7.31.2012

Miséria anônima

 De humana, restara-lhe apenas a sombra — pensou ela enquanto afugentava com um ramo de alfazema, as traças impossíveis que nasciam do ventre de uma velha poltrona.
Passava horas contemplando as infinitas tonalidades de gris que se estendiam atrás das cortinas. No torpor dos dias, via a brasa de seu olhar se apagar em vida, sentindo que por trás daquelas paredes o mundo e tudo que nele existia começava a se transformar em um amontoado de cinzas.
Nas altas horas, se revirava entre os lençóis da cama em companhia de lembranças que lhe faziam talhes enormes na madeira cinzelada da memória. Chegou ao absurdo de pensar que sua alma estivesse presa em outros mundos, surpreendendo-se, não raras vezes, correndo atrás de quimeras de aparência dantesca, figuras com corpo humano e duas cabeças anexas, sendo uma de peixe e outra de serpente. Rogava aos seres míticos que viessem em seu auxílio, mas como sempre, as feras estavam ocupadas demais com a sua cólera para salvar o que ainda restava. Quase nunca respondiam e, quando o faziam, transformavam-se em juízes hostis cujos corações perversos acabavam por condenar o que ainda lhe remanescia de divino.
Uma noite, recuperou-se do transe. Desatou as correntes que lhe aprisionavam no sótão da mente, deixou aquele quarto sorumbático e saiu às ruas, quase que em um estado iluminado. Decidiu que devia entender-se pessoalmente com Deus, pois, com o Diabo já havia colocado suas pretensões em pratos rasos, de modo que ele foi obediente e se manteve afastado.
Levantou suavemente a cabeça, deixando-se banhar pelos raios daquele sol invernal que filtravam dos vitrais da igreja. Não pensou no passado. Todas as imagens sacras abriram os olhos de pedra para vê-la, mas ela não pareceu incomodar-se, já que os seus pés estavam assentes na terra.
 Duelos de silêncios são sangrentos — murmurou ela sem qualquer agitação nos nervos. Uma eternidade mais tarde, vendo que Deus não respondia aos seus lamentos, compreendeu que devia deixar aquele local, antes que a falange do Divino Espírito Santo se arrependesse de ter lhe concedido o direito de escutar suas preces e a única frase que conseguiu trespassar de seus lábios desencadeasse uma hecatombe celestial.
A mulher se benzeu e deixou o altar antes mesmo que o sacerdote chegasse. Entendeu que Deus não poderia estar em um lugar onde os arcanjos se ofendiam ao menor suplício, cochichando entre eles, mormente em idiomas estrangeiros que passavam largo de serem compreendidos.
Voltou para casa derrotada, deslizou sigilosamente até a porta e antes que girasse a fechadura sentiu que uma vaporosa mão de luz pousava em suas costas. Virou-se em câmara lenta e topou com um olhar sereno, de abandono. Os olhos de Deus — reconheceu.
Deus levou uma das mãos ao seu coração e desejou fortemente:
— "Permita que eu entre..."
— Com uma condição — exigiu dele. A de que fique para sempre.
Ela não se deu por achada até que Deus começou a chamá-la pelo seu nome no alpendre de casa. Foi com o folguedo de uma explosão que a bala da fé se alojou em seu coração. Sentiu que suas pernas e braços recobravam o ânimo perdido e que a miséria anônima que lhe relegou à uma existência fantasmagórica desaparecera como um truque de mágica que se tira da cartola da memória.
Esta manhã tornei a vê-lo. Em sonhos. Tão menino. Corria de um lado para o outro com um sorriso incansável no rosto. Rabisquei seus traços em meu caderno de anotar destinos. Era eu ali no canto. Tentando recordar os estranhos que sempre fomos.
Há algumas décadas atrás, fiz um rosário para colocar sobre o túmulo da inocência. Usei flores de alfazema. As rosas eram inacreditavelmente violáceas. Deus veio em minha direção segurando um círio branco nas mãos, mas não soube me dizer onde ela estava enterrada.
Reinventa-nos oh Homem Rocha, a perdida força.

Lídia Martins

13 comentários:

placco araujo disse...

Menina...
Que coisa linda o seu jeito de escrever!!!
Você nos transporta a um mundo de metáforas e poesia, que nem sequer sabíamos ser capazes de percorrer..

Só me pega um pouco a cor um pouco mais cinza do que eu gostaria...pra você!!!

Beijos e_ternos.

Lia Araújo disse...

Deus tocou no meu coração e ele se refez dos antigos cacos...

Ele tá sempre aqui... e realmente, Ele não demorou e caprinhou...


beijos querida;;;

Bruna Morgan disse...

Realmente é um texto muito bom!

bruna-morgan.blogspot.com

Nei Duclós disse...

A emoção perdida do nosso tempo encontra em Lidia Martins uma das vozes mais sublimes e poderosas. Ela está só porque voa alto demais. Lá ela conversa com a divindade. E esparge sua luz em palavras até nós, os aprendizes do amor.

Fernanda Fraga disse...

Pipa, que coisa preciosa.
Sublime! Tenho êxtases poéticos quando leio esse Céu.
Um bj
Fer.

Cyran Sole disse...

Deus é o que eu sou e tu é. Acredito que somos isso e assim; por isso a terra é o que é, se renova num amor sem fim.
A mágica é amar ou tentar, porque não tem como escapar disso, e você fala com muita propriedade- em seu texto, sobre isso.

Rafaelle Melo. disse...

Pipa querida!

Que teu texto é belo eu nem preciso dizer, ele fala por si!

Encontrar Deus é sempre um caminho, que se envolve sensibilidade, exige em dobro coragem.

Vi uma coragem incrível em cada poesia declamada por ti nessas linhas. Coragem tão rara.

Se a inocência foi enterrada sabe-se lá onde, não nos preocupemos. Paremos de chorar sua ausência, de velar o que já não existe, e nos lancemos neste mundo que acaba sempre por nos mostrar que há uma nova inocência a ser revelada.
Re-velemos presentes.

Com meu carinho e constante companhia, te abraço.

Sara disse...

Pipa, linda menina, doces palavras, a vida aqui muda de tons...adoro!!!

Jessy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jessy disse...

Que belas linhas, Pipa... sempre me perco no encantamento que é esse teu céu particular.

z i r i s disse...

Alguém me disse que alguém me disse que, algo assim, quando esta mais escuro é que esta mais perto de clarear. Talvez tenha sido isso. Que seja, fiquei com a moral da história. Bastou. Ai se não.

Dia desses, um ateu me perguntou: quem é Deus? - Até ri, sem arrogância alguma, mas ma pareceu uma grande pegadinha. - Deus sou eu! Eu! - eu não poderia acreditar em alguém que não acreditasse em mim primeiro, oras prima. Pisco, sou Deus. Sou fome, sou Deus. Sofro, sou Deus. Festejo... Ah meu Deus, com sou Deus e sua flores violáceas e suas tranquilidades de tempo, de esperas. Somos.

Prima, que texto difíiiiiiicil de comentar, mas foi mais ou menos isso aí. Tem veiz, que a gente é só que se perde é da gente mesma, uai!

Te amo!

Ziris

Be Lins disse...

Conte-me,
_ e Deus tem fome de quê?
Conte-me, please!
para que eu tenha algo preparado ,
isso, claro, se um dia Ele resolver vir me ver.

Como Ele é, Pipa?

Beijo de alegria

Lilian disse...

O que mais me encanta em Deus é a capacidade que nos deu de juntar os cacos e nos refazer basta abrirmos o coração.
Um beijo.