas no portão de casa, nem as mãos do vento a levantar as saias. Nada. A tarde está se esvaindo em lágrimas. Turvas, escuras, supersticiosas. Das vidraças, observo as tropas bombardearem a rua erma em que fui criada. Os ombros precipitam-se uns contra os outros. Mas a guerra é santa, as dores se irmanam e a paz acaba proclamada.
Uma paisagem indissolúvel inunda as janelas. É setembro. Inauguro, então, a minha primavera secreta. A tela afundada no oceano do tempo foi devolvida pelo barqueiro. Em segredo, os pintores da noite aprendiam a técnica de aplicar o pigmento invisível do amor sobre a paisagem cinza, a fim de colori-la. O olhar ganhava novos tons com matizes em lilás, roxo, azul, rosa, uva, carmim, púrpura. O cheiro de rosas era intenso às nossas costas. A brisa do passado sorri e penteia a nossa cara salpicada de balas de festim. Eclode o broto crescido a conta-gotas de lágrimas sobre ele derramadas. O inverno da alma encontra seu fim. O coração se refresca na vontade fisgada das águas da espera, conservando intacto o reflexo de duas faces diversas que, suavemente, se misturam entre as pedras. Venta no céu e o sol brilha. Dois pássaros pousam alados em um pequeno galho, segurando no bico um fiapo  seco de capim dourado. Fico feliz que tenha podido vir. Bem sabes, é você a minha grande e inacabada obra de arte. A orquestra de Vivaldi explodia no radinho de  pilha. Não era de raiva, mas de alegria a sinfonia que os saudava. O desafio estava na inabilidade dos ouvidos em escutá-la. Pescando poesias em um lago de tinta. Este é o meu passatempo favorito desde a sua partida. Olha! Um verso acaba de morder a isca. Tomara que desta vez não seja uma bota furada de borracha.
Sempre que sua mão me toca, vicejo como uma rosa que o vento deflora.


Martins, Lídia.

7 comentários:

Nei Duclós disse...

Intensidade de Rimbaud, doçura de poeta de verdade, densa e dramática, e sempre maravilhosa. Nossa poeta.

placco araujo disse...

Em segredo, os pintores da noite aprendiam a técnica de aplicar o pigmento invisível do amor sobre a paisagem cinza, a fim de colori-la. O olhar ganhava novos tons com matizes em lilás, roxo, azul, rosa, uva, carmim, púrpura. O cheiro de rosas era intenso às nossas costas. A brisa do passado sorri e penteia a nossa cara salpicada de balas de festim. Eclode o broto crescido a conta-gotas de lágrimas sobre ele derramadas. O inverno da alma encontra seu fim. O coração se refresca na vontade fisgada das águas da espera, conservando intacto o reflexo de duas faces diversas que, suavemente, se misturam entre as pedras. A orquestra de Vivaldi explodia no radinho de pilha. Não era de raiva, mas de alegria a sinfonia que os saudava...

Que bom que o som que tocava no radinho de pilha era "As quatro estações" e não Introduction de Prince Negaafellaga, e que as novas cores tiram aos poucos o cinza deste inverno que se finda e salva a chegada da sua primavera, mesmo que secreta.

Cada dia mais gosto de te ler!

Beijos e_ternos...

Anônimo disse...

Amo os seus textos,fico feliz quando os vejo,pois sempre há uma dose de sentimento e uma capacidade de me fazer imaginar a cena,após cena.

António Jesus Batalha disse...

Olá , passei pela net encontrei o seu blog e o achei muito bom, li algumas coisas folhe-ei algumas postagens, gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns, e espero que continue se esforçando para sempre fazer o seu melhor, quando encontro bons blogs sempre fico mais um pouco meu nome é: António Batalha. Como sou um homem de Deus deixo-lhe a minha bênção. E que haja muita felicidade e saude em sua vida e em toda a sua casa.
PS. Se desejar seguir o meu blog,Peregrino E Servo, fique á vontade, eu vou retribuir.

Rafaelle Melo. disse...

Pra começar, tenho que perguntar diretamente: O que houve com aquela bebida secreta que fazia você calar entre-linhas?
Se foi esquecimento ou pura decisão não sei, mas a sinceridade escorreu pela tela desse computador que emoldura teu texto.
Mostraste a epiderme dos sentimentos, encharcada de sangue vivo.
Porque me parece sangue, mas pode ser tinta vermelha nesses teus quadros de lembranças e inexistências.

Estou passando por coisas, essas da vida, que agem como mudança de velhos móveis em sala nova. Os novos ares tem iluminado minhas telas, muitas ainda brancas esperando para ser pintadas. Há alegria no que não é também, Pipa.
Desculpe dizer assim: Eu, que amo tuas pinturas, desejo ver-te brilhar em tela nua. Talvez seja coisa desse meu coração, talvez seja esse sol entrando na minha nova sala.
Falando nisso, ela aguarda visita sua. Acho que vai gostar dela que é arejada e espaçosa para almas como as nossas.
Te abraço, para reforçar o convite e esperar a visita!

José María Souza Costa disse...


Vim cá, lê o seu blogue. Eu, tenho um. Muito simples, sem cores e sem nuances. Estou lhe convidando a visitar-me, e se possível, Seguirmos juntos por eles. Estarei lhe esperando lá, afinal o que importa é a Amizade que fazemos e as publicações que expomos.
Eu te Convido a vir aqui



www.josemariacosta.com

Velho Santiago disse...

Claro, terminas no ápice do movimento, quando uma bela e cheirosa rosa deflora. Perfeita sincronia. Perfeita simetria. O tempo se cala nesse instante.