7.03.2012

Flor de Origami

Eu não pertenço à palavra. Pertenço a esta dose de Brandy e a este Monte Cristo que vim fumar na sacada  concluí medindo as dimensões exatas das pétalas que teria a flor de origami que havia forjado das réstias de um papel laminado.
Tal qual um moinho de vento, girei a flor entre os dedos e observei a auréola espectral de fumaça que a rodeava, imaginando que tipo de verdade estaria escondida nos reflexos daquela rosa espelhada.
Olhei para o alto tentando desviar o rosto da flecha de interrogação que os astros, num propósito piedoso e louvável, dispararam em minha direção.
Um balão vermelho pousou na sacada do prédio. Observei-o em silêncio, estudando seu voo precário, cambaleante, hermético. O ar se tornou pesado e, por um momento, a lua se escondeu e as estrelas se apagaram do céu. Sem alegria nem tristeza, o mundo parou alheio e o tempo ficou suspenso no teto negro e sem fundo do universo.
Esta coisa não vai subir  emburrei. Vai sim! Por bem ou por mal  ameacei. Recordo-me. Eram manhãs de domingo, janelas abertas, céu sem nuvens, dias claros. A brincadeira preferida dos meninos e meninas que pelas ruas se via era encher os balões até que estivessem prontos para um voo. Um voo às vezes cômico, outras vezes trágico. Os balões coloridos que se agitavam no alto iam carregados de sonhos, alegrias e sorrisos que soltávamos. Outrora, o sopro dos pulmões alcançava uma causa. O que soprávamos no balão, soprávamos mesmo era o que nos corria dentro. Em cada respiro, um desejo. Em cada movimento, um medo. A graça estava na leveza das almas que o vento embalava, na linha tênue que fazia com que os fios invisíveis de destinos se entrelaçassem.
Coloquei o indicador entre os lábios como se pudesse e quisesse silenciá-los. Perguntei-me se ainda seria capaz de amar alguém como um dia o amei. Passei os últimos anos com uma pilha de papéis em branco tentando advinhar os contornos daqueles intermináveis dedos de anjo. Recusava-me a enfrentar seus olhos sempre tristes, então escolhi as mãos, porque elas são o que lhe dizem. Lembro que cheguei a desenhar alianças com mil centímetros de diâmetro. Mas nenhuma delas era o seu tamanho. Viver era isso mesmo. Era também enxergar a impossibilidade do amor, apesar de eterno.
Olhei à frente. O balão continuou parado. Oculto ao vulgo. Tinha-o ao alcance das mãos, mas não fui capaz de lhe estender os braços.  O balão ficou pequeno, já não me cabia dentro. Com o tempo, o sopro vai ficando fraco e o ar já não basta para inflá-lo. A alma se esvazia, a pele murcha, a cor muda. Meu coração está exausto    falei interrompendo o giro da flor entre os dedos.
Sorvi a última gota do copo, atirei a flor de metal para o alto e piquei o balão com a ponta esbraseada do cigarro. Se bem me lembro, crescemos. E agora era um balão furado. A rosa de origami rodopiou como uma bailarina sem sapatilhas sob aquela chuva emborrachada de retalhos. Chorei de consternação. E lá se foi o que tínhamos de mágico.
Como me doeu isso. Ser flor, a mulher jogada no caminho.


Lídia Martins

9 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Pensando aqui na possibilidade de voltar no tempo. De ter também o poder de seguir algum daqueles balões. Para onde vão? Quanto tempo aguentam na viagem? Será que alguém mais o apanha? E os sonhos soprados dentro, seriam entendidos ou assimilados por essa outra pessoa? Então fiquei triste com a ideia de que não importa a intensidade do desejo que sopramos, uma vez estourado o pobre balão em suas delicadas paredes de látex, não há como segurar a evanescência dos espíritos ali contidos. Dói a ideia do impossível, do intransferível, do não compartilhável.
Consola que a literatura possa ser como um balão, só que mais durável. E que se pode entender. E com sorte, assimilar.
Seu texto emocionou-me sobremaneira. Porque no mais das vezes e das revezes, pouco ou nada lembramos que já fomos crianças.

Beijo, minha eterna querida

Velho Santiago disse...

Em breve passagem a Ouro Preto, numa das igrejas, dois anjos ostentavam símbolos. O primeiro uma ampulheta; o segundo uma caveira. Significavam: "O tempo é curto e a morte é certa". De todos os lugares que me emocionei, ali fora mais um. Sabemos disso. E fazemos tantas coisas contraditoriamente. Dessa minha última fraquejada, também olhei meu balão ali, parado, tão ali... e ficou pequeno enquanto eu não mais cumpria mecanicamente o ato de respirar. Por sorte o coração não parou...

Se bem me lembro, quando crescemos, modificamo-nos. As coisas são outras, os balões precisam de outros gases, as flores outras cores e, eu, outros sabores. Aos 31 posso dizer que perdi o que havia de mágico.. saber disso é cruel. E ter que viver com o mesmo peso sem mágica alguma é brabo. Penso se voltará a magia. E acho que agora depende dela chegar pelos outros. A minha gastei todinha, sobrando pra mim apenas os sacos em que guardava sonhos mágicos, futuros que SIM, DESENHEI, e tantas coisas que pensei realizar.

