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7.20.2012

A premissa de teu céu






"Eu estava aqui juntando frangalhos de vida quando vi teu céu ruir num púrpura colossal; como num ensaio de abismo, navalhadas rasgaram-se nas nuvens que te sustentam e, talvez em teu respeito, até a última ave se calou. O silêncio inundou esta cidade de que tanto falas, e todos nós, coitados humanos de corações calejados, só conseguiamos olhar para as nuvens que se desmoronavam sobre nós. A brancura sangrava e, para quem vê de baixo, era tempestade que a gente pressentia. E além de silencioso, tudo foi se tornando escuro. As longas nuvens que se portavam num branco impecável agora se misturavam na cor de chumbo, enlameavam-se, acinzentavam-se, e ninguém mais viu sol nenhum.
De onde veio essa tristeza? Perguntei-me recolhando os fiapos de vida no bolso. Eu preciso falar-lhe. Tomei o último gole do café da xícara antes de deixá-la esquecida em alguma das bancadas e preocupei-me avidamente com a passagem. Você bem sabe, voar é a tua arte, nunca foi a minha. Mas ainda sim, faço questão de te encontrar em tua morada, te encontrar no ar. Foi um ameno voo metafórico. Com tantas alegorias de tua autoria na estrada, não foi difícil de encontrar a tua casa, ainda mais pelas duas lápides de mármore alguns metros de tua porta: Aqui jaz o Monstro de Chocolate, aqui jaz o Monstro de Groselha. Não me importei com as orações, mas sim com a vista. Mesmo que abalado, teu céu é um espaço lindo.
Bati na porta na esperança de que estivesses em casa. Foi descortesia da minha parte não ter-te avisado. Mas amigos bem são dessas coisas: é nossa função agirmos sem sermos solicitados. - Pipa, não me deixes aqui na porta!, soltei da quarta vez que toquei a companhia. Tudo bem que não estavas preparada para tamanho infortúnio, mas ainda sim era linda, com olhos tão misteriosos e a retidão tão majestoda de tua face. Havia cansaço, daqueles de castigar, mas não foi minha primeira preocupação, antes de tudo um abraço. Deixei minha mala em qualquer canto daquele lindo hall gregoriano com piso trabalhado em mosaico de sonhos. Conhecendo-te da forma que conheço, sabia que tudo era encantado. Só assustei-me com a quantidade de espelhos. O que fazes com todos eles? Logo entendi que os trincados são mais profundos que o reflexo de dentro.
Passadas nossas primeiras delongas, contastei-me sobre teu céu. Bárbaros sem dó ameaçaram de invadí-lo. Como defensor de todas as palavras, também senti-me indignado. Ameaçaram-te de levar tuas posses, ameaçaram-te acabar com teu trabalho. Mas não esqueça, moça Pipa, a crença tem de ser mais forte. Agora já na cozinha, tomando chá e discutindo as amarguras da vida, sabes que nunca poderás desistir, não sabes? Fizestes a mesma promessa que eu: uma vez construído teu céu, deverás resguardá-lo com todas as palavras possíves para todos os bem aventurados que por sorte atreverem-se por estas bandas. O nome disso é esperança. O céu é infinito e é tanto céu que derrama.
Não sei qual foi teu começo, mas não deve ser muito diferente de algum ato de amor. Por mais que o amor seja altamente criticável e por mais que haja doação demais de nossa parte, em cada uma das vezes que nos encorajamos a escrever, escrever, antes de qualquer coisa, é um ato de amor. Enquanto escrevemos somos mais fortes. Se pudesse falar com teu grilo, sei que ele concordaria. Não poderás desistir. Não há conselho melhor do que o que diz para permanecermos; vibrantes, impávidos, resolutos. Com esse pensamento tirei do bolso tudo que guardei e soprei nos teus ventos. Talvez eu não tenha nada a contribuir, mas talvez tenha, e se eu tiver, que te faça bem. Entendi que teu problema é só de tempo. Tuas nuvens feridas e roxas haverão de curar-se quando o sol nascer. Tudo se tingirá de dourado. O tempo é pai e mãe da restauração. Das forças que mais acredito, Pipa, é na do restauro.
O sol com seu sorriso quente acende todas as coisas. Tudo se resolve na calmaria que se faz necessária, cada problema na sua própria, cada problema na sua finitude. Descansa esta noite cinzenta que ficarei velando por ti, e amanhã, ou depois, tudo estará de volta, tua força e teus pássaros. Vá! Decrete que teu céu fique sereno novamente. A palavra é forte, bem sabes. Decrete que os bons ventos venham, que aqui em cima, onde a grande dama noite estende seus cabelos de breu; decrete que os sonhos sejam inabaláveis, que a sorte seja duradoura, que a perseverança seja inegostável, que as preces se façam audíveis e que este Deus soberano sobre todas as coisas habite em nós da mesma forma como nos habita o amor. O céu é teu e o céu não é o limite. Aqui na tua casa já encontrei todo tipo de conselho, de providência, entendi quanto amor depositaste: repito que este céu não é o teu limite.
Oh, vejo que nosso sol rompe em frestas este martírio que ocupa teus ventos. Rompe a barreira do irremediável e renova as forças dos braços cansados de navegar atrás da paz que procuramos nas ruas e vielas da cidade que se encontra em pleno sono abaixo deste céu. Chega a hora de minha despedida, moça Pipa. Você bem sabe que é com extremo carinho que te guardo nas minhas prateleiras. Um pequeno totem, uma pequena garça. É um lembrete, um lembrete da importância de não ter medo dos recomeços. Precisamos de recomeços todas as vezes que precisarmos começar. O recomeço é outra força poderosa, é a sensatez de todos os caminhos, é a resistência que se nega à derrota, é a promessa do possível. Com o abraço que sempre me abraças, deixo-te. Que nunca te roubem de você. Amém."


