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8.23.2012

A pedra no espelho

— Sou flor selvagem que arrancas à força do éden. Corta, amassa, desfolha, sufoca, mata e esconde sorrindo dentro de um livro — recitei tirando os fios de um sumarento gomo de bergamota antes de leva-lo à boca.
— “Flor é rastro de espinho...”— devolveu ele deixando escapar um suspiro.
Era quase uma lágrima, a entornar pelas estigmatizadas pálpebras. Eu tive que segurá-la. Se caísse, naquela hora, a alma secava. O dia amanheceu aborrecido. O som de um trovão partiu o céu, como um grito de adeus. O sol fazia menção de se afogar no rio, mas um bando de gaivotas acabou por dissuadi-lo.
Como um réptil úmido, negro e brilhante, foi assim que agosto continuou se arrastando pelas ruas da cidade. Uma primavera fora de época se insinuava pelas calçadas como uma recém-pintada aquarela. Viam-se os esqueletos de muros cobertos de hera e, por um segundo, tive a sensação de que minha alma vagava pelos becos soturnos de alguma espécie de submundo.
Quando o véu da noite caiu sobre a face da tarde, acenderam-se as luzes e os postes piscavam intermitentes como vaga-lumes. Excitei o pavio das velas com as pontas dos dedos, risquei um palito de fósforo e vendo que uma faísca bastava para lhe devolver-lhe o alento, coloquei em funcionamento o candeeiro.
Afastei as cortinas da vidraça, deixei que a brisa lunar se espalhasse pela casa e coloquei a improvisada ciranda de lâmpadas no alto da varanda. Sorri como uma criança quando o vento apagou aquelas chamas. Tornei a avivá-las uma, duas, três vezes, até que um arco de luz azulada se projetou contra a abóbada da sala.
Orientei-me pelos ecos, acreditando vê-lo esbarrar-se pelas porcelanas da casa, mas o que passava era apenas um velho morcego. Saiu pelas frestas da janela e bateu asas em direção à garganta da cordilheira.
Tirei do pescoço o amuleto, saqueei a cor do batom com as costas da mão, penteei o cabelo e dei uma última olhada naquele estranho reflexo antes de atirar a pedra no espelho. Estalei-me por dentro, como rachadura de gelo. No chão, perdia a conta dos sonhos espalhados, dos tantos desejos que, ao invés de esfacelarem, se multiplicavam. Juntando cacos de um olhar quebrado.
Quando criança desenhava arabescos. Alguns eram confundidos com rabiscos. Gosto de pensar que algum dia voltarei para aquelas telas, mas nem sempre acredito. Fiquei muda, como uma pintura. Era como se quisesse mostrar o que eu não conseguia falar. Toda arte é uma forma de fuga.
O que recordo de ti, por força do afastamento, às vezes esqueço. Houve tanto medo, que para não dizê-lo, as palavras saíram de perto. Mantenha distância do que não te soma. Não há grandeza em pessoas que diminuem o tamanho das outras.
Mastigando barras de silêncio. Têm consistência de concreto. Dessas capazes de passar em qualquer teste de cisalhamento. Fossilizados. Era assim que estávamos. Dos olhos cinzentos, espraiavam-se as sabulosas lágrimas do tempo...

Lídia Martins

14 comentários:

Lilian disse...

Tanta acidez e tanta doçura num só texto.
Adoro tua escrita Pipa!
E que de cacos estilhaçados sempre venham novos sonhos.
Beijos!!

Sara Carvalho disse...

E quantas vezes os sonhos quebrados aumentam ainda mais nosso desejo de realizar-se.

placco araujo disse...

Era quase uma lágrima, a entornar pelas estigmatizadas pálpebras.

Juntando cacos de um olhar quebrado.

O que é bonito, é que mesmo com o cinza com que tem permeado os teus textos, ainda assim são fortes e mágicas as imagens que crias para escrevê-los...

Beijos e_ternos, doce pássara.

Anônimo disse...

— “Flor é rastro de espinho...”— eu sei disso há tempo,que agarrei gosto por me espinhar... do tempo? Nem queira saber nem contar.

Rafaelle Melo. disse...

Hoje eu te confesso que não conseguirei ao menos te comentar. Se não bastasse a dor já sentiada cortei-me em pedaços poteagudos de gelo que havia entre as linhas que acabei de ler.

Eu tinha ouvido o barulho das rachaduras no gelo grosso, mas custo a acreditar no que é para o meu próprio bem. Sou mais apegada ao que sangra, vai entender.

Rachou.
O estrago está re-feito.

Minha esperança eu re-encontro quase no fim desse teu texto cortante e belo:

"O que recordo de ti, por força do afastamento, às vezes esqueço. Houve tanto medo, que para não dizê-lo, as palavras saíram de perto. Mantenha distância do que não te soma. Não há grandeza em pessoas que diminuem o tamanho das outras."

Eu quero ao meu lado pessoas grandes o suficiente para alternar pequenez comigo.
Te abraço pequena, com todo carinho, brincando de alternâncias.

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leav disse...

Amei o texto,gostei da maneira como você escreve,suas palavras acabam se entrelaçando cada qual pertence a outra e juntas parecem que há música,amei outras partes do texto,mas preferi ter escolhido essa:Mantenha distância do que não te soma. Não há grandeza em pessoas que diminuem o tamanho das outras.

Antônio LaCarne disse...

menina, que texto mais lindo! e eu me pergunto como não apareci por aqui antes.

Fernanda Curcio e Leonardo Macedo disse...

Como pode ser estalar-se feito rachadura de gelo, se voas alto, onde o ar não é rarefeito?Neste lugar as substâncias aéreas não permitem a presença do que cai.

E você, sendo pássara, tem sua residência entre os ares longínquos, na permanência sem os ponteiros do tempo.

Beijos querida!
Fernanda

Fabi disse...

Lindo texto!!

Leo disse...

Dizem que tudo que é gelo pode derreter, porém, tudo que se torna liquido é um pedaço de mar, de tempestade, de transbordamento. Entretando, essa fusão é dolorosa, o gélido transforma-se em mar de gota em gota, lagrimas sofregas, mas é no interior que se formam corais e toda sorte de cores.

Lindo Pipa!

beijo-te.

Be Lins disse...

E eu tenho por dizer que você me acalma.

Beijo, Pipa,
flor que dança no ar.

António Jesus Batalha disse...

Olá , passei pela net encontrei o seu blog e o achei muito bom, li algumas coisas folhe-ei algumas postagens, gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns, e espero que continue se esforçando para sempre fazer o seu melhor, quando encontro bons blogs sempre fico mais um pouco meu nome é: António Batalha. Como sou um homem de Deus deixo-lhe a minha bênção. E que haja muita felicidade e saude em sua vida e em toda a sua casa.
PS. Se desejar seguir o meu blog,Peregrino E Servo, fique á vontade, eu vou retribuir.

Ceres disse...

Quanta coisa mudou por aqui... Parece que o inverno chegou até para o seu imenso jardim, não é?
Mas que seja por um dia, e não um ano inteiro, não passe seu agosto esperando setembro. Faça algo novo, mude alguma coisa. E aí essa coisa irá mudar você. Conheça alguém novo.
A menos, é claro, que essa tristeza seja só fruto da imaginação. Nesse caso, tudo bem, de vez em quando todos precisam de alguém que entenda sua tristeza.
Beijos, Pipa.