Fui, por todo caminho, sapo. Já falei em outros cafés. E fui jogado pelo caminho. Me acostumei com ele. Aprendi suas passagens secretas e atalhos também mágicos. Dessa última, senti tão doido que tive certeza que não precisava mais ser assim. E escolhi fazer um caminhar belo, de descobertas, sem recorrer aos atalhos frios e por vezes escuros que optava. Se chegarei mais tarde dessa vez, ao menos não perderei mais nenhum amanhecer. E olharei o por-do-sol tristemente, quem sabe ao lado de outro andante.

Pipa, Lídia quando queres, menina, moça ou velha. É isso o caminho. Podes ir contra? Podemos ir contra? Você tem o DIREITO de ser quem quiser, estar com quem quiser e falar com quem quiser. É sua ESCOLHA ir e vir, voltar, revisitar e ir novamente. DEVE escrever pra quem quiser, quando quiser e SENTIR o que puder quando puder sentir. Peço que continue DIZENDO o que sentir que deves. E se SENTIR que deves ir, vá, como em tantos outros momentos já o fez. E volte. ESTAREI ESPERANDO SEMPRE SORRINDO, BRAÇOS ABERTOS E UMA CAIXA DE BOMBONS ESCONDIDA PRA VOCÊ (a metade é minha, claro).

E se mesmo assim tiver/precisar ir embora, vá. Mas me leve com você. Édith Piaf já sabia disso. Eu reproduzo aqui.

Aquele trêmulo abraço do velho.

Anônimo disse...

O meu(coração)também esta exausto, mas sabe o que me incomoda nessa história? É o destino dessa rosa de origami, penso que dói nela, ja ter nascido solitária.

Saudações!

Emoções disse...

Escritores são aqueles seres aparentemente comuns,que possuem a misteriosa habilidade de traduzir os sussurros do Vento...

Be Lins disse...

Menina Pipa.

Viver é procurar. Desesperadamente, como você disse.
São muitas as procuras. Precisamos das respostas que nos vêm dos outros. Das palavras que precisam vir daquele algúem. Precisamos de atenção, de entendimento, de poesia, de ar, de sol de vida, e ainda temos o medo da morte, que seria o nada encontrar. Precisamos de tudo, com urgência, porque somos seres alterados, mas eu penso assim:

_ Pipa, enquanto houver inquietação e desejo de encontrar, arrisco dizer, estaremos salvas.

Continue a escrever. Escreva até sangrar. Cure-se e continue.Não pare. Nunca.

Eu escrevo por escrever. Preciso da companhia que minhas palavras fazem a mim mesma. Nunca me respondem nada, mas me acalmam e me permitem dormir ainda que sem respostas. Simplesmente assim.

Você escreve porque você é muito boa nisso. Porque você não faz perguntas apenas, você acha as respostas. O dom de um artista está em saber jogar areia nos olhos e provocar, emocionar, fazer delirar, alçar o voo. Este me parece o seu movimento, e você o faz, belamente. Tanto nas perguntas, quanto nas respostas. E estilo, menina, este não te falta.


Beijo grande
e sempre ás ordens.

Be

Sizií disse...

=D.
LEGAL

Anônimo disse...

Enquanto lia, pensei até o fim na flor de origami, imaginei a rosa espelhada que caia.
E eu só pensei que naquele instante, entre o nascimento e a morte, quão breve, triste e solitária, foi a vida daquela flor/rosa de origami.
Entendi depois de tudo, que ela era a minha personagem preferida na história.
Saudações!

Rafaelle Melo. disse...

Como doeu isso...

A flor, a saga do balão vermelho, ver a mulher na sacada espelhada e espelhando-me.

Doi mesmo, Pipa, mas há vida além da alma apertada. Tenho pensado que o aperto é só a constatação de que a vida por dentro se tornou maior. As vezes cresecemos tanto em alma que nos redimensionamos e nem sempre cabemos mais no peito que era um lar. Injusto as vezes, mas é a justiça da vida com sua essência de movimento. Porque a vida é dança entre flores de origami, e é tão contínuo que para não partir o que somos, temos que partir partindo de nós. Aceitar a despedida do que não é mais. Dar boas vindas para o belo espaço que o movimento da vida fez nascer dentro de nós!

Já falei mais do que queria.

Te abraço forte, com meus olhos sempre preenchidos nas tuas linhas e meu coração unido a ti em amizade.

z i r i s disse...

Mas, que bonito mesmo haveria de ser esta habilidade em ver flores até em caminhos abandonados.


Mas que mal gosto, diria brega e um tanto ultrapassado, prever o destino final trágico de uma flor-mulher. Quando sua morte não reside nas pétalas caídas e sim nos brotos que a ressuscitam. Uma mulher tem sempre outra página na manga. Que descabido veredicto! Nem os videntes de rua já não o fazem.

Conta comigo e um entulhado de papéis em branco que tenho preparado para tuas novas histórias, algumas violetas e ainda uns Monte Cristo para degustação à beira de montes de sonhos a se concluir.

Beijo da prima,

Ziris