Artista: Cristiano Guerra
Blog: Oficina Terrosa: http://oficinaterrosa.blogspot.com.br/

 A premissa do céu, texto delicadamente forjado pelas mãos do artesão de palavras Cristiano Guerra do Blog: Oficina Terrosa. Ser não tem conserto, mas tem remendo. Quando o leio, é o que penso. Cris, meu Albatroz do totem, sabe porque razão fiz um totem dos meus amigos? Não queria acordar amanhã e pensar neles como se nunca tivessem existido. "Cristiano Guerra. O ALBATROZ. Introspecção. Inteligência. Independência. Na mitologia o Albatroz estreou como herói dos ventos e das marés por falar a linguagem das correntes. De todas as criaturas de sopro existentes no planeta terra, o Albatroz é a mais grandiosa delas. Nada mais precisa este mensageiro, além de asas e vento. A graça aérea de maior envergadura do Totem. Ele é um fenômeno em si mesmo. Limpo. Sólido. Decidido. Enquanto todos os outros usam sua força para domar os ventos, ele aproveita-o." Cris, foi uma experiência fantástica conectar-me com o teu espírito.  "Aqui jaz O Monstro de Chocolate..." Ainda me surpreendo quando tentam recordá-lo, sabe? Todavia, é prudente que  não tente desparafusar a tampa deste caixão tobleronado.  Só tenho lembranças doces, não imagina o quanto seria amargo. E Torah?! - o grilo rabino que mora comigo. Continua em suas intermináveis expedições para o infinito.Torah tinha mesmo razão quando disse-me que "as pessoas que amamos nunca morrem, viram sol." Se quiser falar com Torah, procure por, rs, Mendes Roberta. Ela deve saber onde ele está. Eu ia dizer outra coisa, mas as palavras expandiram suas asas e bateram  em revoada no céu da minha boca. Cristiano: ilumino-te, iluminas-me. Brilhamos. Neste dia do amigo, é o que sou capaz de nos desejar por enquanto. Como é do conhecimento de todos, meu blog sofreu uma invasão. Um vírus foi implantado no site de hospedagem da imagem e temi, lamento, que o trabalho de todos estes anos se transformasse em fumaça no vento. Por sorte, o Web design responsável conseguiu recuperá-lo. Confesso que meus dedos ainda se sentem intimidados a publicar neste espaço. Tenho recebido comentários (ênfase aos da vestal do anomimato) e e-mails que, honestamente, são de fazer com que qualquer um fique descrente da arte. De alguns textos tive que recolher os comentários de tão agressivos que soaram. Houve considerações tão absurdas, que vínculos que até então eu supunha importantes, tiveram que ser cortados, contra minha vontade, é claro. Minha decisão foi de partir o coração. Mas devido ao  alto grau de abalos sísmicos, foi inevitável que a foice viesse para impedir que nós, poetas famintos, sucumbíssemos à vertigem dos abismos. Que ela nos apare então, arrancando pela raiz os venenos que nos empeçonharam o espírito. Até de esquizofrênica fui chamada, corrijo, elogiada. Devo dizer que vossos diagnósticos não estão de todo errados, pois, quem me conhece pessoalmente sabe que em minha família existem inúmeros casos e vai ver que só depois que comecei a escrever é que me dei conta de que a doença deva ter mesmo se manifestado. Por aqui a loucura foi repartida ao meio. Deve ser esta a razão pela qual as pessoas normais nos acham meio loucos, porque ainda não temos um louco por completo. Tenho imaginação delirante e talvez o meu grande erro tenha sido passá-la adiante. Não são todos os que a compreendem e nem esperava que assim o fosse, mas esperava que a respeitassem. Até meus pais estão ficando preocupados porque, bem, dialogar com a minha própria sombra é o mínimo que faço. Que o diga In.: Espelho Quebrado. Reflexo Intrincável. "Mas você veio, Beija-flor. Brincas na varanda de meus olhos frios. No espelho, teus gracejos aéreos restituem um reflexo perdido." Lembrei disso. Desconfio que a esquizofrenia seja a matéria prima de que é feita a poesia. Estudando a lógica dos loucos, me oriento. Arrepia-me a valentia com que tentam por fim aos desesperos. Quase padecem, de tão intensos. À parte isto, trabalho para um renomado escritório de advocacia, estudo, saio com os amigos, corro todas as tardes no parque da cidade, namoro, vou ao teatro, ao cinema, à academia. Nas horas que me sobram e que nos últimos tempos são rarísimas, sou contista. Juntando todos estes ingredientes de normalidade, me permito concluir que também tenho uma vida. Mas depois de todas estas sucessões de estampas góticas, confesso: De humana, restou-me apenas a sombra. E não vou mentir meus caros, para um poeta, não existe morte mais deplorável que a morte do entusiasmo. Entreguei-me aos hiatos. Nem só de continuidades vive o homem. Vida longa aos intervalos!?
Desejo a todos um feliz dia do Amigo. Que nossas mãos tenham forças para derrubar muros altos e construir infinitas pontes dentro de um abraço avarandado.
Até qualquer sábado...

