Header

Header

6.20.2012

Vida com cara de intervalo

Que saída é essa? contornei consciente da cilada que me esperava.
Tem alguma coisa errada  pensei. A placa dizia para cruzar a porta do umbral, não para adentrá-la.
Abri o mapa.
À minha frente, em um único plano, as estradas se retorciam como mandalas tecnicolormente cruéis de ilusões de ótica.
Pelas trombas nirvânicas de Ganesha meditei. Dai-me visão, possibilidades, alguma inteligência e, sobretudo, uma dose extravagante de paciência – afastei supondo que teria sido vítima de algum ritual macabro de magia negra.
Balancei a cabeça com aquele gesto fúnebre de ciência médica que aprendi na infância quando diagnosticava o estado de saúde precário de minhas bonecas. Olhei em volta. Meus olhos varreram o chão como se esperassem encontrar alguma resposta na poeira que a brisa espalhava e nada. Era como estar dentro de um oásis infernal que aparecia de desaparecia quando bem entendia. Fiquei observando minhas pegadas sumirem por aqueles labirintos vivos, sentindo que meu corpo se distanciava da alma a cada passo que dava.
Abri o manual de instrução de Franz Kafka na esperança de que ele tivesse alguma sugestão para amenizar o horror que me esperava. A primeira lição: "O sentido da vida é que ela termina." Franzi o cenho com um semblante pessimista e repeti aquela frase até ficar convencida.
Som a som, a voz autoral extravasava para o fundo sem saber do seu próprio mergulho no mar turvo da imaginação. As vozes eram visões proféticas da consciência a bater o cajado sobre as águas escuras da emoção para que elas se levantassem e, quem sabe, impedir que os exércitos internos e externos se precipitassem para além de sua dimensão já que não era possível impedir que eles se enfrentassem. Ou não. A voz era o mapa da mente a exigir de seu descobridor a latência da busca, ao triunfo de finalmente encontrar o que se procura. Sorri à saúde daquele desapegado escritor tcheco, pensando com certa alegria que, inversamente, o sentido da morte é que ela ressuscita.
Coloquei o lápis em riste e cocei a ponta do nariz. Era preciso refazer a rota. E onde depositar a fé do encontro senão no caminho de volta? Sempre acreditei que devesse esperar o momento certo para dizer a todos aqueles que cruzaram o meu caminho o quanto eles são importantes. Considerando que minhas histórias sempre começaram e terminaram em um cemitério, nada mais apropriado do que este momento, de morte. Momento em que encerro este luto simbólico pelo enterro dos erros, das culpas, dos medos, dos arrependimentos, para que, diante de nós, serenamente, a alma-palavra possa ganhar forma e estender esta ponte contínua de afetos presentes. Elas nada pedem, exceto que eu atravesse. Meu coração bate como um par de castanholas por me postar diante de vocês, assim, tão ritmicamente. Foi um convite irrecusável à metamorfose, à transformação profunda, à coragem de jogar fora um passado velho, para que um novo presente entre.
Quando consegui me convencer de que não poderia mais parar de escrever, voltei para a escrivaninha. As velhas canetas que abandonei sobre a bancada da mesa pareciam sorrir, como numa convenção coletiva de cumplicidade maldita.
Mesmo tendo contraído a doença das palavras,  não tive dúvidas de que viver a vida ainda é melhor que imaginá-la. Mas uma coisa é certa. Não se deve deixar histórias pela metade, sobretudo aquelas que valem a pena ser contadas. O palco da existência é vasto demais para deixarmos de acreditar que amanhã não haja outro cenário, outros personagens, outros enredos, outros aplausos. Em todo caso, para toda boa trama é necessário um intervalo. 
Fui andando até o quarto e sentei-me em cima de um tapete acolchoado. O ar cheirava a sândalo. A pressão sobre os pulmões tinha se evaporado. Ajeitei as costas numa posição de monja tibetana, cruzei as pernas, respirei, expirei e inspirei.
LAAAAAAMMM
VAAAAAAMMM
RAAAAAAMMM
YAAAAAAMMM
HAAAAAAMMM
OOOOOOOMMM
E-E-E-EEEEEEMMM remixei.
É como um ritual de purificação. Não se chega ao cosmo sem passar pelo caos. Tenho consciência Krishna. A todo o tempo morro e renasço. Em um espírito mais sábio? Não. Em um espírito mais sóbrio, eu acho.

Lídia Martins

16 comentários:

Rafaelle Melo. disse...

Sóbria ou não, quando escreves abres as possibilidades de infinitos mundos. E eu não canso destes mundos que tu crias: contando, recontando, descontando.

É com um alívio no peito que te comento, hermana. Quiseste me matar do coração?
Nenhum texto de cemitério será pior do que a morte da tua esperança nas palavras!


Bom, mas não posso sair daqui sem falar deste texto, ainda que mais uma palavra posta além dele seja irrelevante. Essas tuas linhas já me eram conhecidas, de algum lugar aqui dentro, em um tempo não distante. Há um estranho e contínuo elo. Talvez nunca o entendamos.

Te abraço. Me abraças. Silenciamos.

Patrícia disse...

Adoro essa mistura de imaginação com sentimentos... dar um palco, um cenário para o que está se passando dentro da gente.
Adorei essa parte em especial :"Mesmo tendo contraído a doença das palavras, não tive dúvidas de que viver a vida ainda é melhor que imaginá-la. Mas uma coisa é certa. Não se deve deixar histórias pela metade, sobretudo aquelas que valem à pena ser contadas. O palco da existência é vasto demais para deixarmos de acreditar que amanhã não haja outro cenário, outros personagens, outros enredos, outros aplausos. Em todo caso, para toda boa trama é necessário um intervalo. "

Eu estava em intervalo...

Beijos

Alvaro Vianna disse...

A páscoa lidiana tem tempo próprio e deserto particular. Nas areias feitas de palavras desgastadas pelo vento da descrença os pés queimam e tem efeito de acelerar a travessia, contrariamente à solidão das noites que se intercalam. Noites de reticências.
Para o bem do universo literário, a Pipa ressuscitou. Traz a esperança de uma vida diferente, de uma poesia renovada. Versos tradutores de alegrias muitas. As palavras, agora restauradas, formam rio caudaloso a fertilizar todas as terras que também desejem criar vida. Vida evoluída, que espalha raízes fortes e cura a que estava fraquejando.

Beijo em tua face rediviva

Be Lins disse...

Estou sorrindo junto com as suas canetas. Você tem muita coisa para contar.

Saudades tuas,

Be

Sara disse...

Folgo em saber-te presente, um belo presente, assim podes ir de vez em quando, pois o alívio de te ter de volta é maior do que o desânimo de ver-te ir. bjs

Márcio Vandré disse...

Pipa, que bom que ainda continua por aqui. Bom lê-la, nesse misto de fantasia e realidade. Quisera eu, e, aposto que todos nós, que a afirmação do Kafka fosse irreal. Uma hora terminará o nosso tempo e não acharemos que tenha passado o suficiente.
Abraço!

placco araujo disse...

Tenho notado que você se afastou do face, ou então me afastou, pois não consigo enxergar mais a sua página...

Espero que esta sua volta para as palavras e as histórias ainda a serem contadas, marque seu retorno ao nosso mundinho. Sinto falta das suas palavras... sinto falta de você...

Um beijo e_terno!!!

z i r i s disse...

Prima,


nossos olhos tem vista pra palavra.

É ou não dessa forma, que carimbamos de uma vez por todas nosso nome no mundo? Então voltamos, como páginas não compreendidas. Estamos grifadas e rabiscadas, sangradas nas margens brancas, podemos voltar desenhando girassóis.

A imaginação é a memória que enlouqueceu, disse Quintana. Concordo. Qual a vantagem, penso eu, em estar são?! Até tu prima em seu momento mais zen, esteve a poucas letras de endoidar. Desiste de bestagem, escrever não é uma doença. Escrever é a cura.


Te abraço.

Ziris

z i r i s disse...

P.S.: Adorei esse troço de deserto particular que o cumpadi Alv compôs.

O N Z E P A L A V R A S disse...

saudades das suas palavras

Wilson Vaccari disse...

Ungu, dialeto desconhecido na área, origem inindentificada, vem do espaço sideral dentre meteoritos virgens ou dos infernos que o secretário da habitação deixou construir na minh'alma lma lma? Then u said so long and left me standing all alone, understand that the touch of your hand can start me crying, te proclama muda pra que eu grite, surda pra que eu sussurre, cega pra que eu emudeça

Guilherme disse...

Dedico aos teus olhos :)

http://arkhipelago.blogspot.com.br/2012/07/sintomas.html

Roberta Mendes disse...

Salvos sãos os que guardam intacto o humor durante as quedas nos abismos. A leveza não impede a queda. Mas suaviza o impacto de tocar o fundo. Toda pena o sabe.

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Suzana Z. disse...

Adorei o texto Pipa! É sempre bom renasacer, sóbrio ou não.

Velho Santiago disse...

Pipa, só um velho tem paciência pra ouvir os outros. Não dá pra correr, não dá pra falar mais alto, não dá pensar mais rápido.. se bem que se escuta menos, é verdade. Venho aqui por gosto. Quando quiser escrever palavras cruzadas, quem sabe não a comprarei nas bancas. Se escrever poemos, lerei-os mais uma taça de vinho que amo. Foi muito bom achar esse blog. Sabe que foi indicação da Cris Carvalho, né? E cada vez que Fênix renascer eu terei alegria de voltar.