Pipa.

6 comentários:

z i r i s disse...

Prima!

O link que incorporou para irmos conhecer o Cristiano Guerra, não esta funcionando direito. De qualquer forma eu dei um google e encontrei, rs.

Hoje, dia do amigo. E recebes esta prova literal de uma dedicada e leal amizade. E se não foram nas letras, que encontramos os mais efetivos consolos, ainda que não cura, mas conforto, não é prima?
Nas nossas próprias letras e nas de quem, por conta delas, marcará para sempre nossa existência.

Às vezes, as pessoas encontram na gente o que há de mais simples e é uma felicidade saber que puderam chegar tão longe!

Feliz dia do amigo!


Beju

Be Lins disse...

Não desejei Feliz Dia do Amigo à ninguém hoje. Vim saber desse dia, na verdade, aqui, nos teus escritos preciosos. Não foi um bom dia, sabe? Tem dias que são complicados, é danado!

Mas aí eu li essa carta emocionante do teu amigo Cristiano, vi vc falando dos totens, atribuído a mim a honra da Coruja, e decidi desejar á você um Feliz Dia do Amigo, por tudo que você já escreveu aqui, lá pelas minhas bandas, e por me considerar pela sua vizinhança. Fica o abraço e o beijo, pra você, Pipa, que fez esse dia ser lembrado pra mim.

Um beijo.

Be

placco araujo disse...

Doce Lídia...
Eu nunca soube até que existia esta tal dia do amigo, embora acredite que dia do amigo sejam todos os dias, pois em última instância é com eles que contamos quando a vida nos dá alguma rasteira ou tenhamos algum tropeço provocado por nós mesmos!
Não sou leviano a ponto de me considerar um amigo seu, mas luto para que isto aconteça algum dia...
Dizem que não existe amizade entre homem e mulher, mas discordo e tenho a mais absoluta certeza de que você seria sim uma grande amiga, destas que a gente pode contar a qualquer hora, e que rasgaria o céu como num raio só para nos encontrar, aonde estivéssemos e se precisássemos...
Aliás, ao escrever tal frase me veio à mente uma música que não é da sua época, mas que deve conhecer...
"You've got a friend"...
Pois você tem aqui um esboço de um amigo, já no molde pronto a se tornar real...
Bom dia... bom tudo!!!

Wilson Vaccari disse...

A gente podia se ver no Bar

Winny Trindade disse...

Pipa, estive distante daqui, estive distante de muitas coisas... Voltei, voltei a mim, voltei a ler o que tanto me aquece o coração.

Abraço forte meu.

Lia Araújo disse...

Minha querida.... que seu intervalo seja breve... ando mais reticente... andei por outros planos... mas, venho sempre te ler.

Tens não só meu respeito... mas, minha compreensão e carinho... afinal, amamos muito e as vezes, fica tedioso continuar a amar desse jeito... e o que fazemos depois? Mudamos a rota... pq amor não morre, muda de direção...
e aí? Só por curiosidade... como anda os monstros? Eu por aqui... achei um monstrinho muito fofo... roubando suas nomenclaturas...diria que ele é um monstro de algodão doce. Ainda não escrevi nada pra ele... pq sei quando o fizer... será oficial... Pipa, saudades suas... ando lendo muito ainda... vc é uma das minhas leituras favoritas...beijos querida!